






O Misterioso Caso de Styles
Agatha Christie 1920





Traduzido por
Germani Conceno




"A Vida  Um Teatro de Humor Negro"


Grasiani Santos







Eu Vou Para Styles
 O intenso interesse despertado no pblico pelo que ficou conhecido na poca com 
"Caso Styles" est, de certa forma, esquecido. Todavia a opinio pblica ainda d certa ateno ao 
assunto; eu tenho pedido tanto para meu amigo Poirot quanto para a famlia, para que pudesse escrever um 
relato sobre a histria. Isto, ns acreditamos, silenciar os rumores sensacionalistas que ainda persistem.
 Vou expor, resumidamente, as circunstncias que fizeram com que eu tivesse certa ligao com o  
incidente.
 Eu estava internado em uma casa de sade e, aps passar vrios dias l, consegui uma licena de sade 
de um ms. No tendo relaes prximas e nem amigos tentava manter minha mente ocupada, quando 
encontrei- me com John Cavendis h. Tinha conhecido ele quando era apenas um garotinho, mas de fato 
nunca o havia conhecido particularmente bem. Ele era uns bons 15 anos mais velho, mas no aparentava j 
estar na casa dos 45. Quando garotinho, lembrei, s vezes passava uns tempos em Style s, morada de 
sua me em Essex.
 Ns tinhamos boas lembranas do passado,   isso resultou num convite para que eu fosse passar minha 
licena na cidade


- Minha me ficar feliz em rev- lo, aps todos esses anos. - disse ele
.
-Sua me est bem? - perguntei

- Ah, sim! Suponho que voc saiba que ela casou de novo.
 Deixei transparecer minha surpresa. A Sra Cavendish casou com o pai de John quando era muito nova, 
mesmo ele j sendo  vivo e tendo dois filhos. Ela no deveria ter menos de setenta anos agora! Eu a 
conheci com uma personalidade enrgica, autocrtica, bondosa para com os outros; muitas vezes abria 
bazares para arrecadar dinheiro para obras de caridade. Era uma mulher de bom corao, e possuia uma 
boa fortuna.

        O seu cantinho verde, o stio em Styles, fra comprado pelo Sr Cavendish assim que casaram. Ele 
era completamente louco pela esposa e, com a morte, deixou para ela o stio enquanto ela vivesse, e tamb 
m um bom dinheiro em um testamento que, de certa forma foi injusto com seus dois filhos. A madrasta, 
de qualquer modo, sempre foi generosa para eles; eles eram ainda muito jovens quando o pai casou de 
novo, ento a consideravam como sua prpria me.

        Lawrence, o mais moo, teve uma juventude delicada. Se formou em medicina mas logo desistiu da 
profisso; vivia em casa escrevendo, e acreditava que seus versos alcanariam sucesso de fato.

        John exerceu por algum tempo a profisso de advogado, mas logo decidiu viver no campo. Ele havia 
casado dois anos antes, e trouxe a esposa para viver no stio. Penso eu que o que o trouxe ao stio foi a 
possibilidade de "engordar" a sua renda. A Sra Cavendish gostava de fazer seus prprios planos; talvez 
esperasse outra pessoa para morar com eles e, nesse caso, certamente estaria no controle da situao.


        John percebeu minha surpresa ao receber a notcia do casamento de sua me, e deu um sorriso 
sarcstico.
- Um podre de um aproveitador, - disse ele rudemente - ele perturba a gente. Tambm
Evie, lembra de Evie?


-No.

-Oh, suponho que ela tenha aparecido depois de sua poca. Ela  o brao direito da madrasta. Mo 
para toda obra. Um grande apoio, boa Evie! No precisamente jovem e bonita, mas sabe fazer todos 
danarem conforme a msica.


        _Voc estava dizendo...

- Ah, este homem! Ele surgiu do nada com a desculpa de que era primo segundo ou algo assim de 
Evie, mesmo que Evie no conseguisse encontrar uma relao de parentesco entre eles. Esse homem  
um estranho, qualquer um v isso. Ele tem uma perptua barba longa e negra, e sempre que chove usa as 
mesmas botas de couro, como se fossem as nicas que existissem. At que um dia mame simpatizou 
com ele e o tornou seu secretrio; voc sabe como ela sempre anda correndo entre uma centena de 
associaes!


- Realmente. - pensei.

- Bem, a guerra transformou as centenas em milhares. Sem dvida ele foi muito til para ela. Ns 
poderamos t- lo suportado, no fosse o que aconteceu h 3 meses atrs: ela surpreendentemente 
anunciou que ela e Alfred estavam comprometidos! Sem dvida que ele est apenas atrs do dinheiro dela; 
mas ela decidiu por ela mesma, e eles casaram. Ele deve ser no mnimo 20 anos mais novo!


- Deve ser uma situao difcil para vocs.


- Difcil?  quase que desastrosa!

        E assim parti trs dias depois. Abandonei o trem na estao Styles St Mary, uma daquelas estaes 
absurdamente pequenas, sem razo aparente para existir, empoleiradas entre pradarias e florestas. John 
Cavendish aguardava-me na plataforma, e dirigiu- me at o carro.

-Consegui um pouco de gasolina, veja s. - disse ele - Mas isso graas  influncia de mame.

        A vila de Styles St Mary localizava- se a uns dois quilmetros da estao, e o stio Styles 1 
quilmetro aps ela; era um dia quente e calmo, pelos idos de julho. Peguei- me a observar os campos de 
Essex, perfeitamente nivelados, to verdejantes e pacficos sob o sol da tarde! Quase impossvel de 
acreditar que no muito longe desencadeava- se uma grande guerra. Senti como se estivesse perdido em 
um outro mundo. Quando entramos no stio, John disse:


- Estou com medo que voc ache o lugar muito montono e quieto, Hastings.


- Ah, meu velho amigo, paz  o que mais desejo atualmente.

- Bem, com certeza aqui  um lugar ideal para se levar uma vida sossegada. Eu trabalho com os 
voluntrios 2 vezes por semana, e dou uma mozinha aos trabalhadores da fazenda no resto do tempo. 
Minha esposa tambm ajuda. Ela levanta todas as manhs s 5 horas para ordenhar as vacas, e se 
mantm trabalhando at a hora do caf.  uma tima vida, levando- se em considerao toda a beleza e 
paz que se tem ao redor. Logicamente no se levando em considerao Alfred Inglethorp!


        Ele olhou rapidamente pelo carro:

























- Eu ficaria agradecido se ns tivssemos um tempinho para pegar Cynthia...  No, ela j deve ter deixado o 
hospital a essa hora.


-Cynthia! Sua esposa, no?

-No. Cynthia  uma enteada de minha me, filha de uma velha colega de escola dela, que acabou 
casando com um advogado corrupto. Ele morreu, e elas foram deixadas  merc da sorte. Minha me 
correu em seu socorro, e ela est com a gente h dois anos. Ela trabalha no hospital da Cruz Vermelha, 
em Tadmindster, 5 quilmetros adiante.


        Enquanto ele  pronunciava as ltimas palavras, ns nos aproximvamos de uma casa muito bem 
conservada, mas que deixava  mostra sua arquitetura antiga. Uma senhora corpulenta, que estava 
inclinada sobre um canteiro de flores, veio em nossa direo.


-Oi Evie, aqui est o nosso heri ferido! Sr Hastings - Srta Howard.


        A Srta Howard saudou- me com um firme - quase doloroso - aperto de mo. Notei seus olhos azuis 
que contrastavam com a pele queimada pelo sol. Ela era uma mulher atraente
de mais ou menos 40 anos, com uma voz profunda quase masculina no seu tom grave; um corpo quase 
bem d efinido e ps largos, encaixados em botas macias. Sua conversa, logo percebi, dava- se em um tom 
telegrfico: frio e contnuo.


- As ervas daninhas crescem muito rpido; melhor ter cuidado, seno elas acabam lhe vencendo.


-Se precisar de alguma ajuda, pode contar comigo.


-No deveria ter dito isso! Logo estarei perturbando voc.




rua?
?

-No seja boba, Evie! - disse John, sorrindo - Onde ser o ch hoje? Na sala ou na



-  um dia muito bonito para ficarmos engaiolados dentro de casa.


- Venha, ento; chega de jardinagem por hoje. O trabalho  recompensado quando se recebe o 
pagamento, voc sabe.


-Certo, Voc venceu! - disse Evie tirando as luvas de jardinagem.

        Ela dirigiu- nos at onde o ch estava sendo servido, sob a sombra de uma grande rvore.





















        Uma mulher de pele rosada levantou de uma das cadeiras e veio a passos largos para encontrar- nos.


- Esta  minha esposa, Hastings! - disse John.

        Nunca mais esquecerei minha primeira viso de Mary Cavendish. Uma mulher impressionante; altura 
ideal, corpo bem definido contra os raios de luz, o vvido e deslumbrante senso que firma va expresso em 
seus lindos olhos; olhos marcantes, diferentes dos de qualquer outra mulher que eu j havia conhecido. 
Correu- me a impresso de estar frente  um esprito selvagem, esquisitamente moldado em um corpo 
civilizado. Tudo isso ficou marcado em minha memria. Com certeza eu nunca mais a esqueceria.

        Ela saudou- me com algumas palavras de boas- vindas em um tom de voz suave e um tanto 
agradvel; ento fui me sentar na roda do ch, satisfeito por ter aceito o convite de John. Mary serviu- me 
um pouco de ch, e o seu jeito quieto e prudente veio a reforar meu conceito sobre ela, o de uma mulher 
extremamente fascinante. Um ouvinte atento  sempre agradvel e estimulativo, e eu descrevia de maneira 
bem humorada alguns fatos ocorridos enquanto estava na casa de sade; isso fazia com que eu me 
distrasse e ainda agradava consideravelmente minha ouvinte. John, estava claro, passava longe de ser um 
bom conversador.


        Ento ouvi uma velha conhecida voz atravs de uma das janelas prximas:


- Voc escrever  princesa aps o ch, Alfred? Eu escreverei novamente para
Tadmindster. Depois j no temos a Duquesa a par da situao da escola?


        Houve um murmrio de uma voz masculina e aps a Sra Inglethorp disse em resposta:


-Sim, com certeza. Aps o ch discutiremos isso mais a fundo.

        Uma porta se abriu e uma velha senhora de cabelos brancos, de aparncia marcante e respeitvel, 
saiu para o gramado. Um homem a seguia, igualme nte com jeito respeitvel e com boas maneiras.


        A Sra Inglethorp saudou- me com alegria.


-Ora! Estou muito contente em v- lo de novo Sr Hastings, aps todos esses anos. Alfred querido, 
venha c. Sr Hastings; meu marido.

        Eu olhei com certa curiosidade para "Alfred querido". Ele certamente se parecia com um forasteiro ou 
algo assim. Tive de concordar com John sobre a longa barba; uma das mais negras que eu j vi. Ele usava 
um broche de ouro e parecia ter um carter impassivo, como se nada o atingisse. Parecia estar com o 
papel perfeito na encenao, mas no lugar





















errado na vida real. Sua voz era profunda e deixava transparecer a falta de sinceridade. Ele colocou a mo 
no meu ombro e disse:


-  realmente um prazer, Sr. Hastings! -  depois, virando- se para a esposa - Emily, querida, acho que 
esta almofada est um pouco desconfortvel, no?


        Ela sorriu carinhosamente para ele, enquanto ele substituia a almofada com toda a demonstrao d e 
carinho. Estranha paixo de uma mulher sensivelmente diferente.

        Na presena do Sr Inglethorp, o pressentimento de falsa hospitalidade parecia me acompanhar. A 
Srta Howard, em particular, no escondia nada nem trazia desconfianas. A Sra Inglethorp, mesmo assim, 
demonstrava algo diferente. Sua volubilidade, como eu lembrava dos velhos tempos, no havia se perdido 
com o passar dos anos, e ela deixou escapar uma enxurrada de conversa, principalmente sobre o 4 bazar 
que ela vinha organizando e que ainda no tinha nem data e nem lugar definido. Ocasionalmente dirigiu- se 
ao marido para perguntar sobre dias e datas. Ele nunca variava suas maneiras atentas e desconfiadas, e 
ento firmei minha antipatia por ele e constatei que minha primeira impresso estava correta.


        A Sra Inglethorp saiu para instruir Evie sobre algumas cartas, e seu marido virou-se para mim e 
perguntou com sua voz polida:


- Voc no foi convocado pelo exrcito, Sr Hastings?


-No, antes da guerra eu estava em Lloyd.


- E retornar quando a guerra acabar?


- Depende. Ou isso ou irei comear minha vida novamente.


        Mary Cavendish inclinou-se para frente lentamente:


-Se voc pudesse escolher uma profisso, o que escolheria?


- Bem, isso depende.


-Nenhum hobby secreto? No h nada que voc gostaria de fazer? Alguma coisa h, com certeza, 
mesmo que seja absurda.


- Voc vai rir de mim.


        Ela sorriu.





















-Quem sabe...


- Bem, eu sempre desejei ser um detetive!


- A coisa real tipo Scotland Yard; ou apenas Sherlock Holmes?


-Sherlock Holmes. Na verdade estou muito atrado por isso. Lembro- me de um
homem na blgica, uma vez, um famoso detetive, ele que despertou esse interesse em mim. Ele era um 
sujeito brilhante, afirmava que para cada tipo de caso havia um mtodo a ser empregado. Meu sistema  
baseado no dele, s que eu estou muito mais longe de ser promovido. Ele era um homem muito divertido, 
grande humorista, mas absurdamente talentoso e inteligente.

-Como uma das minhas prprias histrias de detetive. - mencionou a Srta Howard - Um monte de 
escritos sem sentido, penso. O criminoso descoberto no ltimo captulo. Todos so suspeitos, voc quer 
saber o que realmente aconteceu.


- Existe um grande nmero de crimes no desvendados. - retruquei.


-Isso no se deve  polcia, mas s pessoas que esto diretamente envolvidas nisso: a famlia. Voc 
no poderia engan- los realmente; de algo eles desconfiariam.


- Bem, - eu disse - voc pensa que se estivesse envolvida em um crime, digo, um assassinato, voc 
saberia ou teria quase certeza de quem seria o assassino?


-Com certeza. Talvez no tivesse como provar para os advogados, mas certamente eu saberia. Se ele 
estivesse por perto, eu sentiria isso na ponta de meus dedos!


-Poderia tambm ser "ela". - sugeri.


-Poderia. Mas assassinato  um crime violento, associa - se muito mais a um homem.

-No no caso de envenenamento. - a Sra Cavendish surpreendeu- me - O Dr Bauerstein estava 
dizendo ontem que devido  ignorncia geral por parte do povo em relao aos mais variados tipos de 
venenos que circundam a medicina, um caso de envenenamento sem fortes suspeitos  mais difcil.

-Nossa, Mary! Que conversa mais esquisita! - argumentou a Sra Inglethorp - Isso me faz sentir como 
se eu estivesse cavando meu prprio tmulo. Ah, Cynthia chegou.


        Uma moa jovem usando um uniforme da V.A.D. cruzava o gramado.


-Cynthia, voc chegou tarde hoje. Sr Hastings, Srta Murdock.

























        Cynthia Murdock era uma criatura admirvel, cheia de vida e vigor. Livrou- se do seu quepe da V.A.D., 
e assim pude admirar seu belo cabelo ondulado; tambm no pude deixar de notar que suas mos eram 
pequeninas e brancas. Ficaria ainda mais bonita com olhos e clios escuros.


        Ela sentou- se na grama ao lado de John, e quando eu alcancei a ela o prato de sanduches, ela 
sorriu para mim.


-Sente- se aqui na grama,  muito melhor.


        Abandonei a cadeira e sentei na grama.


- Voc trabalha em Tadmindster, no ?


        Ela concordou.


-Pelos meus pecados!


- Eles maltratam voc l? - perguntei sorrindo.


- Gostaria de v- los fazerem isso! - argumentou Cynthia com dignidade.


- Eu tive uma prima que foi enfermeira, e ela se apavorou com as irms.

-No estou surpresa. As irms simplesmente esto l e pronto, Sr Hastings. Elas simplesmente 
esto l! Voc nem sabe ao certo para qu. Mas eu no sou enfermeira, agradeo aos cus, eu trabalho 
em uma espcie de depsito de produtos qumicos. Parecido com um almoxarifado.


-Quantas pessoas voc j envenenou? -perguntei, sorrindo.


        Cynthia sorriu tambm.


-Centenas! - ela disse.


-Cynthia! -  chamou a Sra Inglethorp - acha que pode tomar nota de algumas coisas para mim?


-Claro, tia Emily.





















        Ela levantou-se prontamente, e alguma coisa em sua maneira lembrou- me que ela estava na posio 
de dependente, e que a Sra Inglethorp, bondosa como sempre foi, fazia com que ela no se sentisse bem 
ao recusar uma ajuda.


        Minha anfitri dirigiu-se a mim.


-John mostrar o seu quarto. O jantar ser servido s 7:30. Ns temos jantado cedo por essas 
pocas. A Sra Tadmindster, esposa de um de nossos membros e tambm a ltima
filha do Lorde Abbotsbury, faz o mesmo. Ela concorda comigo no fato de que algum tem que dar um 
exemplo de economia. Ns estamos encarando uma verdadeira guerra domstica; nada  desperdiado 
aqui, cada pedao de papel  recolhido e enviado em sacos.


        Eu expressei meu reconhecimento, e ento John levou- me para dentro de casa; subimos uma ampla 
escadaria que no meio dividia- se em duas, indo uma parte para cada lado da casa. Meu quarto era do lado 
esquerdo, sobre a garagem e estacionamento dos carros.

        Logo depois de John ter sado, eu o vi caminhando pela grama lentamente de braos dados com 
Cynthia. Ouvi a Sra Inglethorp chamar por Cynthia impacientemente; a garota abandonou John e voltou 
correndo. Na mesma hora um homem saiu debaixo de uma rvore e seguiu na mesma direo. Ele 
aparentava uns 40 anos; era moreno, e com a barba bem aparada. Alguma emoo violenta parecia tomar 
conta dele. Enquanto caminhava olhou para minha janela, ento consegui reconhec-lo; como havia 
mudado em 15 anos! Era Lawrence Cavendish, o irmo de John. Fiquei curioso para saber  o que havia 
causado aquela expresso em seu rosto.


        Logo esqueci dele e retornei aos meus afazeres.


        A noite foi suficientemente agradvel, e eu acabei sonhando com a mulher enigmtica: Mary 
Cavendish.


        De manh acordei sob um sol radiante, um dia perfeito; eu previa uma bela estadia.


        No vi Mary at a hora do caf da tarde, quando ela convidou- me para caminharmos um pouco; 
gastamos a tarde caminhando e conversando, e retornamos prximo s 5 horas.

        Quando entramos, John chamou- nos at a sala dos fumantes. Vi pela expresso em seu rosto que 
algo o atormentava. Ns o seguimos e ele fechou a porta logo aps entrarmos.


- Escute Mary, aqui est uma confuso dos diabos. Evie teve uma discusso com
Alfred Inglethorp, e foi embora!





















- Evie saiu logo aps?


        John concordou preocupadamente.


-Sim. Veja para onde ela foi, e... Ah, aqui est ela!


        A Srta Howard entrou. Seus lbios estavam severamente cerrados, e ela trazia consigo uma pequena 
blusa.


-Que dio! - estourou - Deveria ter desconfiado!


- Evelyn, no pode ser verdade!

-  a pura verdade! Disse para que Emily no julgasse ou perdoasse precipitadamente, mas ela no 
me deu ouvidos. Eu disse: "voc  uma mulher muito velha, Emily! O homem  20 anos mais moo que 
voc, por que ele casaria com voc? Dinheiro! Bem, no  d muito a ele... O Sr Raikes tem uma esposa 
muito jovem e bonita, pergunte ao seu Alfred quanto tempo ele gasta l de vez em quando!" Ela ficou 
furiosa. Natural! Eu disse ainda:
"eu estou lhe avisando, qualquer noite dessas esse homem vai assassin -la na sua prpria cama enquanto 
voc dorme! Ele  muito mal encarado; no esquea disso!"


- E o que ela disse?


        A Srta Howard fez uma cara expressiva:


- "Querido Alfred" - "Amado Alfred" -  "Calnias mal intencionadas" - "Mentiras contra ele". Ento eu 
deixei a casa imediatamente, e estou caindo fora!


- Mas agora?


-Neste exato momento!

        Por um momento ns sentamos e ficamos a observ- la. Finalmente John, sem o que dizer, saiu para 
refletir; sua esposa logo o seguiu, falando algo sobre persuadir a Sra Inglethorp a pensar melhor nisso.


        Quando eles deixaram a sala, o rosto da Srta Howard mudou. Ela aproximou-se de mim:


-Sr Hastings, voc  honesto. Posso confiar em voc?


        Eu estava um pouca surpreso. Ela ps sua mo no meu brao, e baixou sua voz a um simples 
sussurro:

























- Veja, Sr Hastings. Minha pobre Emily... Eles so um bando de aproveitadores! Sei o que eu estou 
dizendo! Todos eles so! Todos tentam arrancar o dinheiro dela! Eu a tenho defendido como pude at hoje, 
mas agora estou abandonando tudo. Eles iro arrancar o que puderem dela.


- Eu entendo Srta Howard; voc est um tanto nervosa e talvez julgando precipitadamente.


        Ela interrompeu-me fazendo um "no" com o dedo indicador:


- Acredite em mim. Eu vivo aqui h muito tempo e sei o que eles querem. Tudo que eu peo  que 
voc fique de olhos bem abertos, e ento ver o que eu quero dizer!


        O barulho do motor de um carro foi ficando mais audvel, enquanto a Srta Howard levantava- se e se 
dirigia  porta. Ouvia- se a voz de John ao longe. Ela virou-se para mim j com a mo na fechadura, e se 
despediu.


- Acima de tudo, Sr Hastings, vigie o Demnio: Alfred Inglethorp!


        No havia tempo para mais. A Srta Howard partia em meio  um coro de protestos e tchaus. Alfred e 
Emily Inglethorp no apareceram.

        Quando o carro foi embora, a Sra Cavendish separou-se do grupo alcanando o gramado do outro lado 
da estrada, para encontrar um homem gordo que estava, evidentemente, chegando na casa. Sua face 
rosou-se enquanto ela o cumprimentava.


-Quem  esse? - perguntei.


-O Dr Bauerstein! - disse John brevemente.


- E quem  o Dr Bauerstein? - insisti.


- Ele est na vida se recuperando de um ataque nervoso;  um especialista de Londres, penso eu que 
um dos maiores especialistas em venenos da atualid ade.


- E  um grande amigo de Mary! -  interferiu Cynthia.


        John olhou reprovadamente para ela e mudou de assunto.

- Vamos dar uma volta, Hastings. Isso tem sido um problema; ela sempre teve a lngua solta, ma s 
mesmo assim no existe no mundo amigo melhor que Evelyn Howard.





















        Tomamos o caminho da plantao e caminhamos em direo  vila atravs das rvores que beiravam 
os limites da fazenda.


        Enquanto passvamos por uma porteira no caminho de volta para casa, encontramos uma mulher 
muito jovem que vinha na direo oposta; ela cumprimentou- nos e sorriu.


- Uma mulher muito bonita. - observei.


        John olhou- me seriamente.


- Essa  a Sra Raikes.


- A quem a Srta Howard referia-se?


- Exatamente. - disse John em tom spero.

        Pensei sobre a velha senhora de cabelos brancos sozinha em uma casa enorme, e pensei na 
maravilhosa  mulher que cumprimentou-nos momentos atrs. Um pequeno calafrio percorreu meu corpo. 
Resolvi no pensar no que poderia estar realmente acontecendo.



-Styles  realmente um lugar muito bom. - disse eu a John.


        Ele concordou, com uma expresso triste.

-Sim, e esta  uma propriedade muito bonita; tudo isso deveria ser meu pela lei, se meu pai tivesse 
feito um testamento justo. Ento eu no estaria passando por estas dificuldades financeiras pelas quais 
estou passando.


- Dificuldades, voc?


- Amigo Hastings, faz muito tempo que eu no vejo dinheiro.


-Se irmo no pode ajud-lo?

- Lawrence? Ele pegou o pouco dinheiro que tinha e se foi na fantasia de enriquecer com a publicao 
de seus versos. No, realmente ele no poderia me ajudar. Minha me sempre foi muito boa para ns, mas 
desde que casou no nos ajudou mais. - disse ele, franzindo a testa.


        Pela primeira vez eu senti, como Evelyn Howard, que havia algo estranho no ar. Sua presena 
significava segurana, e agora essa segurana no mais existia. A figura sinistra





















do Dr Bauerstein deixou- me desconfiado. Um vago pressentimento de que estvamos  beira do caos 
invadiu minha mente, e eu pressentia o mal iminente.





2





16 e 17 de Julho




        Eu cheguei em Styles no dia 5 de julho, iniciam- se agora os eventos dos dias 16 e 17. Para 
convenincia do leitor, recapitularei os incidentes exatamente como aconteceram, na medida do possvel. 
Eles iro elucidar o subseqente processo de eliminao por cruzamento de informaes.

        Recebi uma carta de Evelyn Howard alguns dias aps sua partida, ela dizia que estava trabalhando 
como enfermeira de um grande hospital em Middlingham, uma cidade industrial que localiza- se 15 milhas 
adiante, e pedia- me para dizer se a Sra Inglethorp demonstrava desejo de reconciliao.

        O nico pesar dos meus dias era a preferncia de Mary pela companhia e amizade do Dr Bauerstein. 
O que ela viu no homem realmente eu no sei, mas ela sempre o convidava para ir at a casa, e s vezes 
saiam para verdadeiras expedies. Devo confessar que estou louco para descobrir o que a atrai tanto.

        O dia 16 caiu em uma segunda- feira, um dia muito tumultuado. O bazar havia acontecido no sbado, 
e uma festinha para entretenimento e tambm para fins de caridade, onde a Sra Inglethorp iria recitar 
poemas de guerra, iria acontecer naquela noite. Durante a manh todos estvamos ocupados decorando 
um salo na vila, onde a festa iria acontecer. Tomamos um lanche e passamos a tarde descansando no 
jardim. Percebi que John estava um pouco diferente, parecia nervoso ou cansado.


        Aps o ch, a Sra Inglethorp foi dormir um pouco antes dos eventos da noite, e eu desafiei Mary para 
uma partida de tnis.


        s 6:45 a Sra Inglethorp chamou- nos e disse que estvamos atrasados para o jantar. Corremos para 
ficarmos prontos a tempo; e antes do fim da refeio o carro estava esperando na porta.





















        A festa foi um grande sucesso, o recital da Sra Inglethorp foi intensament e aplaudido. Houve tambm 
algumas encenaes nas quais Cynthia tomou parte. Ela no voltou com a gente, tendo pedido para ficar 
no jantar da festa, e depois gastar a noite com alguns amigos que tambm participaram da encenao.

        Na manh seguinte a Sra Inglethorp tomou o caf da manh na cama porque estava muito cansada; 
mas em torno das 12:30 havia levantado com toda a disposio, e levou Lawrence e eu para almoarmos 
fora.


-Sem dvida um aprecivel convite das Sra Robbstson. Irm da Sra. Tadmindster, voc sabe. Os 
Robbston so velhos amigos e sempre nos ajudaram muito.


        Mary deu a desculpa de um compromisso com o Dr Bauerstein e no foi.


        Ns tivemos um lanche agradvel, e quando voltvamos para casa Lawrence sugeriu que votssemos 
por Tadmindster, um pouco mais longe, para visitar Cynthia em seu servio. A Sra Inglethorp disse que era 
uma excelente idia, mas que tinha algumas cartas para escrever; ela nos deixaria l e ns retornaramos 
com Cynthia.

        o porteiro segurou- nos na porta do hospital at que Cynthia veio interceder por ns; ela usava um 
longo guarda-p branco. Ela nos levou at o almoxarifado e apresentou- nos para sua companheira de 
servio, uma moa um tanto tmida a qual Cynthia cha mou de Nibs.

-Que monte de frascos! - exclamei enquanto meus olhos giravam pela pequena sala - Voc realmente 
sabe o que tem em cada um deles?


- Diga algo mais original! - retrucou Cynthia - Todo mundo que vem aqui diz "que monte de frascos..." 
e eu sei at o que voc ira perguntar agora: "quantas pessoas voc j envenenou?"


        Me defendi com uma gargalhada.

-Se o povo imaginasse como  fatalmente fcil envenenar algum por engano, voc no estaria rindo 
disso. Venha, vamos tomar ch. Ns temos todo o tipo de material nesses armrios. No, Lawrence, esse 
 o armrio dos venenos. O correto  o grande.

        Tomamos um ch muito gostoso, e acabvamos de tomar o ltimo gola quando algum bateu na 
porta. Os semblantes de Cynthia e Nibs foram instantneamente petrificados.


- Entre! - disse Cynthia, em um tom profissional.





















        Uma enfermeira jovem apareceu com um frasco que foi oferecido a Nibs, esta passou o frasco a 
Cynthia com uma alegao enigmtica:


- Eu no estava aqui hoje!


        Cynthia pegou o frasco e examinou-o com a seriedade de um juiz.


- Este deveria ter sido enviado esta manh!


- A irm pede desculpas. Ela esqueceu.


- A irm deve ler os regulamentos que esto do lado de fora da porta.

        Percebi que a enfermeira no estava com a menor coragem de levar ela mesma esta mensagem para 
a temida irm.


-Isso no poder ser feito at amanh. -  finalizou Cynthia.


-No h a menor possibilidade de que fique pronto hoje  noite?


- Bem, - disse Cynthia - estamos muito ocupadas, mas se sobrar um tempinho eu verei o que posso 
fazer.


        A pequena enfermeira retirou- se; Cynthia tomou uma garrafa da pr ateleira e completou o frasco, 
depois colocou-o sobre a mesa do lado de fora da porta.


        No resisti e acabei rindo.


- Tentando manter a disciplina?


- Exatamente. As regras esto afixadas do lado de fora do balco.

        Eu segui Cynthia e sua amiga, e elas apontaram para o cartaz afixado na parede. Lawrence ficou para 
trs, mas aps alguns momentos Cynthia chamou- o para que ele se juntasse a ns. Ela olhou o relgio.


-Nada mais a fazer, Nibs?


-No.


-Ok. Vamos fechar e ir embora.





















        Lawrence estava diferente pela manh. Comparado a John, ele era uma pessoa muito difcil de se 
conhecer. Era o oposto de seu irmo em muitos aspectos; era extremamente calado e reservado. Era 
muito bem educado e se eu o conhecesse melhor, poderia ter profunda afeio por ele. Lawrence sempre 
ficava constrangido quando Cynthia estava por perto e ela ficava calada ao seu lado. Mas naquela tarde 
ambos estavam vvidos demais, e falavam como papagaios.


        Enquanto amos para casa lembrei que precisava de alguns selos, ento fizemos uma parada no 
correio.

        Quando estava saindo notei um pequeno homem que chegava. Parei ao seu lado e fiquei observando-o 
quando, de repente, ele me abraou afetuosamente.


- Mon ami Hastings! - ele exclamou -  mesmo mon ami Hastings!


-Poirot! - exclamei.


        Voltei para o carro.


- Estou muito feliz, Srta Cynthia. Este  meu velho amigo monsieur Poirot, que j no via h anos!


-Ns conhecemos monsieur Poirot, mas no sabamos que vocs eram amigos! - disse
Cynthia.

-Sim, de fato. -  disse Poirot seriamente - eu conheo mademoiselle Cynthia. Eu mesmo estou aqui 
pela caridade da Sra Inglethorp. - depois, quando olhei pensativo: - Sim, meu amigo! Ela hospitaleiramente 
acolheu sete de meus compatriotas refugiados. Ns Belgas sempre lembraremos dela com muita gratido.

        Poirot era um homem extremamente baixinho. No deveria ter mais do que 1,60m, mas tinha seu 
orgulho prprio e andava de cabea erguida. Sua cabea tinha o exato formato de um ovo, mas ele nunca 
ligou para isso. Tinha um estilo militar; a limpeza de suas roupas era de invejar, acredito que causaria mais 
dor nele uma mancha de sujeira do que um tiro. Este homenzinho esquisito, que mancava um pouco, foi na 
sua poca um dos melhores membros da polcia Belga. Como detetive tinha um talento extraordinrio, 
conseguindo resolver casos complexos e emaranhados.


        Ele mostrou- me a casa onde ele e seus amigos estavam, e eu prometi que logo viria visit- los. 
Depois ele tirou o chapu para despedir-se de Cynthia respeitosamente, e ns fomos embora.





















- Ele  um homem muito amvel - disse Cynthia - no fazia idia que vocs se conheciam.


- Voc conhecia uma celebridade inconscientemente. - repliquei.


        E ento pelo resto do caminho contei- lhes alguns dos bem-sucedidos casos de Hercule
Poirot.

        Voltamos alegres e conversando muito. Quando entramos na sala, a Sra Inglethorp saiu de seu 
escritrio. Parecia triste e aflita.


- Ah, so vocs. - ela disse.


- Aconteceu alguma coisa, tia Emily? - perguntou Cynthia.

-Claro que no, - disse a Sra Inglethorp - o que poderia ter acontecido? - depois olhando para Dorcas, 
a arrumadeira que se dirigia para a sala de jantar, ordenou que trouxesse alguns selos at o escritrio.


-Sim, madame. - a velha empregada hesitou um pouco e depois concluiu - A senhora parece estar 
muito cansada, no seria melhor deitar um pouco?


- Acho que voc est certa, mas ainda tenho algumas cartas para escrever. Voc acendeu a lareira no 
meu quarto como pedi?


-Sim senhora.


- Ento irei me recolher logo aps o jantar.


        Ela entrou novamente no escritrio enquanto Cynthia a observava:


-O que realmente houve? - disse ela para Lawrence.


        Ela no a ouviu; virou-se e dirigiu- se para fora da casa.


        Sugeri a Cynthia uma partida rpida de tnis antes do jantar, ela aceitou e eu subi rapidamente para 
pegar minha raquete.


        A Sra Cavendish estava descendo as escadas. Poderia ser apenas imaginao minha, mas ela estava 
muito perturbada.


- Teve um bom passeio com o Dr Bauerstein? -  pergu ntei, tentando parecer que no tinha notado 
nada.

























- Eu no fui. - ela respondeu asperamente - Onde est a Sra Inglethorp?


-No escritrio.

        Suas mos apertavam-se contra o corrimo, e ela parecia nervosa. Desceu rapidamente as escadas, 
atravessou a sala e entrou no escritrio, fechando a porta violentamente atrs de si.

        Quando fui para a quadra de tnis momentos depois, passei frente  uma janela do escritrio que 
estava aberta, e casualmente ouvi um pedao da conversa. Mary dizia em um tom desesperado:


- Voc no ir mostrar isso para mim?


-Querida Mary, isso no tem nada a ver com o assunto !


- Ento mostre isso para mim!


-No  o que voc est imaginando. Isso no afeta voc de modo algum.


        Ento Mary acrescentou com uma crescente amargura:


-Claro! Eu j deveria saber que voc iria proteg-lo!


        Cynthia aguardava- me, e assim que cheguei disse:


- Dorcas me disse que houve uma briga muito feia.


-Que tipo de briga?


- Entre tia Emily e "ele". Espero que agora ela o mande embora.


- Dorcas por acaso estava l?


-Claro que no! Ela apenas estava passando prximo  porta deles. Isso  mesmo um estouro, eu s 
gostaria de saber por que eles brigaram.


        Na mesma hora veio- me a lembrana do lindo sorriso da Sra Raikes, e tambm de Evelyn Howard 
avisando; decidi no falar nada. Cynthia esboou um sorriso e la nou mais uma hiptese:


- Tia Emily o mandar embora e nunca mais falar com ele.

























        Eu estava ansioso para saber o que John pensava sobre isso, mas no o encontrei em lugar algum. 
Evidentemente algo ocorreu naquela tarde. Eu tentava esquecer as palavras que tinha ouvido pela janela, 
mas de qualquer jeito nunca as esqueceria completamente. Por que Mary Cavendish estava to interessada 
no assunto?


        O Sr Inglethorp estava na sala de visitas quando eu desci para o jantar. Seu rosto permanecia 
indiferente como sempre, e demonstrava um grande senso de irrealidade que me assustou.

        A Sra Inglethorp desceu logo depois. Ela parecia estar agitada, e durante a refeio manteve-se 
calada O Sr Inglethorp tambm estava calado como sempre. Rodeava a esposa de pequenas atenes, 
arrumando a almofada s suas costas e fazendo o papel de  marido devotado. Imediatamente aps o jantar, 
a Sra Inglethorp retirou- se novamente para o escritrio.

- Mande meu caf aqui, Mary. Tenho apenas 5 minutos para escrever a correspondncia!


        Cynthia e eu sentamos prximo  uma janela aberta na sala de visitas. Mary trouxe caf para ns. Ela 
ainda demonstrava estar preocupada e ansiosa.


- Vocs jovens gostam de lugares claros ou preferem o "crepsculo"? - brincou ela - Cynthia, poderia 
levar o caf da Sra Inglethorp? Eu vou tirar os restos da mesa.


        _tudo bem, Mary! - disse o Sr Inglethorp - deixe que eu mesmo levo o caf para
Emily. - ele pegou a bandeja na mo, e saiu carregando cuidadosamente.


        Lawrence seguiu- o. A Sra Cavendish sentou-se com a gente.

        Ns trs ficamos em silncio por um certo tempo. Estava uma noite muito agradvel, quente e calma. 
A Sra Cavendish abanava - se com um leque.


- Est muito quente, - ela murmurou -  acho que vamos ter uma tempestade.


        Mas tudo que  bom dura pouco. Fui rudemente "arrancado" de meu paraso por uma bem conhecida 
voz na sala principal.


- Dr Bauerstein! - exclamou Cynthia -  Chegou em boa hora.

        Em poucos segundos Alfred j o havia arrastado para dentro, com uma posterior gargalhada; brincou 
dizendo que ele no poderia ficar na sala porque estava literalmente encharcado de barro.

























-O que voc tem feito, doutor? - perguntou a Sra Cavendish.


-Primeiramente devo me desculpar. Eu realmente no queria entrar, mas o Sr
Inglethorp insistiu!


- Bem, Bauerstein, voc est desculpado. - disse John, que vinha da sala principal - Pegue um caf e 
conte- nos o que tem feito ultimamente.

-Obrigado, eu contarei. - ele soltou uma rpida risada e contou-nos como descobriu uma espcie 
muito rara de samambaia em um lugar praticamente inacessvel e, em seu esforo para tentar peg- la, 
perdeu o equilbrio caindo dentro de uma pequena poa  de barro.


-O sol secou minhas roupas - ele disse - mas eu fiquei totalmente sujo de lama.

        Neste momento a Sra Inglethorp chamou Cynthia para a sala principal, e a garota saiu correndo.


- Apenas leve para cima minhas roupas de descanso. Pode fazer isso, querida? Estou indo para a 
cama.


        A porta entre as salas era bem larga. Eu levantei quando Cynthia saiu. John estava encoberto por 
mim. Tnhamos ento 3 testemunhas que viram a Sra Inglethorp ir para seu quarto com a xcara de caf na 
mo.

        Minha noite tinha se tornado to chata e cansativa pela presena do dr Bauerstein. Parecia que o 
homem nunca iria embora. Quando ele levantou- se, finalmente, eu dei um suspiro de alvio.

        Eu vou at a vila com voc. - disse o Sr Inglethorp; depois, virando-se para John - No precisam 
levantar para abrir a porta, levarei uma chave comigo.





3





A Noite da Tragdia





















        Para que esta parte do meu relato fique mais clara, coloquei a seguir um mapa do segundo andar da 
casa. Os quartos dos empregados ficam atravs da porta B. Eles no tm comunicao com o lado direito 
da casa, onde ficam os quartos do Sr e Sra Inglethorp. (ver figura anexa).

        No meio da noite fui acordado por Lawrence Cavendish. Ele carregava uma vela na mo, e seu rosto 
agitado me fez perceber que havia algo de errado; muito errado.

-O que aconteceu? - perguntei, levantando e tentando organizar meus pensamentos dispersos.


-Ns achamos que minha me est doente. Ela parece estar tento convulses, e a porta est 
trancada por dentro.


- Vamos l ver o que est acontecendo.


        Eu pulei da cama e vesti um roupo, ento nos dirigimos para a asa direita da casa.

        John juntou-se a ns, tambm alguns empregados aproximaram-se. Lawrence virou- se para seu 
irmo:


        O que acha que devemos fazer?


        John parecia indeciso.

        John forou violentamente a fechadura, mas isso no surtiu efeito. Estava, obviamente, trancada por 
dentro.  essa hora a casa toda estava em alvoroo, e os mais alarmantes tipos de sons eram ouvidos no 
interior do quarto. Algo deveria ser feito, e rpido.

- Tente passar pela porta do Sr Inglethorp, senhor! - gritou Dorcas, apavorada - h, pobre senhora!

        Repentinamente percebi que Alfred no estava entre ns. John abriu a porta de seu quarto, estava 
totalmente escuro. Lawrence logo o seguiu com um candelabro, ento percebemos, mesmo com a dbil 
luz, que ningum estava no quarto e que a cama continuava perfeitamente arrumada.


        Seguimos imediatamente para a porta de conexo entre os quartos. Estava trancada, o que 
poderamos fazer agora?


-Oh, Deus! - disse Dorcas - O que devemos fazer?





















- Devemos tentar arrombar a porta, mas com certeza dar muito trabalho. Mande uma das criadas acordar 
Baily e mand- lo buscar o Dr Wilkins agora mesmo. Esperem um momento: no h uma outra passagem 
atravs do quarto de Cynthia? - John estava aflito.


-Sim senhor! Mas ela sempre esteve trancada, nunca foi aberta.


- Bem, vamos dar uma olhada nela.

        Ele saiu correndo rapidamente em direo ao quarto de Cynthia. Mary estava l, chacoalhando a 
moa - ela tinha um sono pesado - e tentando acord- la.


        Em poucos segundos ele estava de volta.

- Est trancada tambm. Devemos arrombar a porta, espero que ela no seja muito resistente.

        Forvamos a porta em conjunto. A fechadura resistiu durante algum tempo, mas logo cedeu  
presso e a porta abriu-se com um forte estrondo.

        Entramos todos juntos no quarto, Lawrence permaneceu segurando o candelabro. A Sra Inglethorp 
estava sobre a cama sofrendo violentas convulses, em uma das quais ela deve ter derrubado a mesinha de 
cabeceira ao seu lado. Assim que entramos seus membros relaxaram, e ela permaneceu inerte sobre a 
cama.

        John atravessou o quarto rapidamente e acendeu o lampio. Virou- se para Annie, uma das criadas, e 
mandou- a at a sala de jantar para trazer um pouco de conhaque. Depois foi socorrer sua me enquanto 
eu destravei a porta que dava para o corredor.


        Virei para Lawrence para dizer que estava saindo porque em nada mais poderia ser til, mas as 
palavras congelaram-se em meus lbios. Nunca havia visto o rosto de um homem to apavorado. Ele estava 
to branco quanto uma vela, o candelabro despencou  de suas mos trmulas e veio espatifar-se sobre o 
carpete e seus olhos, petrificados de terror ou alguma emoo desconhecida, olhavam fixamente sobre 
minha cabea para um ponto na parede. Imediatamente segui se olhar, mas nada diferente pude notar. 
Tudo parecia normal e inofensivo.


        O violento ataque da Sra Inglethorp parecia ter passado, e ela parecia querer falar com dificuldade.


- Estou melhor agora...   uma coisa repentina... como sou estpida...  trancar- me pelo lado de dentro.





















 Uma sombra apontou na cama e, olhando para cima, pude ver Mary com seu brao ao redor de Cynthia. 
Ela parecia estar segurando a garota, que parecia estar totalmente confusa. Seu rosto estava desanimado 
e ela bocejava repetidamente.

        Pobre Cynthia, est muito assustada. - disse Mary, em uma voz calma e suave. Ela usava seu 
avental branco, isso indicava que deveria ser mais tarde do que eu pensava. Percebi alguns fracos raios de 
luz atravs da cortina, e quando olhei para o relgio aproximava-se das 5 horas.


        Um estranho rudo de dor que veio da cama assustou-me. Uma dor violenta parecia tomar conta da 
velha senhora. As convulses voltaram e alcanaram dimenses terrveis. Tudo estava confuso. Ns 
corremos para seu lado mas no tnhamos como s ocorrr- la, ou se tnhamos no sabamos como. Uma 
ltima e violenta convulso derrubou-a da cama, e ela pareceu descansar; seu corpo estava todo 
contorcido. Em vo John e Mary tentavam faz- la beber mais conhaque. Alguns segundos passaram. 
Novamente o seu corpo contorceu- se naquele movimento peculiar.

        Nesse momento, o Dr Bauerstein entrou rapidamente no quarto. Por alguns instantes pareceu imvel 
a assustado observando a figura sobre a cama e, no mesmo momento, a Sra Inglethorp gritou com uma voz 
destorcida. Seus olhos fixos no Dr Bauerstein:


- Alfred... Alfred... - ento lentamente deixou- se descansar sobre a cama.


        Em um instante o doutor havia alcanado a cama; comeou a movimentar rapidamente os braos da 
Sra Inglethorp enquanto ao mesmo tempo aplicava a respirao
artificial. Ele deu algumas curtas ordens aos criados, e com um sinal de mo ordenou- nos a sair do quarto. 
Todos sentamos em nossos coraes que j era tarde demais, nada mais poderia ser feito agora. Pude ver 
pela exp resso do Dr Bauerstein que ele mesmo tinha poucas esperanas.

        Finalmente ele desistiu, e saiu balanando a cabea negativamente. No mesmo instante ouvimos 
passos se aproximando, e o Dr Wilkins, mdico da Sra Inglethorp, entrou apressadamente.

        Em poucas palavras o Dr Bauerstein explicou que estava passando pelo porto do stio e viu um carro 
sair rapidamente, ento veio o mais rpido que pde at a casa. Com um gesto indicou o corpo sobre a 
cama.

- Muito, muito triste. - disse o Dr Wilkins - Pobre senhora! Sempre ultrapassava seus limites; fazia 
muita coisa - contra minhas recomendaes. E a havia avisado que seu corao no era muito forte. V 
com calma! - eu disse. Mas ela no queria saber; pensava no bem de todos menos no dela prpria.





















        O Dr Bauerstein, percebi, olhava fixamente para o Dr Wilkins, at que falou:

- As convulses eram de uma violncia peculiar, Dr Wilkins. Se o Sr tivesse chegado a tempo, iria 
perceber que eram fora do comum.


- Ah! - disse o Dr Wilkins compreensivamente.


- Gostaria de falar- lhe em particular. - disse o Dr Bauerstein. Depois, virando-se para
John: - Alguma objeo?


- De forma alguma.


        Todos ns samos para o corredor e deixamos os mdicos a ss, ouvi o barulho da fechadura girando 
s minhas costas.

        Descemos vagarosamente as escadas. Minha mente trabalhava violentamente. Tenho certo talento 
para deduo, e as expresses no rosto do Dr Bauerstein desencadearam uma seqncia de hipteses na 
minha imaginao. Mary ps sua mo em meu ombro.


-O que est acontecendo? O que o Dr Bauerstein quis dizer com "eram de uma violncia peculiar"?


        Eu olhei para ela.


-Quer realmente saber o que eu penso?


-Sim!


-Preste ateno - eu olhei para os lados, os outros estavam longe o suficiente para que no fossemos 
ouvidos. Reduzi minha voz a um sussurro. - Eu acho que ela foi envenenada! Estou certo de que o Dr 
Bauerstein suspeita disso.

-Que?!! - ela recuou contra a parede, suas pupilas dilataram-se. Depois disse, com um choro 
repentino que me assustou: -  No...  no pode ser verdade... - saiu correndo e subiu as escadas 
desesperadamente. Eu a segui pois achei que ela iria desmaiar; encontrei- a no me io das escadas 
recostada ao corrimo, totalmente plida.

-Por favor, deixe- me sozinha! Preciso ficar um pouco sozinha! V para junto dos outros.

        Deixei-a sozinha e fui at a sala de jantar, onde estavam Lawrence e John. Estvamos todos em 
silncio, mas acho que juntei o pensamento de todos e os transformei em palavras quando disse:

























-Onde est o Sr Inglethorp?


        John balanou a cabea.


- Ele no est em casa.

        Nossos olhos encontraram- se. Onde estava Alfred? Seu repentino sumio era estranho e inexplicvel. 
Lembrei das ltimas palavras da Sra Inglethorp. O que significavam? O que mais ela teria dito a ns se 
tivesse tido tempo?

        Finalmente ouvimos os mdicos descendo a escada. O Dr Wilkins estava aparentemente preocupado, 
mas tentava demonstrar a calma habitual. O Dr Bauerstein permaneceu um pouco mais distante, seu rosto 
demonstrava a mesma expresso sria. O Dr Wilkins dirigiu- se a John:


-Sr Cavendish, preciso de seu consentimento para realizar uma autpsia.


-  realmente necessrio? - um espasmo de dor percorreu sua face.


-Isso significa que...


-Nem eu nem o Dr Wilkins poderemos dar uma certido de bito sem maiores exames, dadas as 
circunstncias.


        John concordou com um sinal.


-Nesse caso, no me resta alternativa seno concordar.

-Obrigado! - disse o Dr Wilkins - Propomos que isso seja feito hoje a noite, ou ainda mais cedo. 
Dadas as circunstncias dificilmente o caso escapar de uma investigao. E vocs esto diretamente 
envolvidos nela.


        Houve uma pausa, e ento o Dr Bauerstein tirou 2 chaves do bolso do casaco e passou- as para John:


- Essas so as duas chaves do quarto. Eu o tranquei e, na minha opinio, deve permanecer assim.


        Os mdicos foram embora.


        Uma idia brotou em minha mente, e e u senti que era momento de aplic- la. Eu tinha certa 
desconfiana de fazer isso porque John tinha horror de qualquer tipo de publicidade e





















fazia de tudo para evit- la. Lawrence por outro lado, tinha uma tima imaginao; ento senti que ele era 
um forte ca ndidato a meu aliado. Era momento oportuno para que eu fizesse frente  alguma ao.


-John, - eu disse - preciso pedir algo a voc.


-O qu?

- Lembra que eu lhe falei de meu amigo Poirot? O Belga que est aqui? Ele  um famoso dete tive.


-Sim.


- Gostaria de sua autorizao para que ele investigasse o caso.


-Por que agora? Antes da autpsia?


-Sim! O tempo  uma vantagem.

        _bobagem! - argumentou Lawrence - Na minha opinio  tudo uma inveno  tola do Dr Bauerstein! 
Wilkins no havia percebido nada diferente at que o Dr Bauerstein ps isso na cabea dele. Venenos so 
a sua especialidade, ento  claro que ele v isso por todos os lugares!


        Fiquei muito surpreso com a atitude de Lawrence, ele raramente contrariava algo.


        John hesitou.


-No penso como voc, Lawrence. - e disse finalmente -  voc tem minha autorizao, Hastings; mas 
tome cuidado quanto a qualquer tipo de escndalo desnecessrio.


-No, no! Poirot  a discrio em pessoa!

- Muito bem. Deixo tudo em suas mos. Se for realmente o que suspeitamos,  indispensvel uma 
boa investigao nesse caso. Deus, perdoe- me se eu estiver tomando a atitude errada.


        Olhei para o relgio. Eram seis horas. No havia tempo a perder.


        Cinco minutos mais tarde eu estava na biblioteca vasculhando as prateleiras, at que encontrei um 
livro mdico que dava a descrio de envenenamento por estricnina.

























4





Poirot Investiga




        A casa que os Belgas ocupavam ficava na vila, e para chegar at l existiam 2 caminhos: a estrada 
poeirenta ou o longo campo gramado  frente da propriedade. Resolvi atravessar os campos para chegar 
mais rpido  vila, por onde deparei- me com a figura de um homem aproximando- se de mim. Era o Sr 
Inglethorp. Onde estava ele? Como pretendia justificar sua ausncia?


        Ele aproximou- se de mim ansiosamente.


- Meu Deus! Isso  terrvel! Minha pobre Emily! Eu acabei de saber o que aconteceu!


-Onde voc esteve? - perguntei.

- Denby segurou-me at uma hora da manh. Depois disso descobri que tinha esquecido de trazer a 
cpia da chave. No queria acordar a casa toda, ento Denby deu- me pousada.


-Como voc soube do que aconteceu?


-O Dr Wilkins acordou Denby para contar a ele. Minha pobre esposa! Vivia sempre se sacrificando 
pelos outros. Nobre carter. Infelizmente excedeu seus limites.

        Uma onda de indignao e furor percorreu meu corpo. Que tamanha hipocrisia via- se atravs do rosto 
desse homem!

-Preciso ir, estou com muita pressa! - disse eu, agradecido por ele no ter perguntado para onde eu 
me dirigia. Dentro de alguns minutos eu batia energicamente na porta da casa onde os Belgas abrigavam-
se.

        Sem receber resposta, continuei batendo impacientemente. Uma janela sobre mim abriu- se 
cautelosamente, e Poirot ps sua cabea para fora.

        Ele saudou- me alegremente. Em poucas palavras expliquei a ele o que havia acontecido, e pedi por 
sua ajuda.





















- Espere, amigo, vou abrir a porta para voc, assim voc explica mais calmamente tudo isso enquanto eu 
me visto.


        Em alguns instantes ele havia destravado a porta, e eu o segui at seu quarto. Aps sentar- me, 
relatei todos os acontecimentos da noite anterior sem omitir nenhum fato, por mais insignificante que fosse. 
Enquanto isso Poirot fazia a barba cuidadosamente.

        Contei a ele como fui acordado, das ltimas palavras da Sra Inglethorp, da ausncia de seu marido, 
da discusso do dia anterior, do pedao de conversa que ouvi entre Mary e sua sogra, da briga entre o Sr 
Inglethorp e Evelyn Howard, e de outros acontecimentos posteriores.


        Eu tentava expor os fatos da forma mais clara possvel, e ocasionalmente tinha que voltar um pouco 
para expor algum detalhe que havia esquecido. Poirot sorria.

- A mente est confusa?  isso, no ? V com calma, mon ami.  natural voc estar assim agitado, 
mas tente se acalmar! Quando a gente est de cabea fria os fatos se encaixam muito melhor, cada um no 
seu devido lugar, ento podemos examin- los. Vamos colocar os fatos importantes de um lado, e os sem 
importncia simplesmente jogaremos fora!

- Tudo bem. Ma como voc distingue os fatos importantes dos sem importncia? Para mim isso 
sempre foi impossvel.

-Nem tanto. Um fato leva a outro, e assim ns continuamos. Mais um pequeno fato, mais uma 
curiosidade. Oh, aqui est algo que estava despercebido - mais um elo na corrente! Ns examinamos, 
procuramos, e um pequeno fato nos leva a um detalhe que faz um conjunto todo ganhar significado! - Poirot 
fez um gesto com as mos - Oh! Isso  grandioso! Genial!


-Sim! Sim!

- Ah!! - Poirot balanou o dedo indicador em sinal de aviso -  Tome cuidado com os detetives que 
dizem: "Isso  to pequeno! No importa, no faz diferena, vou ignorar isso." Esse caminho leva  
confuso! Todos os detalhes importam!


- Eu sei, voc sempre dizia isso para mim. Por isso relatei tudo nos mnimos detalhes, parecessem 
eles relevantes ou no.

- E eu estou muito contente com isso! Voc tem uma boa memria, e repassou os fatos 
satisfatoriamente. A ordem com a qual voc os exps foi um desastre, mas acho que consigo junt- los. 
Mas voc omitiu um fato muito importante.





















-Que fato?


- Voc no disse se a Sra Inglethorp alimentou-se bem na noite passada.

        Eu o olhei fixamente. Com toda a certeza a guerra havia afetado o crebro daquele pequeno homem. 
Ele estava ocupado arrumando seu cinto, e parecia estar com total ateno nessa tarefa.


- Eu no lembro, - disse - e de qualquer modo, eu no vejo que difer...


- Voc no v? Mas esse fato  de ext rema importncia!


-No vejo por qu. Pelo que eu me lembro, ela no comeu muito. Ela estava cansada, e isso 
provavelmente diminuiu se apetite. Natural, nada de estranho.


        Ele abriu o guarda- roupas e tomou uma pequena maleta, depois virou- se para mim:

- Agora estou pronto. Podemos ir  casa e estudar os fatos. Com licena, mon ami, voc vestiu isso 
com um pouco de pressa e o n da gravata ficou um pouco de lado. Permita-me. - com um gesto, ele 
endireitou a gravata.

        Ns abandonamos a vila e entramos na propriedade pelo porto da frente. Poirot parou por um 
momento a observar tristemente a expanso de campo aberto, que permanecia brilhando por causa do 
orvalho.


- To bonito! E a famlia entregue  tristeza.


        Ele olhou fixamente para mim enquanto falava, e eu senti algo de duvidoso em seus olhos.

        Estaria mesmo a famlia entregue  tristeza? Percebi que havia uma certa falta de emoo no ar. A 
vtima no possuia a capacidade de controlar o amor. Sua morte foi realmente um choque, mas ela no 
estava sendo apaixonadamente lembrada.


        Poirot parecia seguir meus pensamentos. Ele balanou a cabea gravemente.

-No; voc est certo, no h uma ligao de sangue entre eles. Ela sempre foi muito generosa para 
os Cavendish, mas no era a me deles. Sangue conta, lembre-se disso, sangue conta.

-Poirot, - eu disse - estava pensando se voc no quer me dizer por que  to importante saber se a 
Sra Inglethorp alimentou- se bem naquela noite. Tenho pensado muito nisso e no consigo entender por 
que isso realmente importa!

























        Ele permaneceu em silncio por 1 ou 2 minutos como se seu pensamento estivesse longe, e 
finalmente disse:

- Voc sabe que no  do meu feitio expor os fatos at que o caso esteja resolvido, mas abrirei uma 
exceo. O caso  que a Sra Inglethorp morreu de envenenamento por estricnina que foi, eu presumo, 
adicionada ao seu caf.


- ?


- Bem, a que horas o caf foi servido?


-Prximo s 8 horas.

-Por outro lado ela tomou seu caf entre 8:00 e 8:30, ento muito tarde. Bem, a estricnina  um 
veneno violento, seus efeitos seriam sentidos em no mximo em uma hora. Mas no caso da Sra Inglethorp 
os sintomas no se manifestaram at s 5 horas da manh seguinte: aproximadamente 9 horas depois! 
Mas uma alimentao pesada, consumida quase  mesma hora que o veneno, poderia retardar seu efeito. 
Isso poderia ser levado em considerao, mas voc disse que ela alimentou-se muito pouco; sendo assim 
no seria possvel que os sintomas se manifestassem apenas na manh seguinte! Agora chegamos a uma 
situao curiosa, meu amigo. Espero que a autpsia possa explicar isso. Lembre-se disso na hora do 
jantar!

        Quando nos aproximvamos da casa, John saiu para encontrar-nos. Ele parecia abatido.


- Essa  uma situao terrvel, monsieur  Poirot. - disse ele - Hastings deve ter dito a voc que 
queremos evitar qualquer tipo de publicidade desnecessria.


-Compreendo perfeitamente.


- Veja, isso  s uma suspeita, nada concreto com o que se preocupar.


-Sim, eu entendo. So algumas medidas de precauo.


        John virou- se para mim enquanto acendia um de seus cigarros.


-J soube que o Sr Inglethorp est de volta?


-Sim, eu o encontrei no caminho.





















        John jogou o fsforo em uma roseira prxima, Poirot olhou-o desconcertadamente. Para se redimir, 
queimou o cigarro de maneira educada.


- Difcil saber como trat- lo.


- Esta dificuldade no  por muito tempo. - disse Poirot quase que para si mesmo.


        John olhou- o interrogativamente, sem entender o que seu crtico queria dizer. Ele passou a mim as 
duas chaves que o Dr Bauerstein deixara em seu poder.


- Mostre ao Sr Poirot o que ele deseja ver.


- As portas esto trancadas? - perguntou Poirot.


-O Dr Bauerstein achou melhor.


        Poirot concordou.


- Bem, isso simplifica as coisas para ns.


        Entramos juntos no quarto. Por convenincia mostrei a localizao dos principais artigos de moblia.

        Poirot trancou a porta por dentro, e iniciou uma minuciosa inspeo da sala. Ele passava de objeto a 
objeto com a habilidade de um gato. Eu permaneci prximo  porta, evitando assim destruir algum vestgio. 
Poirot, de qualquer modo, parecia no prestar ateno aos meus cuidados.


-O que voc tem, meu amigo? Parece que est com medo de se misturar  ral!


        Expliquei a ele que estava com medo de destruir possveis pegadas.

-Pegadas? Mas como? Esteve praticamente um exrcito dentro desse quarto! No, venha at aqui e 
ajude na investigao. Vou deixar minha maleta aqui at que precise dela.


        Ele colocou sua maletinha de mo sobre a mesa prximo  janela, mas a mesa era traioeira e 
acabou por derrub- la.


-Pois , meu amigo. Algum pode viver em uma grande casa e no ter o mnimo de conforto.


        Continuou a investigao.





















        Um pequeno estojo roxo com uma chave na fechadura prendeu sua ateno por algum tempo. Ele 
tomou a chave e passou-a a mim para que eu a examinasse, mas nada de diferente pude encontrar. Era 
uma chave perfeitamente normal, muito surrada pelo seu longo tempo de uso.

        Depois ele examinou a fechadura da porta que tinhamos trancado por dentro, assegurando-se de que 
o pino da fechadura estava bem encaixado. Depois passamos para a porta que levava ao quarto de Cynthia. 
Esta tambm estava trancada, como eu esperava. Abrimos e fechamos a porta vagarosamente para ver se 
ela rangia. De repente algo na fechadura prendeu a ateno de Poirot. Era um pequeno fragmento, que foi 
recolhido e guardado cuidadosamente em um envelope.

        Na cmoda havia uma bandeja onde estava um pequeno iluminador e uma panelinha com cabo. Uma 
pequena quantidade de lquido escuro restava na panelinha. Havia, ao lado da panelinha, uma xcara vazia 
sobre um pires; ela parecia ter sido utilizada fora de hora.

        Fiquei espantado em no ter percebido isso antes. Ali estava uma valiosa pista. Poirot delicadamente 
tocou o lquido com o dedo indicador e levou- o  boca. Fez uma careta.


-Cco com, eu acho, rum!

        Ns passamos depois para os fragmentos no cho prximo  cama. O criado mudo estava virado. 
Havia uma lmpada de leitura, alguns livros, fsforos, um mao de chaves, e pedaos de uma xcara de 
caf.


- Ah, isso  muito curioso. - disse Poirot.


-Confesso que no vejo nada diferente nisso.

-No v? Observe a lmpada, veja que o brao de suporte est quebrado em 2 lugares; o estado em 
que esto condiz com o modo que caram. Mas veja, a xcara de caf est totalmente em pedaos, foi 
cuidadosamente esmigalhada.


- Bem, suponho que algum tenha pisado nela.


- Exatamente. - disse Poirot pensativo - Algum pisou nela.

        Ele levantou-se e atravessou o quarto lentamente at o aparador da lareira onde permaneceu 
observando e endireitando os ornamentos. Era o seu modo de esconder o nervosismo.


- Mon ami, - disse ele - algum pisou nessa xcara reduzindo- a a migalhas porque ela continha 
estricnina - ou o que  muito mais srio, ela no continha estricnina!

























        No fiz objeo alguma. Sabia que no era uma boa ho ra para pedir que ele explicasse isso. Dentro 
de segundos ele retornou  investigao. Ele tomou o mao de chaves e ficou passando-o entre seus 
dedos at que escolheu uma; era muito brilhante e chamativa, e ele tentou encaix- la na fechadura do 
pequeno estojo roxo. Ela encaixou e ele abriu a caixa mas, aps alguns segundos de hesitao, fechou- a 
e trancou- a novamente. Tomou para si a chave e colocou- a no seu prprio molho de chaves.

- Eu no tenho autoridade para mexer nesses papis, mas isso deve ser feito de uma vez por todas!

- Ele examinou cuidadosamente as gavetas do suporte do lavatrio. Dirigia-se  janela esquerda 
quando notou uma mancha redonda dificilmente visvel no carpete marrom escuro; isto pareceu interess- lo 
muito, abaixou- se e deteve- se a examin- la cuidadosamente, tentando entender seu significado.

        Finalmente ele tomou alguns pedaos de cco e colocou-os dentro de um tubo de testes, selando- o 
cuidadosamente. O prximo procedimento foi criar um pequeno bloco de anotaes.


-Ns encontramos neste quarto - disse ele escrevendo - seis pontos de interesse. Devo enumer- los 
ou voc far isso?


-Oh, no, faa voc...


- Muito bem, vamos l. Um, a xcara de caf em migalhas; dois, a caixinha roxa com a chave na 
fechadura; trs, a mancha no carpete.


-Que pode ter sido feita j h certo tempo atrs. - interrompi.

-No. Ela estava perceptivelmente mida e parecia ser de caf. Quatro, um fragmento de um tecido 
verde- escuro, apenas um ou dois fiapos mas deve ser considerado.


- Ah, foi isso que voc colocou no envelope!

-Sim. Pode ter cado de algum dos vestidos da Sra Inglethorp, mas depois veremos isso. Cinco, isso! 
- com um gesto repentino ele apontou uma bola de cera de vela no cho, prximo  escrivaninha. -  Esta 
mancha deve ter sido feita at no mximo ontem, seno uma arrumadeira j a teria removido com um papel 
absorvente e ferro quente. Uma de minhas habilidades - mas isso no vem ao caso!


- Ela pode ter sido feita na noite passada. Ns estvamos todos agitados. Ou a Sra
Inglethorp mesmo derrubou sua vela.

























- Vocs trouxeram apenas uma vela para a sala?


-Sim, Lawrence a carregava. Ele estava muito nervoso, e pareceu ver algo bem ali - eu indiquei a 
lareira - que o paralisou.

-Isto  interessante. - disse Poirot rapidamente. - Sim, isso  muito sugestivo - disse Poirot correndo 
os olhos  meia parede sobre a lareira - mas no foi a vela de Lawrence que fez aquela mancha. Note que 
esta cera  branca, e a da vela de Lawrence  rosa; mas veja que a Sra Inglethorp no tinha velas no 
quarto, somente a lmpada de leitura.


- Ento, - eu perguntei - o que se deduz?

        Como resposta recebi um grunhido, dizendo-me para usar minhas prprias faculdades mentais.


- E o sexto ponto? Eu suponho que seja os pedaos de cco.

-No. Eu poderia t- lo includo no sexto, mas no o fiz. O sexto ponto manterei para mim por 
enquanto.


        Ele olhou rapidamente ao redor do quarto.


-No h nada mais a fazer aqui, eu acho. - ele olhou pensativamente para os restos de cinza na 
lareira - O fogo queima, e ele destri... Pode ser, vamos ver!

        Rapidamente abaixou- se e comeou a vasculhar os restos de cinza na lareira com muito cuidado. De 
repente soltou uma forte exclamao:


- Minha pina, Hastings!


     Eu alcancei a ele a pina, e ele extraiu dentre as cinzas um minsculo fragmento de papel.


- E ento, mon ami? O que acha disso?


        Eu examinei minuciosamente o fragmento, era uma exata reproduo disso: (ver fig2
em anexo).


        Fiquei indeciso. Era um fragmento de papel escrito  mo de maneira bem ordenada. 
Instantneamente ocorreu- me uma idia.


-Poirot! - exclamei - Este  um pedao de um testamento!

























- Exatamente.


        Olhei- o atentamente.


-No est surpreso?


-No, eu j esperava isso.

        Devolvi o pedao de papel e vi Poirot guard- lo com o mesmo cuidado que tinha com todas as outras 
coisas. Minha cabea estava confusa. O que seria esta complicao do testamento? Quem o teria 
destrudo? A pessoa que deixou a mancha de vela no cho? Obviamente. Mas quem e como conseguiu 
entrar? Todas as portas estavam trancadas por dentro.

- Agora, meu amigo, - disse Poirot - ns devemos ir. Tenho algumas perguntas a fazer para Dorcas.  
esse o nome da arrumadeira, no?

        Ns passamos pelo quarto de Alfred, e ele foi examinado com o mesmo cuidado com que fra o da 
Sra Inglethorp. Samos pela porta daquele quarto, a qual foi igualmente examinada.


        Levei- o at o escritrio da Sra Inglethorp no andar inferior, e fui eu mesmo atrs de
Dorcas.


        Quando voltei com ela, o escritrio estava vazio.


-Poirot. Onde voc est?


- Estou aqui, mon ami.


        Ela havia sado pela grande janela francesa, e estava parado admirando um canteiro de flores.

- Admirveis. Observe o formato, a simetria, tudo perfeito! Este canteiro foi preparado recentemente, 
no?


-Sim, acho que andaram cuidand o dele ontem. Mas entre, Dorcas est aqui.


- Eh, bien! No prive-me de alguns momentos de satisfao, mon ami!


-Sim, mas a investigao  mais importante.





















- E voc acha que estas finas begnias no so de tal importncia?


Mantive- me calado. No havia como argumentar com ele.


- Voc no concorda? Bem, vamos entrar e entrevistar a brava Dorcas.


        Dorcas aguardava- nos no grande escritrio, onde tambm ficavam muitas das roupas da Sra 
Inglethorp. Suas mos estavam juntas  frente, e seus cabelos estendidos sobre o uniforme branco. Ela, 
apesar da idade, mantinha- se atraente.

        Ela parecia um pouco desconfiada, mas logo Poirot quebrou o clima de suspense. Ele puxou uma 
cadeira.


-Sente- se mademoiselle.


-Obrigado, senhor.


- Voc trabalha aqui j h alguns anos, no?


- Dez anos, senhor.


-  um longo tempo, e um servio de muita confiana. Voc gostava muito dela, no?


- Ela era uma boa patroa, senhor.


- Ento voc no far objeo em responder algumas perguntas a mim.


-No, senhor.

- Ento comearei perguntando a voc sobre os eventos de ontem  tarde. Sua patroa teve alguma 
discusso?


-Sim, senhor, mas no sei se devo...  -  Dorcas hesitou.


        Poirot fitou-a pensativamente.

        Querida Dorcas,  necessrio que eu saiba de todos os detalhes sobre suas desavenas com a maior 
preciso possvel. No pense em estar revelando os segredos de sua patroa.  necessrio q ue tudo seja 
revelado se quisermos ving-la. Isto no a trar de volta, mas pelo menos o assassino ser levado  justia.


- Amm para isso! - disse Dorcas credulamente - E, sem citar nomes, h algum nessa casa que 
nenhum de ns suportaria, e que num dia amaldioado adentrou estas portas.

























        Poirot perguntou em tom mdio:


- E sobre esta rixa. O que foi que voc ouviu ou sabe sobre isso?


- Bem, senhor, eu estava passando aqui pela sala ontem  tarde...


- A que horas foi isso?

- Eu no poderia dizer exatamente. Talvez em torno de 4 horas ou logo depois. Bem, senhor, como eu 
dizia, eu ia passando por aqui quando ouvi vozes muito irritadas aqui dentro. Eu no queria parar para ouvi- 
las, mas acabei parando e ouvindo algo. A porta estava entreaberta, e minha patroa falava muito alto e 
claro, ento eu consegui ouvir. "Voc mentiu para mim e me enganou." - ela disse. Eu no consegui ouvir o 
que o Sr Inglethorp replicou, mas ela respondeu: "Como ousa me desafiar? Eu tenho acolhido voc, vestido 
voc, e alimentado voc! Voc deve tudo a mim!  assim que voc me agradece? Trazendo vergonha ao 
nosso nome!" - novamente no ouvi o que ele replicou, mas logo ela continuou: "Nada do que voc disser 
far diferena. Eu cheguei aos meus limites. No pense que estou com medo da publicidade sobre 
escndalo entre marido e mulher, nada vai me deter." Ento acho que ouvi os dois saindo, e fui embora 
rapidamente.


- Tem certeza de que foi a voz do Sr Inglethorp que voc ouviu?


-Claro, senhor! De quem mais poderia ser?


- Bem, o que aconteceu depois?


- Depois eu voltei para a sala, mas estava tudo quieto. s 5 horas a Sra Inglethorp tocou o sino e 
pediu- me que levasse at seu escritrio uma xcara de ch - nada para comer. Ela parecia plida e 
nervosa. - Dorcas, - disse ela - eu tive um forte choque. -Sinto por isso,
- eu disse - a senhora se sentir melhor aps uma xcara de ch quente, senhora. - Ela tinha algo em sua 
mo, no sei se era uma carta ou um simples pedao de papel, mas ela estava escrevendo e mantinha os 
olhos fixos nele como se no acreditasse no que havia escrito. Ela perdeu- se em seus prprios 
pensamentos, tanto que pareceu esquecer-se de que eu estava l: - Algumas palavras e tudo mudou. - e 
depois ela disse para mim: - Nunca confie em um homem, Dorcas; eles no valem nada! - eu entreguei a 
ela a xcara de ch e ela agradeceu- me, e disse- me que se sentiria melhor aps o ch. - Eu no sei o que 
fazer, - ela dizia - escndalo entre marido e mulher  uma coisa dramtica, Dorcas; mas eu suportei o 
mximo que pude. - a Sra Cavendish entrou logo depois, ento ela no disse mais nada.


- E ela continuou com a carta na mo?


-Sim, senhor.

























- E o que voc acha que ela fez com a carta depois de tudo?


- Bem, no sei, senhor. Acho que ela a colocou no seu estojo roxo.


- Era onde ela mantinha os papis importantes?


-Sim, senhor. Ela o trazia consigo todas as manhs, e o levava de volta todas as noites.


-Q uando ela perdeu a chave do estojo?


- Ela perdeu ontem na hora do ch da tarde senhor, e pediu-me para procurar muito por ela. Ela 
parecia muito preocupada por ter perdido essa chave.


- Mas ela possuia uma cpia?


-Oh, sim, senhor.

        Dorcas olhava- o curiosamente, e para dizer a verdade eu tambm. O que isso tinha a ver com a 
chave perdida? Poirot sorriu.

-No importa, Dorcas, este  o meu mtodo de descobrir as coisas. Esta  a chave perdida? - ele 
mostrou a ela a chave que havia encontrado na fechadura do estojo.


        Os olhos de Dorcas pareciam querer saltar da cara.


-Sim, senhor,  esta mesmo. Mas onde a encontrou? Eu a procurei por toda parte!


- Ah, mas ontem ela no estava no mesmo lugar em que estava hoje. Agora mudando de assunto: 
sua senhora tinha um vestido verde escuro em seu guarda- roupas?


        Dorcas assustou-se com a pergunta inesperada.


-No, senhor.


- Voc tem certeza?


-Sim, senhor.


- Algum nessa casa tem um vestido verde?


        Dorcas refletiu.





















- A Srta Cynthia tem um.


- Verde claro ou escuro?


- Verde claro, senhor.


- Bem, mas no  esse que eu quero. Algum mais tem alguma roupa verde?


-No que eu saiba, senhor.


        Poirot no demonstrou desapontamento algum.


- Bem, deixemos isso de lado e vamos adiante. Voc acha que sua senhora tomou algum calmante 
na noite passada?


-No na noite passada senhor, eu sei disso.


-Como tem tanta certeza?


-Porque a caixa estava vazia, ela havia tomado o ltimo na noite retrasada, e no tinha mandado fazer 
outros.


- Tem certeza disso?


-Sim, senhor.


- Est bem. A propsito: sua patroa pediu que voc assinasse algum papel ontem?


- Assinar um papel? No, senhor!

-Quando o Sr Hastings e o Sr Lawrence entraram ontem pela manh, encontraram sua senhora 
escrevendo cartas. Suponho que voc saiba para quem eram endereadas!

-realmente no sei, senhor. Talvez Annie possa dizer a voc, aquela menina descuidada.  Ela no 
recolheu as xcaras de caf na noite passada. Isso porque eu no estava aqui para supervisionar as coisas!


        Poirot balanou a cabea.


- Assim que puder traga-as para mim Dorcas, eu gostaria muito de examin - las.]    - Tudo bem, 
senhor.


- A que horas voc saiu na noite passada?

























-Prximo s seis horas, senhor.


-Obrigado, Dorcas; isso era tudo que eu queria perguntar. - ele levantou-se e caminhou at a janela - 
Eu tenho estado admirando esse canteiro de flores. A propsito: quantos jardineiros esto empregados 
aqui?


- Apenas 3 agora. Antes da guerra tnhamos 5. Bons tempos aquele, esses canteiros eram bem mais 
cuidados.

-Os bons tempos voltaro, Dorcas. Pelo menos ns esperamos por isso. Agora, voc pode mandar 
Annie vir at aqui?


-Sim, senhor. Irei mand- la imediatamente.


  Assim que Dorcas saiu, perguntei:


-Como voc sabe que a Sra Inglethorp tomou calmantes? E sobre a chave perdida e a cpia?


- Uma coisa de cada vez. Sobre o calmante, eu soube atravs disso. - ele repentinamente exibiu- me 
uma cartela de remdios igual quelas usadas para os calmantes.


-Onde voc achou isso?


-No suporte do lavatrio. Este  o N 6 da minha lista.


- Mas suponha- se que a ltima cpsula tenha sido tomada noite retrasada, isso no  de grande 
importncia?


-Provavelmente no. Voc no nota nada de diferente nesse envelope?


        Eu o examinei cuidadosamente.


-No; nada diferente.


-Olhe a etiqueta.


        Eu li a etiqueta: "Uma cpsula a ser tomada na hora de dormir, se necessrio. Sra
Inglethorp." - Continuo no vendo nada errado.


-Nem mesmo o fato de a etiqueta no possuir o nome qumico?





















- Ah,  mesmo. Um engano.


- Voc alguma vez j pegou uma cartela de remdios sem o nome impresso?


-No. No posso dizer que j.


        Comecei a ficar ansioso, ento Poirot replicou:


-Calma, meu amigo. A explicao  muito simples, ento no fique intrigado.


        Passos anunciavam que Annie aproximava- se, ento no tive tempo para questionar
Poirot.

        Annie era uma moa de corpo bem torneado e seu rosto era bem atraente, mas demonstrava na face 
a tristeza pela tragdia.


        Poirot foi direto ao assunto.

-Pedi para falar com voc, Annie, porque acho que voc possa nos dizer algo sobre as cartas que a 
Sra Inglethorp escreveu na noite passada. Quantas eram? Para quem foram endereadas?


        Annie hesitou.

- Eram 4 cartas, senhor. Uma era para a Srta Howard, uma para o Sr Wells, o advogado, e as outras 
duas eu no lembro, senhor. Ah, sim! Uma era para a empresa Ross, os fornecedores de Tadmindster. A 
outra realmente no lembro.


-Pense. - incentivou Poirot.


        Annie no lembrou- se.


-Perdo, senhor. Acho que no cheguei a ver para quem era a outra carta.

-No tem importncia. - disse Poirot no demonstrando o menor sinal de desapontamento - Quero 
perguntar mais uma coisa. Havia uma panelinha no quarto da Sra Inglethorp com cco dentro. Ela tomava 
isso todas as noites?


-Sim senhor, essa bebida era levada ao seu quarto todas as noites, e ela sempre bebia. Nunca 
esquecia.


-O que era, uma batida?





















-Sim senhor, era fe ita com leite, um pouco de acar, e algumas gotas de rum.


-Quem a levava?


- Eu, senhor.


- A que horas?


-Quando eu ia puxar as cortinas. Era um costume, senhor.


- Voc a trouxe direto da cozinha, ento?

-N o, senhor. No h muito espao no fogo, ento a cozinheira a prepara antes de fazer o jantar. 
Depois eu trago e coloco sobre a mesa prximo  porta dos empregados, e mais tarde eu levo para cima.


- A porta dos empregados  na asa esquerda, no?


-Sim, senhor.


- E a porta  esta do lado de c ou a do outro lado?


-  esta, senhor.


- A que horas voc levou isso para cima ontem?


-prximo s 7:15, senhor.


- E a que horas voc a colocou no quarto da Sra Inglethorp?

-Prximo s 8:00, senhor. A Sra Inglethorp recolheu- se antes que eu acabasse o servio.


- Ento entre 7:15 e 8:00 a panelinha permaneceu sobre a mesa na asa esquerda da casa?


-Sim, senhor. - a face de Annie tornou- se avermelhada, e ento ela disse algo inesperado:


- Mas se havia sal na batida senhor, no foi culpa minha porque eu nunca deixei o sal perto dela.


-O que a faz pensar que havia sal nela?

























-Porque eu o vi na bandeja, senhor.


- Voc viu algum tipo de sal na bandeja?

-Sim. Parecia ser sal de cozinha. No lembro de t- lo trazido para cima, mas quando eu vim para 
levar a batida para minha senhora eu vi, ento o trouxe  cozinha e pedi para Cook, a cozinheira, fazer um 
refresco. Eu estava muito nervosa e preocupada porque Dorcas no estava, ento achei que poderia estar 
tudo bem com a batida e que o sal tinha ido na bandeja por engano. Ento eu expanei a bandeja com o me 
u avental e levei- a para dentro.


        Eu fazia p possvel para no demonstrar meu nervosismo. Mesmo sem saber, Annie havia nos dado 
uma possvel grande pista. E se o "sal de cozinha" fosse na verdade estricnina, um dos venenos mais 
poderosos e violentos? Aguardei ansioso a prxima pergunta de Poirot, mas essa despontou- me.


-Quando voc entrou no quarto da Sra Inglethorp, a porte que vai para o quarto de
Cynthia estava trancada?


- Ah, claro, senhor. Ela nunca foi aberta.


- E a porta que vai para o quarto do Sr Inglethorp?


        Annie hesitou.

-No posso dizer com certeza, senhor. Ela estava fechada, mas no posso dizer- lhe se estava 
trancada ou no.


-Por acaso a Sra Inglethorp trancou a porta do  quarto logo depois que voc saiu?


-No imediatamente depois que sa. Acho que ela atrancou mais tarde, pois ela geralmente a 
trancava. A porta entre os quartos, esta sim. Ela sempre trancava.

- Voc notou alguma marca de cera de vela no cho do quarto quando esteve l ontem  noite?

-Cera de vela? No, senhor. A Sra Inglethorp no tinha candelabros no quarto, apenas uma lmpada 
de leitura.


- Tem certeza de que se essa mancha existisse voc a teria visto?


-Sim, senhor. E a teria removido com um ferro quente e um papel absorvente.

























        Ento Poirot repetiu a pergunta que havia feito a Dorcas:


-Por acaso a sua patroa tinha um vestido verde?


-No, senhor.


-Nem uma manta, uma capa, um traje esporte?


-Nada verde, senhor.


- Algum tem alguma coisa verde nesta casa?


        Annie refletiu.


-No, senhor.


- Voc tem certeza?


- Absoluta, senhor.


- Bien! Isto era tudo que eu desejava perguntar. Muito obrigado.


        Annie demonstrava nervosismo quando saiu.


-Poirot! - eu exclamei -  Eu parabenizo voc, esta foi uma grande descoberta.


-O que foi uma grande descoberta?

- Era o cco que estava envenenado, e no o caf. Isso explica as coisas! Claro que o veneno no 
fizera efeito at de madrugada, pois o cco foi tomado no meio da noite!


- Ento voc acha que o cco continha estricnina?


-Claro! Aquele sal na bandeja, o que poderia ser?


-Poderia ser sal. - replicou Poirot calmamente.


        Fiquei indignado com o que ouvi. Mais uma vez a idia de que Poirot estava enferrujando passou- me 
pela cabea. Pensei comigo que fra muita sorte mesmo ele ter como parceiro uma pessoa de cabea 
mais aberta e receptiva.


        Poirot olhava- me seriamente.

























- Est triste comigo, mon ami?


- meu amigo Poirot, -  eu disse friamente - no quero ditar nada para voc. Voc tem o direito de 
pensar da forma que quiser, mas eu tambm.


- Um admirvel sentimento. - disse Poirot - Bem, acho que acabei nesta sala. A
propsito: de quem  aquela mesinha menor ali no canto?


- Do Sr Inglethorp.


- Ah! - ele forou a fechadura, mas ela no abriu. - Trancada, mas talvez uma das chaves da Sra 
Inglethorp abra isso. - ele tentou vrias, movendo- as para dentro e para fora e girando-as, at que uma 
delas serviu. - Ah! Esta no  a chave, mas fez o servio mesmo
assim. - ele correu os olhos sobre os papis e, para minha surpresa, no tocou em nenhum. - 
Decididamente o Sr Inglethorp  um homem de mtodos. Este  o Sr Inglethorp!


Um homem de mtodos era, para Poirot, uma pessoa organizada e que deixava tudo no seu devido 
lugar. Poirot apreciava isso.


        Meu amigo vagava despreocupadamente.


-No h selos nesta mesa, meu amigo, mas poderia ter havido. Poderia, sim! - seus olhos percorriam 
a sala - No h nada mais aqui para ns. Ela no nos ofereceu muito.

        Ele puxou um envelope de seu bolso e passou- o para mim. Era um documento curioso, estava velho 
e sujo, com algumas palavras escritas aparentemente  mo. Era uma exata reproduo disso: (ver fig3 em 
anexo).




5





No Foi Estricnina, Foi?





-Onde voc encontrou isso? - perguntei a Poirot com vvida curiosidade.


-Na cesta do lixo. Voc reconhece a letra?





















-Sim,  da Sra Inglethorp. Mas o que significa isso?


        Poirot passou as mos nos cabelos.


-No sei, mas  muito sugestivo.


        Uma idia selvagem cortou- me. Seria possvel que a Sra Inglethorp estivesse enlouquecendo? ser 
que ela possuia alguma idia de possesso demonaca? E se isso fosse realmente verdade, seria possvel 
ela ter tirado a prpria vida?


        Estava a ponto de expor estas teorias a Poirot quando suas palavras distrairam- me.


- Venha, - ele disse - vamos examinar as xcaras de caf.


- Meu amigo Poirot! O que voc est pensando? Ns no sabemos agora do cco?


-Oh, l l! este miservel cco!

        Ele riu com aparente divertimento, levantando os braos para o cu como se estivesse caindo em 
desespero.

- Mas de qualquer forma - eu disse - se a Sra Inglethorp levou sua xcara de caf para o quarto com 
ela, eu no vejo o que voc espera encontrar. Por acaso voc espera descobrir um pacote de estricnina 
entre as xcaras de caf?


       Poirot pareceu topar o desafio.


- Venha, meu amigo. - ele disse - Ne vois fchez pas! Acompanhe - me em minha pesquisa nas 
xcaras e eu respeitarei seu cco.

        Ele estava to bem humorado que eu me vi obrigado a rir, ento seguimos juntos para onde as xcaras 
estavam, na sala de visitas.


        Poirot fez- me recapitular a cena da noite anterior, ouvindo com muita ateno e verificando a posio 
de cada xcara.

- Ento a Sra Cavendish trouxe a bandeja e saiu. Sim. Depois ela veio at a janela e sentou prximo a 
onde voc e a Srta Cynthia estavam. Sim. Ento temos aqui 3 xcaras. E a xcara na lareira parecia ser do 
Sr Lawrence Cavendish. E a da bandeja?


- Era de John. Eu vi quando ele a colocou ali.


- Bom. Uma, duas, trs, quatro, cinco - mas onde est a xcara do Sr Inglethorp?

























- Ele no tomou caf.


- Ento todas esto apontadas. Um momento, meu amigo.

        Com  muito cuidado, ele recolheu uma amostra do que restava no fundo de cada xcara, selando-os 
individualmente em tubos de teste. Sua fisionomia apresentou uma curiosa mudana.


- Bien! - ele disse finalmente -  Isso  evidente! Eu tinha uma idia, mas com certeza eu estava 
errado. Sim, em tudo eu estava enganado. Isto  muito estranho, mas no importa!


        Com caracterstico desnimo, Poirot parecia desenganar-se de tudo o que pensava. Eu poderia t- lo 
avisado que ele estava se tornando obcecado pelo caf, que isto iria dar num beco sem sada, mas fiquei 
quieto. Apesar de tudo Poirot havia sido um grande homem na sua poca, e por isso merecia toda minha 
admirao.


-O caf da manh est pronto. - disse John, entrando na sala - O senhor nos acompanha, Sr Poirot?

        Poirot concordou. Eu observei John. Decididamente ele estava de volta ao seu estado normal. O 
choque da noite passada parecia ter passado totalmente, e ele estava de volta ao normal. Ele era um 
homem de pouca imaginao, num grande contraste com seu irmo que tinha imaginao demais.

        Desde as primeiras horas do dia John ocupava-se em enviar telegramas e em outras ocupaes em 
que uma morte implica. Um dos primeiros telegramas era para Evelyn Howard.

-Posso pergunt-lo o que fazer? - ele disse - Sua investigao aponta que minha me teve uma morte 
natural ou...  ou...  devemos nos preparar para o pior?

- Eu acho, Sr Cavendish, - disse Poirot gravemente - que o senhor no deve alimentar- se com falsas 
esper anas. O senhor pode nos dizer o que pensam os outros membros da famlia?


- Meu irmo Lawrence acredita que ns estamos fazendo uma tempestade num copo
D'gua. Ele diz que tudo aponta para um simples ataque de corao.


- Ele diz isso? Muito interessante. Quanto  Sra Cavendish?


        A expresso na face de John mudou.





















-No fao a mnima idia do que a minha esposa acha disso.


        A resposta trouxe um longo momento de silncio  sala, o qual foi quebrado por John:


-J disse ao senhor que o Sr Inglethorp voltou, no?


        Poirot concordou.

- Esta  uma situao difcil para ns. Claro que todos devemos trat- lo de maneira bem usual mas, 
penso eu, poderemos estar nos sentando  me sa com um assassino.


        Poirot concordou com simpatia.

- Eu entendo.  uma situao muito difcil para vocs, Sr Cavendish. Eu gostaria de faz- lo uma 
pergunta: a razo que o Sr Inglethorp apresentou para no ter vindo para casa noite passada foi que ele 
havia esquecido a chave, no foi?


-Sim.


-Suponho que voc tenha plena certeza de que a chave foi realmente esquecida.

- Realmente no tenho idia, no havia pensado em olhar. Ns sempre a deixamos na sala. Vou v-la 
agora mesmo.


        Poirot levantou a mo num gesto carinhoso.


-No, Sr Cavendish, agora  tarde. Estou certo de que voc a encontrar. Se o Sr
Inglethorp pegou-a, teve tempo suficiente para devolv - la at agora.


- Mas voc pensa...


- Realmente no penso nada. Se algum tivesse lembrado de checar se ela estava l antes de ele ter 
chegado, seria um ponto a seu favor. E isso  tudo.


        John parecia perplexo.


-No se preocupe, - disse Poirot educadamente - voc no deve deixar que isso o aborrea. E j que 
voc foi to gentil, vamos tomar um caf.

        Estavam todos reunidos na sala de jantar. Dadas as circunstncias ns no estvamos naturalmente 
em clima de festa. A reao aps um choque  sempre tentar esconde r o sofrimento causado por ele.  
claro que o comportamento deve ser sempre o usual, mas eu estava em dvida se este comportamento 
estava sendo to grande dificuldade. No havia





















olhos vermelhos e nem sinal de tristeza induzida. Senti que estava certo na mi nha opinio de que Dorcas 
era a pessoa mais afetada emocionalmente pela tragdia.

        Passei frente a Alfred Inglethorp, que estava na posio de vivo inconformado, perdido em sua prpria 
hipocrisia. Ele sabia que suspeitvamos dele, mas ser que ele tinha algum medo secreto ou achava que 
seu crime permaneceria impune? Instintivamente senti no ar a suspeita de que ele era um homem marcado.

        Mas ser que todos suspeitavam dele? E quanto  Sra Cavendish? Eu observei-a sentada na ponta da 
mesa; graciosa, enigmtica. Usava um pequenino vertido cinza com babados nos punhos que caiam sobre 
as finas mos, estava realmente muito bonita. Ela permanecia calada, dificilmente abria os lbios, e de 
alguma forma eu senti que sua poderosa personalidade dominava- nos.


        E a pequena Cynthia? Ela era ou no suspeita? Aparentava estar to cansada e doente. Perguntei a 
ela se estava se sentindo bem, e ela respondeu francamente:


-No. Estou com uma forte dor de cabea.


- Mais um copo de caf,  mademoiselle? - disse Poirot - Isso ir reaviv- la. -  Poirot levantou- se e 
tomou sua xcara.


-Sem acar. - disse Cynthia quando ele tomou o pote de acar.


-Sem acar? Voc o abandonou por causa da guerra?


-No. Eu nunca usei acar.


- Voile! - exclamou Poirot para si mesmo enquanto devolvia a xcara de caf sem acar.

        Quando olhei para Poirot, percebi que ele estava ansioso. seus olhos pareciam- se com os atentos 
olhos de um gato  procura da presa. Ele havia ouvido ou visto alguma coisa que o havia afetado 
violentamente, mas o qu? Confesso que nunca fui muito atencioso, mas nada vi ao meu redor que 
chamasse a ateno.


        Logo aps a porta abriu e Dorcas entrou.


-O Sr Wells gostaria de v- lo, senhor. - ela disse para John.

        Lembrei que esse era o advogado da Sra Inglethorp, para quem ela ha via escrito na noite anterior.





















        John avermelhou imediatamente.

- Leve- o at minha sala. - depois virou- se para ns -  o advogado de minha me. - ele explicou. E 
em uma voz baixa: - Ele tambm  um investigador. Voc entende, no? Gostariam de me acompanhar?


        Ns samos da sala e John adiantou- se um pouco, eu aproveitei e comentei com
Poirot:


- Vai haver um inqurito, ento?


        Poirot no ouviu. Ele parecia perdido em seus prprios pensamentos, e isto deixou- me curioso.


-Poirot! No escutou o que eu disse?


-  verdade, meu amigo. Estou muito aborrecido.


-Por qu?


-Porque a Srta Cynthia no usa acar no caf.


-O qu? Voc no pode estar falando srio!

        _mas eu falo muito srio. Isto  uma coisa que eu no entendo. Meu instinto estava certo.


- Do que voc est falando?

- Do instinto que dizia para eu examinar as xcaras de caf. Droga! Agora no posso mais fazer isso!


        Acompanhamos John at sua sala, e ele fechou a porta aps passarmos.

        O Sr Wells era um bem aparentado homem de meia idade, com olhos profundos e uma tpica boca de 
advogado. John apresentou- nos e explicou a razo de nossa presena.

-Por favor entenda, Sr Wells, - ele acrescentou - todo este caso  estritamente privado. Esperamos 
que no se torne um caso pblico ou de investigao externa.

-Sim, eu entendo. - disse o Sr Wells rapidamente - Acredito que possa ser evitado a dor e a 
publicidade de um inqurito, mas  indispensvel um laudo mdico.





















-Sim, eu entendo.

-O Dr Bauerstein  um homem muito capaz.  uma grande autoridade em toxicologia, se bem me 
lembro.

- De fato. - disse John com uma certa formalidade - Ser que todos ns teremos que aparecer para 
depor?


- Voc e o Sr...  Sr...   Inglethorp.


        Uma longa pausa seguiu- se antes que o advogado continuasse:


-Qualquer outro depoimento exigido ser mera formalidade.


- Eu entendo.

        John demonstrou forte sensao de alvio. Isto chamou- me a ateno, pois no vi razo alguma para 
isso.


-Se voc no tiver nada contra, - disse o Sr Wells -  eu havia pensado na sexta, nos dar tempo para 
termos em mos o laudo mdico. A autpsia ser feita hoje  noite, no?


-Sim.


- Ento deixamos combinados assim?


-Perfeita mente.


- Devo dizer, caro amigo Cavendish, que fiquei muito abalado com o fato.

-Quem sabe o Sr no possa nos ajudar a resolver o caso, monsieur? - Poirot falou pela primeira vez 
desde que entramos na sala.


- Eu?


-Sim, ns soubemos que a Sra Inglethorp escreveu para voc na noite passada. Voc deve ter 
recebido a carta esta manh, no?


-Sim, recebi. Mas no contm informao alguma,  apenas uma carta pedindo para que eu viesse v-
la esta manh para tratar de um as sunto importante.


- Ela no deixou transparecer que assunto seria esse?





















-Infelizmente no.


-Isso  realmente uma pena. - disse John.


- Uma grande pena. -  concordou Poirot.


        Ficamos todos em silncio. Poirot perdeu-se em seus pensamentos por alguns momentos. 
Finalmente dirigiu-se ao advogado.


-Sr Wells, h uma coisa que quero pergunt-lo, se no for falta de tica profissional. No caso da morte 
da Sra Inglethorp, quem seria o beneficiado?


        O advogado hesitou por um momento, logo depois respondeu:


-Isto logo ser de conhecimento pblico, ento se o Sr Cavendish no fizer objeo...


- De forma alguma.

-No vejo razo para no responder  sua pergunta. Pelo seu ltimo testamento, datado de agosto do 
ano passado, os servos ficam com algumas coisinhas; mas o dinheiro fica todo para o Sr John Cavendish.


-Por que no - perdoe- me a questo, Sr John, - o Sr Lawrence no ficou com nada?

- Realmente nunca pensei nisso. Mas veja s: pelo testamento do velho Sr Cavendish, aps a morte 
da Sra - na poca - Cavendish, John ficaria com a fazenda e ganharia uma boa soma em dinheiro. A Sra 
Inglethorp deixou o dinheiro dela para seu enteado mais velho, visto que ele teria que manter a fazenda. Em 
minha viso uma forma justa de repartir as coisas.


        Poirot concordou pensativo.

-Sim. Mas se no me engano, pela lei inglesa este testamento foi automaticamente anulado quando a 
Sra Inglethorp casou de novo, no?


        O Sr Wells balanou a cabea.


-Como eu iria mencionar, Sr Poirot, este documento agora no tem valor algum.


- Hein! - Poirot refletiu por um momento, depois perguntou:


-Ser que a Sra Inglethorp tinha conheciment o do fato?





















-realmente no sei.

- Ela sabia. - disse John inesperadamente - Ns conversamos sobre isso ainda ontem, e ela sabia 
que seu testamento havia sido revogado quando ela casou novamente.


- Mais uma questo, Sr Wells. Voc disse "seu ltimo testamento". Por acaso a Sra
Inglethorp havia escrito muitos outros testamentos anteriores?


- Em mdia, Sr Poirot, um novo testamento por ano. Ela alterava muito seu testamento;
ora beneficiava um, ora beneficiando outro membro da famlia.


-Suponhamos -  sugeriu Poirot - que, desconhecido por ns, ela tivesse fito um outro testamento em 
favor de algum que ainda no teria sido seu beneficirio, o Sr se surpreenderia se ela beneficia sse, 
digamos, a Srta Howard?


- De forma alguma.


- Ah!


        Poirot pareceu esgotar suas perguntas.

        Enquanto o Sr Cavendish discutia como advogado sobre os papis da Sra Inglethorp, perguntei a 
Poirot:

- Voc acha que a Sra Inglethorp fez um testamento deixando todo o seu dinheiro para a Srta 
Howard?


-No.


- Ento por que perguntou?


-Quieto, rapaz! - disse Poirot discretamente.


        John dirigia-se a Poirot.


- Gostaria de vir com a gente, monsieur Poirot? Vamos olhar os papis de minha me. O Sr Inglethorp 
est disposto a v- los juntamente com o Sr Wells e eu.


-O que simplifica as coisas em muito. - disse o advogado - Pelo menos tecnicamente, claro, ele est 
autorizado...  - ele no chegou a terminar a frase.


-Primeiro vamos olhar na mesa do escritrio, - disse John - depois olharemos no quarto dela. Ela 
mantm os papis importantes num estojo roxo.

























-Sim, - disse o advogado -  possvel que haja um testamento que no esteja em meu poder.


- H um outro testamento. - Poirot manifestou- se.


-O qu? - John e o Sr Wells olharam- no admirados.


-Ou pelo menos havia um! - concluiu ele.


-O que voc quer dizer com "havia um"? Onde ele est?


-Queimado!


-Queimado?

-Sim, veja isso. - Poirot retirou do bolso o fragmento que havamos encontrado na lareira e passou-o 
ao advogado, explicando- o quando e onde ns o encontramos.


- H a possibilidade de este ser um velho testamento?

- Eu acho que no. Conhecendo a Sra Inglethorp eu estou certo de que ele foi feito no mximo ontem 
 tarde.


-O qu? - John interferiu na conversa. -  Imp ossvel!


-Se voc permitir que eu converse com seu jardineiro, eu provarei isso a voc.


-Sim, claro, mas eu no vejo...


        Poirot levantou a mo.


-Faa o que lhe pedi, por favor. Perguntas mais tarde.


- Muito bem. - tocamos o sino.


        Em poucos segundos Dorcas apareceu correndo.


- Dorcas, diga a Manning que preciso dele aqui.


-Sim, senhor.


        Dorcas retirou- se.

























        Ns esperamos em silncio mortal. Poirot parecia confiante de si mesmo enquanto retirava o p de 
um canto esquecido da prateleira.


        Ouviu- se barulho das botas de Manning. John olhava para Poirot com curiosidade.


- Entre, manning, preciso falar-lhe.

        Manning aproximou-se lentament e atravs da grande janela francesa, e permaneceu o mais prximo 
que pde dela. Tirou o chapu e segurou- o mas mos, ento percebi que ele no era to velho quanto eu 
imaginava. Seus olhos denunciavam um homem inteligente e cauteloso.

- Manning, - disse John - este senhor gostaria de faz- lo algumas perguntas, e eu gostaria que voc 
as respondesse.


-Sim, senhor. - disse Manning.

        Poirot caminhava calmamente. Os olhos de Manning acompanhavam- no desconfiados.

- Voc esteve plantando um canteiro de begnias no lado sul da casa ontem  tarde, no foi?


-Sim senhor, eu e Willum.


- E a Sra Inglethorp veio at a janela e chamou voc, no foi?


-Sim senhor, ela chamou.


- Diga- me com suas palavras o que exatamente aconteceu depois.

- Bem senhor, no muito. Ela disse para pegar a bicicleta e ir at a cidade comprar um formulrio de 
testamento para ela, senhor; ela escreveu isso para Willum.


- E ento?


- Ele foi, senhor.


- E o que aconteceu depois?


-Ns voltamos ao canteiro de begnias, senhor.





















- A Sra Inglethorp no chamou vocs novamente?


-Sim senhor, chamou eu e Willum.


- E depois?


- Ela nos fez entrar e assinar nosso nome na base de um longo papel, logo abaixo de onde ela havia 
assinado.


- Voc viu algo do que estava escrito no papel?


-No, senhor, uma folha cobria toda essa parte.


- E vocs assinaram onde ela mandou?


-Sim senhor, primeiro eu e depois Willum.


- E ento o que ela fez com o papel?


- Bem, senhor, ela o colocou dentro de um grande envelope e depois dentro de uma caixa roxa que 
estava sobre a mesa.


-Que horas eram quando ela os chamou pela primeira vez?


- Mais ou menos 4 horas, senhor.


-No mais cedo, prximo s 3:30?


-No senhor, eram 4 horas, no mais cedo.


- Muito obrigado, Manning. - disse Poirot satisfeito.


        O jardineiro olhou para john esperando permisso para sair, John consentiu e ele saiu.


- Deus do cu! - disse John -  Que coincidncia incrvel!


-O que foi uma coincidncia?


- Minha me ter escrito um testamento logo no dia de sua morte!


        O Sr wells retrucou calmamente:


- Voc realmente acha que foi uma coincidncia, Sr Cavendish?

























-O que voc quer dizer?


- Voc me disse que sua me teve uma violenta briga com algum ontem...

-O que voc quer dizer? - argumentou John novamente. Sentia -se um tremor em sua voz, e ele 
tornou-se plido.

- Em conseqncia dessa briga, sua me de repente resolveu fazer um outro testamento. O contedo 
deste ns nunca iremos saber. Esta manh, sem dvida, ela iria consultar- me sobre o assunto. No teve 
chance. O testamento desapareceu, e suas vontades foram com ela para o tmulo. John, nada h de 
coincidncia aqui. sr Poirot, estou certo de que tambm que os fatos so muito sugestivos.


-Sugestivos ou no, - interrompeu John -  ns estamos muito agradecidos ao Sr Poirot por elucidar o 
caso. No fosse por ele, ns nunca saberamos do testamento. Sr Poirot: o que o levou a descobrir o 
testamento?


- Uns rabiscos sobre um velho envelope e um canteiro fresco de begnias.


        John no teve tempo de fazer mais perguntas, pois ouviu- se o rudo de um motor. Corremos todos 
para a janela.


- Evie! - disse John -  Com licena, Sr Wells. - todos ns corremos para a sala.


    Poirot olhou interrogativamente para mim.


- A Srta Howard. - expliquei.

- Ah! estou contente que ela tenha vindo, Hastings. Ela  uma mulher com cabea e corao. Foi o 
que Deus lhe deu no lugar da beleza.

        Segui o exemplo de Jo hn e corri para a sala, onde a Srta Howard tentava livrar-se de um emaranhado 
de vus que a cobria. Quando ela olhou para mim, fui atingido por uma ponta de culpa. Esta foi a mulher 
que advertiu- me to preocupadamente. Se ela tivesse permanecido na casa, a tragdia poderia ter sido 
evitada. O Sr Inglethorp no ficaria amedrontado sob seus olhos observadores?


        Fiquei aliviado quando ela cumprimentou- me com seu forte aperto de mo. seus olhos estavam 
tristes, mas isso no era recproco. Demonstrava ter chorado muito, pois seus olhos se mostravam 
inchados e vermelhos. Sua maneira spera de ser continuava a mesma.


- Recebi o telegrama logo cedo. Carro alugado. O jeito mais rpido de chegar aqui.

























- Voc comeu algo esta manh? - perguntou john.


-No.

- Achei que no. Venha, o caf ainda no foi recolhido. -  ele virou- se para mim -  Voc pode 
acompanh-la, Hastings? Wells espera por mim. Oh, este  o Sr Poirot, ele est nos auxiliando.


        A Srta Howard cumprimentou Poirot, mas desconfiadamente perguntou a John:


-Como assim "nos ajudando"?


-Nos ajudando a investigar.


-J o levaram para a priso?


- Levaram quem para a priso?


-Quem? Alfred, claro!

- Minha querida Evie, no se precipite. Lawrence acha que ela morreu de um simples ataque do 
corao.

- Lawrence est louco! - retrucou a Srta Howard -  claro que Alfred assassinou a pobre Emily, bem 
como eu havia dito a vocs.


-Por favor Evie, no grite tanto! Por mais que ns suspeitemos, no podemos fazer nada a no ser 
dizer o que sabemos at o momento. O inqurito ser apenas na sexta.

-Isso  apenas enrolao! Voc andou ouvindo os mdicos. O que ele s sabem? Apenas o suficiente 
para torn- los perigosos. Eu sei o que estou dizendo, meu pai era mdico. O pobre Wilkins est frente a 
um de seus maiores erros. Ataque do corao? Ele pode dizer muitas coisas. Qualquer um com um pouco 
de senso poderia ver que ela foi envenenada pelo seu marido. Eu sempre dizia que ele iria mat- la em sua 
prpria cama. Pobre alma! Agora ele fez isso, e tudo o que voc diz  "ataque do corao" e "inqurito na 
sexta"? Voc deveria estar envergonhado, John Cavendish!


-O que voc quer que eu faa? Eu no posso simplesmente agarr- lo pelo colarinho e arrast- lo at 
a delegacia de polcia!


- Bem, algo voc pode fazer. Descubra como ele fez isso!





















        No momento ocorreu- me de colocar Alfred e Evie sob o mesmo teto para que ento se matassem ou 
encontrassem a paz, era como provar uma tarefa Herculeana. De jeito
nenhum eu queria estar na pele de John, notava-se em sua face a dificuldade do momento. Ele parecia 
querer sumir, e deixou a sala precipitadamente.

        Dorcas trouxe ch fresco. Assim que ela retirou- se, Poirot saiu da janela onde estava e sentou- se 
frente  Srta Howard.


- Mademoiselle, - ele disse gravemente - preciso perguntar-lhe algo.


-Pergunte logo! - respondeu ela com irritao.


- Espero contar com sua ajuda.


- Eu o ajudarei a pegar Alfred com prazer. - ela replicou rudemente - Ele deveria ser amarrado e 
esquartejado como nos velhos tempos.


- Ento estamos do mesmo lado, - disse Poirot - porque eu tambm quero muito pegar o criminoso.


- Alfred Inglethorp?


- Ele ou quem quer que seja o responsvel.

-Sem essa de "quem quer que seja o responsvel"! A pobre Emily nunca foi ameaada at que ele 
entrou aqui. Eu disse a ela que ela estava rodeada de tubares. Era apenas a bolsa dela que ele queria, 
pois era l que estava o dinheiro. Bastou dois meses aps a chegada de Alfred e isso acontece!

- Acredite em mim, Srta Howard. - disse Poirot calmamente - Se Alfred for mesmo o responsvel, ele 
no escapar de mim. Por minha honra, eu no o deixarei escapar.


- Assim  melhor! - disse Evie com muito entusiasmo.


- Mas voc precisa confiar em mim. Sua ajuda ser muito valiosa, pois nestes
"momentos de lamentao" seus olhos foram os nicos que realmente choraram a perda.


        A Srta Howard pestanejou, e um novo tom de voz surgiu.

-Se voc quer saber se eu tinha afeio por ela, sim, eu tinha. Emily era apenas uma velha senhora 
seguindo seu caminho. Era muito generosa, mas sempre queria algo em troca. Ela nunca deixava as 
pessoas esquecerem o que ela havia feito por eles, e assim ela perdeu o amor. Eu sempre deixei minha 
posio bem clara: "Por alguns Pounds por ano eu





















lhe serei muito til. No por alguns mseros Pennys, nem por um par de luvas ou por um ingresso de 
teatro." s vezes ela se ofendia, e nunca me deixava explicar. De qualquer forma eu mantinha minha auto 
estima. E ento, eu sendo de fora da famlia, era a nica pessoa a quem ela poderia se afeioar. Eu cuidei 
dela, a protegi de todos eles, e assim que fui embora todos os meus anos de devoo foram por gua 
abaixo .


        Poirot concordou atentamente.

- Eu entendo mademoiselle, eu entendo o que est sentindo. Voc acha que ns estamos 
indiferentes, que necessitamos de fora e energia. Mas isso no  verdade, acredite. No  assim.


        John j com a cabea esfriada convidou-nos para ir at o quarto da Sra Inglethorp, pois ele e Wells j 
haviam terminado no escritrio.


        Enquanto subamos as escadas, John olhou para a sala de jantar e confidenciou:


-Olhe l, o que pode acontecer se aqueles dois se encontrarem?


        Balancei a cabea.


- Eu disse para Mary tentar mant- los longe um do outro.


-Ser que ela vai conseguir?


-S Deus sabe.


- Voc tem as chaves com voc, no tem Poirot? - perguntei quando che gamos  porta trancada do 
quarto.


        Pegando as chaves de Poirot John destrancou a porta, e ento todos ns entramos. O
advogado foi direto  escrivaninha, e John seguiu-o.


- Minha me mantinha os papis importantes neste estojo, eu acho.


      Poirot tomou a pequenina chave de seu molho.


-Permitam- me. Eu a tranquei por precauo esta manh.


- Mas ela no est trancada.


-Impossvel!





















- Veja. - disse John enquanto levantava e abaixava a tampa livremente.

- "Milles tanerres!" - Poirot parecia ter visto um fantasma - Quem teria uma chave igual  que eu tinha? 
- repentinamente exclamou: "En voil une affaire!" Esta fechadura foi forada!


-O qu?

- Mas quem a forou? Por qu? Quando? A porta no estava trancada? - estas perguntas partiam de 
todos ns.


        Poirot respondeu- as categoricamente, quase mecanicamente.

-Quem? Esta  a questo. Por qu? Ah, se eu soubesse! Quando? Depois que eu estive aqui, h uma 
hora atrs. Como a  porta estava trancada, quer dizer que a chave de alguma outra porta serviu nela.


        Ficamos nos entreolhando sem saber o que dizer, Poirot caminhou at a lareira e, mecanicamente, 
comeou a arrumar os vasos e enfeites.

- Bem, - disse ele finalmente - o que aconteceu foi isso: havia algo nesta caixa, alguma evidncia bem 
discreta, mas que seria de vital importncia que fosse destruda; mesmo que para isso o assassino tivesse 
que se arriscar subindo at aqui e correndo o grande risco de ser visto. Encontrando o estojo trancado ele 
foi obrigado a for- lo, revelando assim que esteve aqui. Realmente deveria ser algo de suma importncia.


- Mas o que poderia ser?


- Ah, isso eu no sei! Sem dvida algum documento, talvez o pedao de papel que Dorcas viu na mo 
da Sra Inglethorp ontem. E eu... - sua raiva explodiu - Mas que burro que eu sou! Eu no imaginei nada! 
Devo estar me tornando um imbecil! Eu nunca deveria ter deixado este estojo aqui! Eu deveria t- lo levado 
comigo, como sou burro! Agora no h mais nada, est tudo destrudo! - Ou no? Ns ainda podemos ter 
uma chance!

        Ele partiu em disparada como um louco, eu o segui assim que recuperei meus sentidos. Quando 
alcancei a estrada, ele j havia descido e sumido de vista.

        Mary encontrava- se  meia escada. Ela seguia para a direo na qual Poirot havia sumido.

-O que aconteceu com o seu pequenino amigo? Ele passou por mim feito um touro louco.





















- Ele deve estar atrs de alguma pista. - comentei. O sorriso em seus lbios chamou- me a ateno, ento 
tentei continuar a conversa:


-Os dois j se encontraram?


-Quem?


- Alfred e Evie.


        Ela olhou- me de forma desconc ertada.


- Voc acha que seria mesmo um desastre se eles se encontrassem?


- Voc no pensa assim?

-No. - ela sorria -  Eu acho que seria bom eles se encontrarem para clarear a situao. At agora 
ns temos penado muito e falado pouco.


-John no pensa assim. Ele pretende mant- los bem afastados.


- Ah, John!


        Ela tinha um tom provocante, ento eu disse:


-O velho John  realmente um sujeito de muita sorte.


        Ela estudou-me curiosamente por algum  tempo e disse, para minha grande surpresa:


- Voc  muito fiel ao seu amigo. Eu no sou como voc.


- Voc no  minha amiga tambm?


- Eu sou uma pssima amiga.


-Por que voc diz isso?


-Porque  verdade. Eu estava com meus amigos num dia, e no outro eu havia praticamente esquecido 
que eles existiam.


        No sei o que me impulsionou a dizer isso, mas falei sem pensar:


- Mas voc tem um charme inconfundvel para o Dr Bauerstein!





















        Instantneamente retirei minhas palavras. Seu rosto mudou e ela ficou sria. Sem dizer uma palavra 
ela subiu a escada e deixou- me sozinho como um tolo.


        Coisas que aconteciam l embaixo chamaram minha ateno. Ouvi Poirot praticamente desmontando 
a casa sem nenhuma confidncia. Desci rapidamente a escada e fui ao seu encontro.


- Meu velho amigo, -  eu disse - isso  ser discreto? Voc est praticamente colocando tudo nas 
mos do assassino!


- Voc acha, Hastings?


- Estou certo disso.


- Bem, meu amigo; agora serei guiado por voc.


- Tudo bem, mas agora  um pouco tarde para isso.


- Verdade.


        Ele olhou- me envergonhado e arrependido.


- Bem, vamos ento, mon ami.


- Voc acabou por aqui?


-Por enquanto sim. Voc me acompanha at a vila?


-Sim, com prazer.

        Ele tomou seu casaco, e ns samos pela porta da sala de jantar. Cynthia estava entrando, e Poirot 
deu lado para que ela passasse.


-Com licena mademoiselle, um minuto.


-Sim?


- Era sempre voc quem fazia os remdios da Sra Inglethorp?


        Ela roseou a face, e respondeu constrangidamente:


-No.





















- Apenas seus comprimidos para dormir?


- Ah, sim. Eu fiz alguns comprimidos para dormir, uma vez.


- Estes?


        Poirot exibiu a caixa de comprimidos vazia.


        Ela concordou.


- Voc pode me dizer do que eram feitos?


- Eles eram de brometo de potssio.


- Ah. Obrigado mademoiselle, tenha um bom dia.

        Enquanto seguamos para a cidade, notei seus olhos. Quando ele estava ansioso seus olhos 
pareciam com os de um gato. Ele tinha agora duas esmeraldas na face.


- Meu amigo, - ele quebrou o silncio - eu tenho uma pequena idia, muito estranha e possivelmente 
impossvel, mas mesmo assim ela faz sentido.


        Particularmente eu pensava que Poirot estava perdido em suas idias fantasiosas. Nesse caso, 
ento, a verdade era muito clara e aparente.


- Ento esta  a explicao para a etiqueta branca na caixa. Muito simples como voc havia dito. No 
sei como no pensei nisso antes. - disse eu.


        Poirot parecia no me ouvir.


- Eles descobriram mais uma coisa. - disse ele apontando para a manso.


-O qu?

- Trancado na mesa do escritrio da Sra Inglethorp, eles encontraram um testamento datado de antes 
de seu casamento, e neste testamento ela deixava toda a sua fortuna para Alfred Inglethorp. Ele no estava 
escrito em um formulrio prprio, e eram testemunhas dois funcionrios da casa - no Dorcas.


-O Sr Inglethorp sabia disso?


- Ele afirma que no.





















- Todos estes testamentos esto um tanto confusos. Diga - me, como algumas poucas palavras escritas 
sobre um envelope ajudaram- o a descobrir que havia sido escrito um testamento ontem  tarde?


- Meu pobre amigo... voc nunca, quando escrevia uma carta, teve dvida sobre a grafia de uma 
palavra?


-Sim, freqentemente.


- Muito bem. E suponho que voc a tenha escrito de vrias formas em um pedao de rascunho, e 
depois escolhia a que parecia, para voc, estar correta.


- Exatamente!


- Bem, foi o que a Sra Inglethorp fez. Note que a palavra "possudo" est primeiramente escrita com 
um "s", e logo depois escrita corretamente com dois "s". Para ter certeza, ela testou a palavra numa 
sentena: "Eu estou possuda." Agora, o que isso me fez pensar? Me fez pensar que a Sra Inglethorp havia 
escrito algo naquela tarde que continha esta palavra. Tendo em mente o pedao de papel que encontramos 
na lareira fui
induzido a pensar em um testamento, que com quase toda certeza contm essa palavra. Esta 
possibilidade foi confirmada por uma importncia casual. Com toda aquela confuso o escritrio no havia 
sido varrido esta manh, e prximo  mesa haviam vrios traos de terra. O tempo est bem firme por estes 
dias, ento no havia razo para que as botas deixassem marcas grossas.


- Eu fui at a janela e percebi que o canteiro de begnias havia sido recentemente plantado, e que os 
rastros nos canteiros eram similares aos do escritrio. Percebi ento que estes rastros eram da pessoa ou 
das pessoas que haviam plantado o canteiro, e considerei a hiptese de que primeiramente ela os havia 
chamado at a janela, pois haviam rastros prximo  ela, e mais tarde chamou-os para dentro para serem, 
em meu modo de pensar, testemunhas no testamento. Eventuais circunstncias provaram- me que eu 
estava certo em minhas suposies.
- Mas isso  genial!  Devo confessar que minhas primitivas concluses sobre as palavras estavam 
totalmente erradas.


        Poirot sorriu.

- Voc deu muita a sa  sua imaginao. A imaginao  um timo servo e um pssimo mestre. A 
explicao mais simples  sempre a correta.


- Mais um ponto: como voc soube que a chave do estojo roxo havia sido perdida?





















- Eu no sabia. Era apenas uma suposio que tornou- se correta. Pensei que uma chave original deveria 
ser bem riscada e sem brilho, marcada pelo uso. Se ela fosse encontrada, a Sra Inglethorp iria logicamente 
devolv-la ao seu mao de chaves. Mas ao invs da chave surrada pelo uso eu encontrei uma  chave 
brilhante e sem marcas, que deveria ser logicamente e cpia. Sendo assim algum havia tomado para si a 
original, para poder abrir o estojo.


-Sim, - eu disse - Alfred Inglethorp.


        Poirot olhou- me curiosamente.


- Voc tem certeza dessa suspeita?


- Bem, naturalmente. Todas as circunstncias parecem apontar para ele.


-Pelo contrrio, - disse Poirot - temos vrios pontos a seu favor.


- , - lembrei.


-O qu?


- Bem, vejo apenas um.


-Qual?


-O fato de ele no estar na casa na noite passada.


-Pssimo chute! Voc escolheu justamente um ponto que aponta contra ele.


-Como assim?

-Se o Sr Inglethorp sabia que sua esposa seria envenenada, nada mais lgico do que ele manter- se 
longe da casa. Temos ento duas possibilidades: ou ele sabia o que estava para acontecer, ou ele 
realmente tinha uma razo para no ter vindo para casa.


- E que razo? - perguntei.


        Poirot parecia indeciso.


-O que eu poderia dizer? Sem dvida este Sr Inglethorp tem algo de trapaceiro, mas isso no faz dele 
um assassino.


        Balancei a cabea, no convencido disso.

























-Ns no concordamos, no ? Bem, mon ami, deixe que o tempo diga qual de ns est certo. Enquanto 
isso, observemos um outro aspecto. O que voc acha do fato de todas as portas estarem trancadas por 
dentro?


- Bem... Algum deve t- las checado.


- Verdade.

- Acho que devo analisar assim: todas as portas estavam trancadas, mas a cera de vela no cho 
denuncia que algum entrou no quarto na noite da tragdia. Tambm a destruio do testamento prova 
isso, estou certo?


-Perfeitamente. Voc est sendo muito preciso. Continue!

- Bem, - disse eu animado - se a pessoa que entrou no o fez pela janela e nem por meios 
miraculosos, tudo nos leva a pensar que a Sra Inglethorp mesmo abriu a porta por dentro. A pessoa em 
questo que estava do outro lado da porta, pelo que eu penso, seria seu marido. Ela iria naturalmente abrir 
a porta para seu marido.


        Poirot balanou a cabea negativamente.

-Por que ela faria isso? Ela havia trancado a porta entre os quartos, um procedimento no costumeiro 
de sua parte; e ele ainda havia tido uma violenta discusso com ele naquela tarde. Isso nos afirma com 
toda a certeza que ele seria a ltima pessoa que ela deixaria entrar em seu quarto.


- Mas voc concorda comigo que a porta foi aberta pela prpria Sra Inglethorp?

- H uma outra possibilidade. Ela pode ter esquecido de trancar a porta entre os quartos quando foi 
dormir, e levantou- se mais tarde para tranc- la.


-Poirot, voc realmente pensa assim?

-No. Eu no digo que foi assim que aconteceu, mas poderia ter sido. Mudando de assunto: o que 
voc acha do pedao de conversa que ouviu entre a Sra Cavendish e sua sogra?


- Eu tinha esquecido disso, - disse eu pensativamente -  uma coisa realmente muito enigmtica. 
Parece um pouco irreal que a Sra Cavendish, com todo o estudo que tem, possa ter interferido to 
violentamente num acontecimento como esse.

























essa.
?









-Precisamente.  uma coisa muito espantosa para ter sido feita por uma mulher como



-Sim, isso  curioso. - concordei - Mas de qualquer forma isso no  um fato to importante assim, 
pode at ser desconsiderado.


        Poirot soltou um grunhido.

- Eu j no disse a voc vrias vezes que tudo, por mais insignificante que parea, deve ser levado em 
considerao?


-OK... devemos checar isso. - disse eu com ironia.


-Sim, devemos checar isso!

        Alcanamos Leastways Cottage, a casa onde Poirot morava. Entramos e fomos direto ao seu quarto. 
Fiquei impressionado ao ver que Poirot guardava os palitos de fsforo usados em um vaso chins. Ele 
ofereceu- me um de seus minsculos cigarros russos que fumava ocasionalmente. Meu moment neo 
aborrecimento desapareceu.


        Fumvamos nossos cigarros frente  janela do quarto, tinhamos ento uma bela vista da cidade. 
Sentimos uma agradvel brisa aquecida. Iria ser realmente um dia muito quente.

        Repentinamente minha ateno volt ou- se para um homem jovem que descia a rua apressadamente a 
passos largos. Seu rosto demonstrava uma extraordinria expresso - uma mistura de terror e agitao.


        Ele dirigia- se  casa de Poirot.


- "Tiens!" - ele disse - Esse  o Sr Mace, da drogaria da cidade. Ele est vindo para c!


        O Jovem homem aproximou- se da porta da casa e, aps hesitar por alguns momentos, bateu 
energicamente na porta.


- Um minuto, - falou Poirot da janela - estou indo.


        Fazendo um gesto para que eu o seguisse, Poirot desceu a escada e abriu a porta. O Sr
Mace falou instantneamente:


- Ah, Sr Poirot! Desculpe pelo incmodo, mas eu ouvi que o Sr acaba de vir da
Manso Styles.


-Sim.

























        O jovem homem mordeu os lbios, e sua testa franziu- se.


- Toda a vila j soube sobre a morte repentina da Sra Inglethorp. Eles dizem  - sua voz reduziu-se a 
um simples sussurro - que foi envenenamento...


        O rosto de Poirot tornou- se srio.


- Apenas os mdicos podem nos dizer o que foi, Sr Mace.

-Sim, claro... - o homem hesitou, mas no se conteve e agarrou o brao de Poirot - Apenas diga-me 
uma coisa, Sr Poirot: Isso no foi... no foi... por estricnina, foi?

 No ouvi o que Poirot replicou, com certeza algo de natureza no relevante. O homem despediu- se, e 
quando Poirot fechou a porta seus olhos dirigiram-se aos meus;  essas alturas curiosos.


-Sim, - ele disse seriamente - ele ter algo a acrescentar ao inqurito.


        Subimos novamente a escada e, quando ia perguntar algo, Poirot replicou:


-No agora, mon ami. Preciso refletir. Minha mente est confusa, e isso no  bom.


        Durante aproximadamente dez minutos ficamos sentados num s ilncio mortal, at que
Poirot deu- me um olhar profundo e srio.


- Bem, o mal momento passou. Agora est tudo arranjado e organizado. O caso no est claro, est 
na verdade um tanto enrolado! Com a chegada desta informao tudo em minha cabea embaralhou. Eu, 
Hercule Poirot, apanhando desse jeito? Bem, vamos aos fatos: existem 2 fatos de significado.


- E quais so?


-O primeiro  a condio do tempo ontem. Isto  muito importante.


- Mas foi um dia maravilhoso! Poirot, voc est me dando uma rasteira!

- De jeito nenhum. O termmetro indicava 27 C. No esquea disso meu amigo, esta  a chave de 
todo o mistrio.


- E o segundo ponto? - perguntei.





















-O importante fato de o Sr Inglethorp estar usando roupas muito peculiares, ter uma barba escura, e usar 
culos.


-Poirot... no posso acreditar que voc est falando srio!


- Absolutamente, mon ami.


- Mas isso  criancice!


-No, mon ami. Isso  muito importante.


- E supondo que o jri d o veredito de assassino a Alfred Inglethorp, o que vo sobrar de suas 
teorias?


-No deveramos nos conformar, pois 12 homens estpidos teriam acabado de cometer um grande 
erro. Mas isso no ocorrer, pois o jri no vai querer ser responsabilizado por um grande engano como 
esse. Eu nunca permitiria isso!


- Voc nunca permitiria isso?

        Olhei para aquele pequeno homem, dividido entre a dvida e a responsabilidade. Ele tinha tanta 
certeza do que dizia, de si mesmo... Ele parecia ler meus pensamentos, e concordou gentilmente:

- Ah, sim, meu amigo. Eu gostaria de fazer o que eu disse. - ele levantou-se e ps sua mo sobre 
minha cabea. Sua fisionomia apresentou uma forte mudana, e surgiram lgrimas em seus olhos. - Entre 
tudo isso, eu penso principalmente que a Sra Inglethorp est morta. Ela no era a mulher mais amvel do 
mundo, mas ela sempre foi maravilhosa para ns Belgas. Ns temos uma dvida d e gratido com ela.


        Eu iria interromper, mas poirot continuou:


- Deixe-me dizer isso, Hastings. Ela jamais iria me perdoar se eu permitisse que Alfred
Inglethorp, seu marido, fosse detido agora - quando uma palavra minha poderia salv- lo.





6





O Inqurito



























        No intervalo que antecedia o inqurito, Poirot empenhou- se profundamente em sua investigao. Por 
duas vezes ele e o Sr Wells permaneceram horas inteiras conversando enquanto caminhavam pelo campo. 
Fiquei ressentido por ele no estar me deixando a par do que estava acontecendo ou a quais concluses 
ele estava chegando. No sabia mais o rumo que o caso havia tomado.

        Ocorreu- me que ele poderia estar fazendo perguntas pela fazenda do Sr Raikes; ento, descobrindo 
que na quarta feira de manh ele saiu caminhando para aquela direo, resolvi caminhar pelos campos por 
aqueles lados na esperana de encontr-lo. Mas no havia nem sinal dele, e eu estava em dvida se devia 
ou no seguir at a fazenda. Enquanto caminhava, encontrei um senhor que perguntou- me:


- Voc  do stio Styles, no?


-Sim. Eu procuro por um amigo que poderia estar andando por estes lados.


- Um homenzinho que balana as mos enquanto fala? Um dos Belgas da vila?


-Sim. Ele esteve por aqui, ento?


- Ah, sim, ele esteve aqui muitas vezes. Ele  seu amigo? Ele tem um jeito mais engraado que os 
outros.


-Por qu? Os senhores da manso Styles tm vindo aqui freqentemente?


- Um tem vindo, senhor. No me lembro o nome, mas  um senhor muito generoso tambm!


- Tenho certeza que sim. Obrigado, senhor.

        Segui adiante rapidamente. Evelyn Howard parecia mais uma vez estar certa, pois Alfred poderia estar 
sendo "generoso" com alguma mulher. Estava esta picante face cigana no topo do crime, ou foi tudo por 
dinheiro? Talvez um pouco de ambos.


        Pelo menos em um ponto Poirot parecia ter uma curiosa obcesso. Ele mencionou por uma ou duas 
vezes que Dorcas poderia ter errado ao afirmar com tanta certeza que eram
4:00 quando ela ouviu a briga, e no 4:30.

        Mas Dorcas permanecia inabalvel. Afirmava que tudo se passara 1 hora antes dela servir o ch das 5 
para a Sra Inglethorp.





















        O inqurito realizou- se na sexta feira na vila, em um lugar chamado Stylites Arms. Poirot e eu 
sentamos lado a lado, mas no fomos chamados para prestar esclarecimento.


        O primeiro a depor foi John. Muito questionado, ele descreveu como foi despertado nas primeiras 
horas do dia e as circunstncias da morte de sua me.


        As evidncias mdicas foram o prximo. Todos os olhos fixaram- se no famoso especialista de 
Londres, considerado na poca como um dos maiores especialistas em toxicologia.

        Em poucas palavras ele exps os resultados da autpsia. Abusando de termos tcnicos ele explicou 
que o que havia provocado a morte da Sra Inglethor p foi envenenamento por estricnina. Quanto  quantia, 
disse ele que foram consumidos no menos de 50 mg, o suficiente para causar a morte.


-Seria possvel ela ter tomado o veneno por acidente? - perguntou o investigador.


-Considero isso pouco provvel, uma vez que no exista uso caseiro para a estricnina e que mesmo 
sua venda tinha restries.


- Voc teve como determinar como a dose foi administrada?


-No.


-Creio que voc chegou  manso antes do Dr Wilkins, no?

-Sim. O carro deixou-me na entrada do stio, e eu corri at a casa o mais rpido que pude.


- Voc pode nos relatar o que exatamente aconteceu depois?


- Eu entrei o quarto da Sra Inglethorp. No momento ela estava tendo violentas
convulses. Ela virou-se para mim e disse, com muita dificuldade: "Alfred...  Alfred...".

- A estricnina poderia ter sido adicionada ao caf que o Sr Inglethorp levou para ela em seu escritrio?

-Possivelmente. Mas a estricnina  um veneno rpido, e seus sintomas aparecem em no mximo 2 
horas aps a ingesto.  certo que em algumas condies seu efeito pode ser retardado, mas nenhuma 
dessas condies se apresentou. Eu presumo que a Sra Inglethorp pegou seu caf aps o jantar, prximo 
s 8 horas; mas os sintomas no apareceram at o fim da madrugada. Isto me leva a acreditar que a droga 
foi consumida muito mais tarde, eu diria durante a madrugada.

























- A Sra Inglethorp tinha o costume de tomar uma batida de cco no meio da noite. A
estricnina poderia estar presente nessa batida?


-No. Eu mesmo recolhi uma amostra do que restava no recipiente, e no foi constatada a presena 
de estricnina.


        Ouvi Poirot soltar um pequeno gracejo ao meu lado.


-O que voc descobriu? - sussurrei.


-Preste ateno.

- Eu devo dizer continuou o doutor - que ficaria surpreso com qualquer outro resultado.


-Por qu?

-Simplesmente porque a estricnina tem um  gosto muito caracterstico. Ela pode ser detectada numa 
soluo de um para setenta mil, podendo apenas ser encoberta por uma substncia muito condimentada 
ou de forte aroma. Cco teria poucas chances de encobri- la


        Algum do jri quis saber se a me sma objeo aplicava- se ao caf.


-No. O caf teria grandes chances de mascarar a estricnina.

- Ento voc acredita que a estricnina estava no caf, e que por alguma razo seu efeito foi retardado?


-Sim. Mas a xcara est em pedaos, sendo assim no tenho como obter uma amostra.

        Isto concluiu o depoimento do Dr Bauerstein. O Dr Wilkins apenas confirmou seu depoimento em 
todos os pontos e considerou, mesmo contra sua forma de pensar, a possibilidade de suicdio. A vtima, e 
le disse, tinha um corao fraco, mas em outros aspectos gozava de plena sade e muita disposio. Ela 
seria uma das ltimas pessoas a tirar a prpria vida.

        Lawrence foi o prximo a depor. Seu depoimento foi de pouca importncia, ele praticamente repetiu as 
palavras de seu irmo. Quando estava sendo dispensado ele disse, aps um momento de hesitao:


-Ser que eu poderia fazer uma objeo?





















      Ele fitou rapidamente o promotor, que replicou:

-Certamente Sr Cavendish, ns estamos aqui para chegar  verdade sobre este fato, qualquer coisa 
que possa ajudar a elucid- lo  bem vinda.

-  apenas uma idia minha, - disse Lawrence - claro que posso estar enganado. Para mim minha 
me morreu de causas naturais.


-O que lhe faz pensar assim?


- Minha me vinha tomando h um bom tempo um medicamento a base de estricnina.


- Ah! - o promotor surpreendeu- se.


 O jri pareceu interessar-se.

- Eu acredito - continuou Lawrence - que existem casos em que os efeitos cumulativos dessa droga, 
administrada por longo tempo, possa levar o indivduo a morte. Sendo assim, eu considero vlida a hiptese 
de que ela tenha tido uma overdose desse medicamento por acidente.

- Esta foi a primeira vez que se mencionou que a Sra Inglethorp fazia uso de um medicamento a base 
de estricnina. Estamos muito gratos a voc, Sr Cavendish.


        O Dr Wilkins foi o prximo convocado, e ridicularizou a idia.

-O que o Sr Cavendish sugere  impossvel. Qualquer outro mdico lhe dir o mesmo. A estricnina , 
de certa forma, um veneno cumulativo; mas seria um absurdo pensar que este acmulo poderia resultar 
numa morte t o repentina. Haveria um longo perodo de sintomas crnicos que teriam sido constatados 
anteriormente. A coisa toda em um s momento  absurdo.

- E a segunda sugesto? A Sra Inglethorp no poderia ter tido uma overdose por acidente?

- Trs ou quatro doses alm do receitado ainda no resultariam em morte. A Sra Inglethorp possuia 
grande quantidade desses medicamentos em casa, pois ela os comprava em grandes doses de Coot, o 
farmacutico de Tadmindster. Ela teria que tomar tudo j unto para que se acumulasse no organismo a 
quantidade de estricnina encontrada na autpsia.

- Ento o senhor afirma que devemos desconsiderar a hiptese de que a estricnina presente no 
medicamento tenha se acumulado causando a morte?





















-Certamente. A suposio  ridcula.

        O mesmo membro do jri que havia interrompido antes de toda essa polmica sugeriu que o 
farmacutico que fabricou o medicamento poderia ter cometido um erro.


-Isso  possvel, sem dvida. -  replicou o mdico.

        Mas Dorcas, a prxima testemunha chamada, descartou a possibilidade ao dizer que o medicamento 
no era recentemente fabricado, pois a Sra Inglethorp havia tomado a ltima dose no dia de sua morte.

        Ento a questo do medicamento foi totalmente abandonada, e o promotor continuou com suas 
perguntas. Aps explicar como ela tinha sido acordada pelos violentos toques do sino da Sra Inglethorp, o 
promotor passou para o assunto da briga que havia ocorrido naquela tarde.

        O depoimento de Dorcas foi idntico ao que ela havia dito a Poirot, ento no o transcreverei aqui.

        A prxima testemunha foi Mary Cavendish. Ela parecia muito nervosa, e falou em um tom lento, baixo 
e claro. Respondendo s perguntas do promotor ela contou que seu relgio a despertara s 4:30 Hs como 
de costume, e que se vestia quando ouviu o barulho de algo pesado que havia cado.


-Que poderia ter sido a mesa prximo  cama. - disse o promotor.

- Eu abri a porta, - continuou Mary - e aps alguns momentos o sino tocando violentamente, depois vi 
Dorcas vir correndo acordar meu marido, e todos ns nos dirigimos para o quarto de minha sogra, mas ele 
estava trancado...


        O promotor interrompeu- a.

- Realmente j estamos bem esclarecidos dos fatos ocorridos daqui em diante, ento eu gostaria que 
a Sra nos contasse sobre a briga do dia anterior.


- Eu?

        Havia certa petulncia em sua voz. Ela levantou as mos e arrumou o lao em seu pescoo, girando 
lentamente a cabea para que  ele se encaixasse. Um pensamento surgiu em minha cabea: "Ela est 
tentando ganhar tempo."


-Sim, eu entendo, - continuou o promotor - a senhora estava sentada no banco prximo  grande 
janela francesa do escritrio, no?

























        Isso me deixou muito surpreso, e fiquei mais assustado ainda ao descobrir que era surpresa para 
Poirot tambm.


        Houve um grande momento de silncio e, aps um segundo de hesitao, ela respondeu:


-Sim.


- E a janela do escritrio estava aberta, no?


        Repentinamente sua face empalideceu, e ela respondeu:


-Sim.

- Ento voc ouviu perfeitamente as vozes l dentro, especialmente quando elas encheram- se de 
fria, no? Provavelmente de onde voc estava ouvia- se melhor do que da sala, penso eu.


-Possivelmente.


- Voc poderia repetir para ns o que foi que ouviu?


- Realmente eu no lembro o que ouvi.


- Voc quer dizer que no ouviu as vozes?


-No! s vezes eu ouvia, ma s no lembro sobre o que falavam. - seu rosto tornou- se vermelho - Eu 
no gosto de ficar ouvindo conversas privadas.


        O promotor insistiu.


- Mas voc no lembra de nem uma frase que ouviu, Sra Cavendish? Nada mesmo?


        Ela pareceu refletir, e continuou calmamente como de costume:


-Sim, eu lembro. A Sra Inglethorp disse algo sobre escndalo entre marido e mulher. No lembro 
exatamente da frase, mas lembro desse pedao.


- Ah! - o promotor parecia s atisfeito - Isso corresponde ao que Dorcas nos disse. Mas quando a Sra 
percebeu que era uma conversa privada, por que no saiu de onde estava?





















        A Sra Cavendish percebeu que o promotor queria chegar a algum lugar com suas insinuaes, mas 
respondeu ainda calmamente:


- Eu estava bem l. Fixei minha cabea em meu livro.


- E isso  tudo que voc pode nos dizer?


-Isso  tudo.


        A Sra Cavendish foi dispensada, e eu estava em dvida se o promotor estava satisfeito com suas 
respostas ou se achava que ela sabia mais do que havia dito.


        Amy Hill, um balconista, foi o prximo a ser convocado. Ele confirmou ter vendido um formulrio de 
testamento para William Earl, jardineiro do stio Styles.


        William Earl e Manning sucederam- no, e afirmaram terem assinado um documento da
Sra Inglethorp prximo s 4:30, William disse que poderia ter sido um pouco mais cedo.

        Cynthia Murdock foi a prxima. Ela tinha pouco a dizer, pois nada sabia sobre a tragdia at que a 
Sra Cavendish a acordou.


- Voc no ouviu a mesa caindo?


-No, eu tenho um sono muito pesado.


        O promotor sorriu.


- Uma boa mente faz um bom dorminhoco. - ele brincou - Obrigado Srta Murdock, isto  tudo.


-Srta Howard!

        A Srta Howard trouxe a carta escrita para ela pela Sra Inglethorp no dia 17. Poirot e eu j havamos 
examinado esta carta anteriormente, e no havia nada nela que pudesse contribuir para a elucidao do 
caso. Esta  uma reproduo da carta: (Fig4)



        Ela foi passada ao jri, que a examinou cuidadosamente.


- Temo que ela no nos possa ajudar muito, - disse o promotor - no h meno do que havia ocorrido 
naquela tarde.





















- Est to claro como gua, -  disse a Srta Howard - ela mostra claramente que a minha pobre amiga havia 
descoberto que ela havia feito uma loucura!


-No h nada sobre isso na carta. - disse o promotor.

-No, porque Emily nunca admitia que estava errada. Mas eu a conhecia bem, ela me queria de volta; 
mas ela no queria admitir que eu estava certa.


        O Sr Wells sorriu desconcertadamente.

- De qualquer forma, - continuou a Srta Howard - tudo isso  uma grande perda de tempo. Falar falar 
falar... Enquanto o tempo todo ns sabemos perfeitamente bem que...


        O promotor a interrompeu cheio de agonia e apreenso:


-Obrigado Srta Howard, isso  tudo.


        Notei uma expresso de alvio quando a Srta Howard retirou- se do banco.


        Depois veio a sensao do dia. O promotor chamou Albert Mace, assistente de farmcia.


        Ele era o agitado homem que perguntara a Poirot sobre a causa da morte da Sra Inglethorp. 
respondendo s perguntas do promotor ele informou que era diplomado em farmcia, mas tinha vindo 
recentemente trabalhar numa farmcia da vila como assistente.


        Acabadas as apresentaes o promotor foi direto ao assunto:


-Sr Mace, voc vendeu estricnina h alguns dias para uma pessoa sem autorizao?


-Sim senhor.


-Quando?


-Na segunda feira  noite.


-Segunda? No na tera?


-No senhor, segunda feira dia 16.


- Voc poderia nos dizer para quem voc a vendeu?


        Podia se ouvir um alfinete caindo.

























-Sim senhor. Foi para o Sr Inglethorp.

        Todos os olhos voltaram- se para onde Alfred Inglethorp estava sentado. Este continuou sentado, 
calmo e pareceu no se abalar com o fato. Pensei que ele iria levantar- se da cadeira e sair, mas continuou 
sentado como estava antes. Sua face adquiriu uma expresso de indignao.


- Voc tem certeza do que diz? -  perguntou o promotor.


- Absoluta senhor.


- Voc tem costume de vender produtos perigosos assim para qualquer um sem autorizao?


        O jovem rapaz assustou-se:


- Ah, no, senhor! Mas vendo que era para o Sr Inglethorp da Manso Styles, eu no vi nada de 
errado. Ele disse que era para envenenar um cachorro doentio.


        Instantneamente pensei em como as pessoas se deixam levar pelo status da pessoa com a qual 
esto conversando. "Sr Inglethorp da Manso Styles"...


-No  regulamentado que quem compra veneno deve assinar um livro?


-Sim senhor. O Sr Inglethorp assinou.


- E voc trouxe o livro?


-Sim senhor.

        O promotor olhou cuidadosamente o livro que o Sr Mace lhe apresentava. Ento, aps um longo 
silncio, o Sr Inglethorp foi convocado. Ele sentia- se - eu poderia dizer - como se tivesse uma corda ao 
redor do pescoo.


        O promotor foi direto ao ponto.

-Na noite da ltima segunda feira, o senhor comprou estricnina com o propsito de envenenar um 
cachorro?


        O Sr Inglethorp replicou calmamente:





















-No, eu no comprei. No existem cachorros no stio Styles; exceto um co pastor, mas ele goza de 
perfeita sade e tem muita utilidade.


- Voc nega totalmente ter comprado estricnina do Sr Mace na segunda feira?


-Sim.


- Ento voc nega isso?


        O promotor estendeu-o o livro onde estava registrada sua assinatura.


-Nego absolutamente. A assinatura no  minha. Vou mostr- lo.

        Ele retirou um velho envelope do bolso e assinou seu nome nele. As duas assinaturas com certeza 
no coincidiam.


- E qual a sua explicao para a afirmao do Sr Mace?


       Alfred disse imperturbavelmente:


- Ele deve ter se enganado.


        O promotor hesitou por um momento, depois disse:

-Sr Inglethorp; por mera formalidade, o Sr pode nos dizer onde estava na segunda feira, dia 16 de 
julho, por volt a das seis horas da tarde?


- Realmente... no lembro.


-Isso  um absurdo, Sr Inglethorp. Pense mais um pouco.


        O Sr Inglethorp balanou a cabea.


-No posso dizer... acho que estava caminhando.


- Em que direo?


- Realmente no lembro.


- Voc estava acompanhado de algum?


-No.





















-Que pena, - disse o coronel -  voc no pode nos dizer onde estava na hora que o Sr
Mace supostamente o viu na farmcia?


- Definitivamente, no!


-Seja cuidadoso, Sr Inglethorp!


        Poirot estava muito nervoso.


-Sacr! Este homem quer ser preso?


        O Sr Inglethorp estava mesmo causando uma m impresso. Sua falta de argumentos no 
convenceria nem uma criana. O promotor assim mesmo passou para a prxima pergunta, e Poirot soltou 
um suspiro de alvio.


- Voc teve uma discusso com sua esposa na tera  noite?

- Desculpe- me: voc deve ter sido mal informado. Eu no tive briga alguma com minha querida 
esposa. A histria toda foi inventada. Eu nem mesmo estava em casa naquela tarde.


- Voc tem algum que pode provar isso?


- Voc tem minha palavra! - disse o Sr inglethorp energicamente.


        O promotor no demorou a retrucar:


- Existem duas testemunhas aqui que dizem terem ouvido a briga entre voc e sua esposa.


- Essas testemunhas esto enganadas

        Eu estava perplexo. Ele afirmava isso com tanta certeza que eu fiquei sem saber o que pensar. Olhei 
para Poirot e percebi uma expresso de exaltao em seu rosto que eu no conseguia entender. Ser que 
ele finalmente estava convencido da culpa de alfred Inglethorp?

-Sr Inglethorp, - continuou o promotor - voc j soube das ltimas palavras de sua esposa segundos 
antes de sua morte. Voc poderia explic-las?


-Certamente.


- Voc pode?

























-Parece ser muito simples. A sala estava pouco iluminada, e o Dr bauerstein tem um corpo muito parecido 
com o meu, e tambm usa barba. Com a luz dbil e o estado em que ela se encontrava, ela facilmente 
confundiu o Dr Bauerstein comigo.


- Ah! - murmurou Poirot - Essa  uma possibilidade.


- Voc acha que isso  verdade? - sussurrei.


-No digo isso, mas  uma suposio muito engenhosa.


- Voc leu as ltimas palavras de minha esposa como se elas fossem uma acusao, mas na 
verdade elas eram uma splica.


    O promotor refletiu por um momento, depois disse:

- Eu acredito, Sr Inglethorp, que o senhor mesmo levou o caf para sua esposa naquela noite, no foi?


- Eu peguei para levar, mas no levei. Um amigo chamava-me na porta da sala, ento eu deixei o caf 
sobre a mesa da sala e fui atend-lo. Minutos depois quando voltei, o caf j no estava mais l.


        Esta histria pode - ou no -  ser verdade, mas de qualquer jeito isto no o tornou menos culpado. De 
um jeito ou de outro ele teria tido tempo para colocar o veneno.

        Nesse momento, Poirot indicou- me discretamente 2 homens que estavam sentados prximo  porta. 
Um deles era pequeno, feio e escuro; o outro era alto e gordo.

        Eu perguntei a Poirot quem eles eram, ele encostou seus lbios em meu ouvido e sussurrou:

- Um deles  o detetive James Japp, conhecido como Jimmy; o outro no lembro que , mas ambos 
so da Scotlald Yard. As notcias correm rpido, meu amigo.


        Olhei cuidadosamente para os dois homens. Nada neles indicava que eram da polcia, pareciam 
apenas duas pessoas normais.


        Minha ateno foi chamada pelo veredito dado:


- Homicdio intencional praticado por pessoa ou pessoas des conhecidas.

























7





Poirot Paga Suas Dvidas




        Quando samos do saguo, Poirot segurou- me levemente pelo brao. Isso significava que ele queria 
que esperssemos pelos homens da Scotland Yard.


        Em pouco tempo  eles apareceram, e Poirot apro ximou- se deles:


- Acho que no se lembra de mim, inspetor Japp.

-Como no, Poirot? - redarguiu o inspetor. Ento falou para o outro: - Lembra- se que eu lhe falei de 
monsieur Poirot? Ns trabalhamos juntos em 1904 no caso "Abercrombie forgery", mesmo ele estando 
adoecido em Bruxelas. Bons tempos aqueles. Lembra-se do baro Altara? Ele passou para trs metade 
dos policiais da Europa, mas ns o prendemos em Antwerp, graas ao senhor Poirot.


        Aps estas remindiscncias Poirot apresentou- me ao inspetor Japp, que por sua vez apresentou- me 
ao superintendente Summerhaye.


- Mas o que voc faz por aqui, velho amigo? - perguntou Poirot.


- Agora, nada. O caso est resolvido.


- Engano seu, meu amigo.


- Mas como? - disse Summerhaye pela primeira vez - A coisa toda parece estar clara como a luz do 
sol. O homem est todo enrolado, o que poderia faltar?


        Mas Japp olhava atentamente para Poirot.

- V com calma, Summerhaye. J conheo o Sr poirot, e algo me diz que na realidade nada est 
resolvido. A no ser que eu esteja enganado, h alguma coisa muito errada aqui. Poirot?


        Poirot sorriu.


- Tenho chegado a certas concluses, sim.

























- Esse  o caminho, - ele disse - porque ns apenas vimos o caso de fora, no estamos envolvidos nele. 
Essa  a desvantagem que o pessoal da Scotland Yard tem em relao a voc aqui. Um bom caso 
depende de um bom pontap inicial, e aqui est o Sr Poirot para nos ajudar. Deveramos estar aqui bem 
antes, mas tomamos conhecimento do caso h pouco tempo. Pelas evidncias do inqurito est claro que 
o Sr Inglethorp assassinou sua esposa, e se algum tivesse dito o contrrio eu teria duvidado com certeza. 
Eu esperava que o jri desse o veredito de homicdio intencional por parte do Sr Inglethorp.


- Talvez, penso, voc tenha a ordem de priso para Alfred Inglethorp em seu bolso. - sugeriu Poirot.


        Uma expresso de oficialismo surgiu no rosto de Japp.


- Talvez sim, talvez no.


        Poirot olhou-o pensativo.


- Eu estou muito preocupado. - disse Poirot - Senhores, Alfred no deve ser preso.


- Acho que est enganado. - observou Summerhaye sarcasticamente.


        Japp questionava Poirot.

- Voc no poderia estar enganado, Poirot? Seu pedido para ns  uma ordem, mas voc sabe que a 
Scotland Yard no admite enganos.


        Poirot concordou seriamente.

- Eu sei disso, mas vou dizer uma coisa a vocs: prendam o Sr Inglethorp se quiserem, mas isso nos 
trar dvidas e problemas. Os fatos contra eles sero logo desmentidos, e ento provarei que esto 
enganados.


        Japp permaneceu pensativo, e Summerhaye deu um sorriso incrdulo. Eu estava totalmente 
paralisado, e s podia pensar que Poirot estivesse enlouquecendo.


        Japp enxugava o rosto com um leno.


- Eu no irei prend- lo, Poirot, mas voc deve entender que existem muitos acima de mim que 
perguntaro que diabos eu estou fazendo. Voc no tem algo mais com o que eu possa argumentar?


        Poirot refletiu por um momento.

























-Isso pode ser arranjado. - disse ele finalmente - Admito que no gostaria de fazer isso, que preferia 
trabalhar s escuras por enquanto, mas o que voc me pede  justo.  a palavra de um agente Belga. 
Alfred Inglethorp no deve ser preso, e eu vou provar isso, meu amigo. Voc pretende ir at o stio Styles?


-Sim, em meia hora. Tenho de conversar com o promotor e o mdico antes.

- Bem. Pegue- me ento na ltima casa da vila, gostaria de ir com vocs. Alfred Inglethorp dar a 
vocs as evidncias que precisam - ou eu, se no acreditarem nele. Vocs vero que ele  inocente. 
Topam?


-Sim. Admito que no vejo do que desconfiar Poirot, mas voc  um prodgio e sempre me 
surpreendeu. At logo, ento.


        Os dois detetives foram embora. Summerhaye manteve sua expresso de indiferena.

- Bem, meu amigo, - disse Poirot - o que voc acha? Mon Dieu! No pensei que pudesse haver um 
homem to cabea dura como o Sr Summerhaye na polcia, este homem  um verdadeiro imbecil!

-Poderia haver uma outra explicao por trs daquela imbecilidade. - retruquei -  E se as acusaes 
contra Alfred forem verdadeiras, como voc ir se defender a no ser pelo silncio?

- Mas que Diabos! Veja s: suponhamos que eu tivesse cometido este assassinato, eu poderia 
pensar em no mnimo sete desculpas convincentes para contar! As negaes secas do Sr Inglethorp no 
convencem nem a uma criana!


        No pude deixar de rir.

- Meu velho amigo! Voc teria capacidade para inventar setenta desculpas convincentes, mas depois 
de tudo isso voc no pode continuar acreditando na inocncia de Alfred Inglethorp!


-Por que no tanto agora como antes? - perguntou Poirot.


-Porque as provas so muito claras e conclusivas!


-Sim, muito conclusivas.


        Entramos na casa de Poirot, e subimos mais uma vez aquelas conhecidas escadas.





















-Sim, sim, muito conclusivas. - Poirot falava para si mesmo - As evidncias reais so muito vagas e 
insatisfatrias, isso deve ser examinado com extremo cuidado. Mas a coisa toda j cortada e seca. No, 
meu amigo. Estas evidncias foram forjadas, to forjadas que esto indo contra seus prprios objetivos.


-Como assim?

- As acusaes contra Alfred eram vagas e de certa forma fugiam da realidade, mas era um pouco 
difcil prova r- se isso. Mas na sua ansiedade o criminoso fechou tanto a rede que um simples corte deixar 
o Sr Inglethorp livre.


        Permaneci em silncio. Aps alguns segundos Poirot continuou:

- Vamos ver a coisa por um outro lado. Ele  um homem que -  deixe- me ver - envenenou sua 
esposa. Ele vivia sob seus prprios preceitos. Ele no era louco. Bem, como vamos colocar as coisas... 
Ele foi at a cidade comprar estricnina usando o prprio nome, com a desculpa de que desejava envenenar 
um cachorro. Ele no usou o veneno naquela noite, esperou que eles tivessem uma briga para envenen-la 
fazendo com que todos desconfiassem dele. Ele no inventa defesa e no arranja um libi, e no se 
importa se o farmacutico que o atendeu o reconhea! Entendeu tudo, Hastings? No me pea para 
acreditar que exista uma pessoa assim to idiota! Apenas um luntico que quisesse se suicidar aps isso 
agiria assim!


- Mas de qualquer forma eu no vejo... - comecei.


-Nem eu vejo! Isso espanta at a mim, Hercule Poirot!


- Mas se voc acredita na inocncia dele, como voc explica a compra da estricnina?


- Muito simples. Ele no comprou.


- Mas Mace o reconheceu!

-Perdo meu amigo, ele viu um homem com uma barba preta como a do Sr Inglethorp, que usava 
culos iguais aos do Sr Inglethorp, e que vestia roupas to chamativas como as do Sr Inglethorp. Ele no 
poderia reconhecer com certeza um homem que vira somente  distncia. Ainda ma is que ele est na vila 
h pouco mais de 15 dias, e que o Sr Inglethorp compra principalmente de Coot, em Tadmindster.


- Ento voc acha...


- Meu amigo, lembra-se dos dois pontos que eu disse a voc? Deixe o primeiro de lado, e diga- me o 
segundo.

























-O fato de que o Sr Inglethorp usava roupas peculiares, barba e culos?


- Exatamente. Agora suponhamos que John ou Lawrence tenham se passado por ele;
isso seria fcil?


-No. Mas claro que um ator...


        Poirot interro mpeu- me bruscamente.

- E por que no seria fcil? Vou lhe dizer, meu amigo: porque ambos so homens bem barbeados. 
Para tornar isso possvel com um desses dois  luz do dia, seria necessrio um ator de crebro privilegiado 
e com certa ressemblncia facial. Mas no caso de Alfred Inglethorp, tudo mudou. Suas roupas, sua barba, 
o culos que usava; estes so os pontos tocantes  sua aparncia pessoal. Agora, qual o primeiro instinto 
de um criminoso? Desviar a suspeita de si mesmo. E como fazer isso? Jogando a culpa para cima de 
algum! Nessas instncias ele j teria um alvo definido, por isso todos acreditaram na culpa do Sr 
Inglethorp. Esta seria uma concluso precipitada que sofreria suspeitas, mas para evitar que isso 
acontecesse apareceram todas essas evidncias de o veneno ter sido comprado pelo suposto Sr 
Inglethorp. No se esquea que o Sr Mace nunca viu de perto o Sr Inglethorp nem conversou com ele. 
Sendo assim devemos ter grandes dvidas se este homem de roupas peculiares e barda escura era mesmo 
o Sr Inglethorp.

-Pode ser, - continuei, espantado com a eloqncia de Poirot -  mas se for mesmo o caso por que ele 
no disse onde estava na segunda feira  noite por volta das seis horas da tarde?


- E por que ele deveria? Se ele fosse preso ele teria dito, mas no acho que isso seja necessrio. Eu 
preciso faz- lo perceber a gravidade da situao, porque pelo seu silncio est claro que ele no notou 
isso. Se ele no assassinou sua esposa deve estar sendo usado como fantoche, e precisamos aconselh-
lo sem que o assassino saiba.

-Quem poderia ser? - pensei. Estava quase vencido pelas concluses de Poirot, e comeava a 
acreditar que eram mesmo verdadeiras.


- Voc no consegue acreditar? - perguntou Poirot sorrindo.


-No. Voc acredita?


- Ah, sim. Eu tive uma idia h algum tempo atrs, e ela tornou-se verdadeira.


- Voc nunca me falou! - disse eu transtornado.





















        Poirot lanou suas mos defensivamente.

-Perdo mon ami, mas voc no teria simpatizado com a idia. Voc v agora que ele no deve ser 
preso?

- Talvez. - disse eu pensativo, pois na verdade achava que um bom susto no o causaria danos.


        Poirot observava- me, at que deu um sinal.


- Vamos mon ami, diga o que achou do inqurito.


- Vi muito mais do que esperava.


-Nada nela pareceu- lhe peculiar?


        Meus pensamentos fixaram- se em Mary Cavendish, ento perguntei:


- Em que sentido?


- Bem, sobre o depoimento de Lawrence, por exemplo.


        Eu dei um suspiro de alvio.

- Ah, Lawrence! No, no lembro de ter visto nada de estranho em seu depoimento. Ele  um homem 
meio nervoso.


- A sugesto dele de que sua me se auto envenenou por um excesso de certo medicamento soa 
meio estranho, no?


-No posso dizer. Para mim foi uma sugesto aceitvel vinda de um leigo.

- Mas monsieur Lawrence no  um leigo! Pelo que voc me disse ele  diplomado em medicina.


-Sim,  verdade. Eu nunca havia pensado nisso. - fiquei assustado -  algo bastante sugestivo.


        Poirot concordou.

-Seu comportamento inicial foi estranho; como todos na casa ele parecia no conhecer os sintomas 
provocados por envenenamento por estricnina, e como se isso no bastasse foi o nico da casa a propor 
morte natural. Se essa hiptese tivesse sido levantada por John eu





















entenderia, pois ele no possui conhecimentos nessa rea e nem imaginao, mas Lawrence ter proposto 
isso... Estou muito intrigado. E ainda hoje ele props uma idia que os
mdicos ridicularizaram, tudo leva a crer que h algo errado.


-  muito confuso. - concordei.


- E depois temos a Sra Cavendish que no diz tudo o que sabe. Estranho, no? - indagou Poirot.


- Eu j no sei o que pensar, ela parece estar protegendo Alfred!


        Poirot concordou pensativamente.

- Uma coisa  certa: ela ouviu muito mais do que uma simples "conversa privada", como disse no 
inqurito.


- E ela no parece ter sado no meio do assunto!

- Exatamente! O depoimento dela me fez perceber o erro que cometi. A discusso ocorrera prximo 
s 4 horas como Dorcas falou, no mais tarde.


        Fitei- o curiosamente. No conseguia entender sua insistncia nesse ponto.


- Mais uma coisa ocorreu- me: o que estaria fazendo o Dr Bauerstein de p e vestido aquela hora da 
manh? Esta foi uma coisa que ningum comentou.


- Ele deve sofrer de insnia.


-Isso seria uma tima ou uma pssima explicao, - disse Poirot - pois abrange tudo e no esclarece 
nada. Devemos manter nossos olhos do Dr Bauerstein!


- Mais alguma falha foi encontrada no depoimento? -  perguntei.

- Mon ami, quando voc acha que as pessoas no esto lhe falando a verdade, mantenha os olhos 
bem abertos! Se no me engano muito, somente uma ou duas pessoas falaram tudo que sabiam nesse 
inqurito.

- Ah, sim. Eu poderia citar Lawrence e Mary Cavendish. John e a Srta Howard estavam falando a 
verdade, no?


-Os dois, mon ami? Um deles sim; ambos, tenho dvidas.





















        Suas palavras deixaram- me paralisado. O depoimento da Srta Howard, dado com tanta sinceridade 
mesmo sendo de pouca importncia, no podia duvidar dela. Mas de qualquer jeito eu tinha um grande 
respeito pela sagacidade de Poirot; a no ser quando tinha umas recadas, era quando eu costumava 
cham - lo de "cabea dura".

- Voc realmente pensa assim? O depoimento da Srta Howard pareceu- me bastante sincero.

        Poirot olhou- me curiosamente, deixando- me sem saber o que pensar. Ele parecia conversar consigo 
mesmo.


- A Srta Cynthia tambm. No h nada de errado na histria dela.

-No. Mas foi estranho ela no ter ouvido nem mesmo a mesa cair enquanto que a Sra Cavendish 
afirma ter ouvido isso claramente do outro lado da casa.. No se esquea de que o quarto de Cynthia fica 
do lado do quarto da Sra Inglethorp.


- Bem, ela  jovem, e tem o sono pesado.


- Ah, ? Ento ela deve ser uma dorminhoca fora do comum!

        Sua resposta deixou- me inquieto. Nesse momento ouvimos batidas na porta e, ao olharmos pela 
janela, vimos os dois detetives que nos aguardavam.

        Poirot ajeitou o palet, penteou o bigode para retirar uma sujeira imaginria, e incentivou- me a 
preced- lo na descida da escada. L embaixo nos juntamos aos detetives e seguimos para a manso 
Styles.


        Pensei que a apario dos dois homens havia sido um choque - especialmente para John. Mas de um 
jeito ou de outro a presena dos detetives mostrava a ele a realidade mais do que qualquer coisa mostrava.

        Poirot seguia conversando com Japp, e eles haviam acertado que quando chegassem  manso, 
reuniriam todas as pessoas da casa - menos os empregados - na sala de jantar. Notei o significado disso: 
Poirot estava para dar uma forte cortada no baralho. Quem sabe j no comearia a dar as cartas?

        Eu conseguia manter minha calma. Poirot devia com certeza ter suas razes para tanto, mas 
Summerhaye teimava em demonstrar sua descrena na importncia que isso poderia ter.


        Ao chegarmos  manso reunimos todos na sala de jantar. Japp fechou as portas enquanto Poirot 
distribuia cadeiras educadamente.

























        Os olhos fitavam- se uns aos outros e pela primeira vez senti como  estar realmente no meio do 
drama. Percebi que tudo no era apenas um sonho louco, mas sim uma apreensiva realidade. Antes ns 
lamos, e agora ramos os atores. A primeira pgina de um jornal sobre a mesa exibia seu ttulo:







                "TRAGDIA MISTERIOSA EM ESSEX





                    DAMA RICA ASSASSINADA"







        Tambm apareciam algumas fotos da cidade, e algo como "Famlia vive um inqurito". Abaixo disso 
linhas que tantas vezes j havia lido sobre pessoas que no conhecia, agora referiam-se a pessoas 
prximas. Sentia- me fazendo parte disso. Sentia o
assassino entre ns e,  nossa frente, os detetives no comando do caso. Vrios pensamentos ocorreram- 
me antes que Poirot iniciasse a reunio.

        Todos - inclusive eu - ficaram surpresos quando Poirot tomou a iniciativa, e no os detetives 
encarregados do caso.

- Mesdames and messieurs, -  disse Poirot como se fosse apresentar uma celebridade - eu pedi para 
que todos se reunissem aqui para tratar de um assunto, e esse assunto diz respeito a Alfred Inglethorp.


        O Sr Inglethorp sentava-se um pouco distanciado dos outros, mas na verdade foram os outros que 
afastaram suas cadeiras dele. Ele pareceu acordar quando ouviu seu nome.


-Sr Inglethorp, - disse Poirot dirigindo- se a ele diretamente - uma nuvem muito escura abateu- se 
sobre esta casa, a sombra de um assassino.


        O Sr Inglethorp balanou a cabea tristemente.


- Minha pobre esposa! - murmurou ele -  Minha pobre Emily, isso  terrvel!





















- Eu acho senhor, - disse Poirot ao perceber que ele no estava entendendo - que o senhor no entendeu o 
que eu quero dizer: o senhor corre grande perigo.


        Os detetives inquietaram- se, e eu ouvi aquela clssica frase: "- Tudo o que disser poder ser usado 
contra voc no tribunal." Obviamente isso s poderia ter partido de Summerhaye. Poirot continuou.


- Voc entende agora, monsieur?


-No. O que voc quer dizer?


- Eu quero dizer - falou Poirot deliberadamente - que voc  suspeito de ter envenenado sua esposa.


        O rosto do Sr Inglethorp assemelhou- se a uma vela.


- Deus do cu! Mais que idia mais absurda! Eu ter assassinado minha querida Emily?

-No penso - continuou Poirot - que o senhor estivesse ciente disso no inqurito. Agora o senhor j 
sabe porque  to importante que ns saibamos onde o senhor estava na segunda feira por volta das seis 
horas.


        Com um suspire ele sentou- se e cobriu o rosto com as mos. Poirot aproximou-se dele.


-Fale! - Poirot disse atenciosamente.


        O Sr Inglethorp balanou a cabea negativamente.


- Voc no ir falar?


-No. No acredito que algum poderia ser to monstruoso a ponto de me acusar disso!


        Poirot parecia decepcionado.


- Bem, - ele disse - ento deverei falar por voc.


        Alfred pareceu recobrar os sentidos.


- Voc? Como voc pode falar por mim? Voc no sabe... - parou abruptamente.


        Poirot virou-se para ns.

























-Senhoras e senhores, eu falarei por ele, ento por favor ouam. Eu, Hercule Poirot, afirmo que o homem 
que entrou na farmcia na segunda feira prximo s seis horas da tarde para comprar estricnina no era o 
se nhor Inglethorp, pois s seis horas da tarde daquela segunda o Sr Inglethorp acompanhava a Sra Raikes 
quando ela voltava para casa vindo de uma fazenda vizinha. A fazenda Abbey, como todos sabem a casa 
da Sra Raikes, fica a mais ou menos 4 Km da vila. Quanto s testemunhas, tenho cinco pessoas que 
afirmam t- los visto neste horrio percorrendo aquele caminho. Isso anula a possibilidade de o Sr 
Inglethorp ter entrado na farmcia naquele horrio.





8




Leve Suspeita




        Houve um grande momento de silncio. Japp, que estava to surpreso quanto ns, foi o primeiro a 
falar.


- s vezes voc me surpreende, Poirot. Essas testemunhas esto todas confirmadas?


-Sim. Depois lhe passarei a lista com seus nomes e endereos.


- Estou muito agradecido a voc, Poirot. - disse Japp - Agora j temos algo a favor do Sr Inglethorp. 
Com licena Sr Inglethorp, mas por que o senhor no disse isso no depoimento?


- Vou dizer porque. -  disse Poirot - Havia um falso rumor...


-O mais malicioso e falso rumor! - Interrompeu Alfred.


- E o Sr Inglethorp quis evitar outro escndalo. Estou certo?

- Exatamente! -  concordou o Sr Inglethorp -  J basta o que dizem que eu fiz com minha pobre Emily, 
ento no queria mais rumores falsos contra mim.

-Se no fosse pelo nosso amigo Poirot, senhor, eu j o teria preso como culpado pelo assassinato 
pela morte de sua esposa.





















- Eu estava enlouquecido, sem dvida. - disse Alfred - Mas o senhor nem imagina inspetor, o quanto eu 
tenho sido perseguido e caluniado. -  ele deu uma rpida olhada para Evelyn Howard.

- Agora, senhor, - disse Japp virando- se para John -  eu gostaria de ver o quarto da Sra Inglethorp. 
No se preocupe em me acompanhar, pois o Sr Poirot me mostrar o caminho. Depois disso eu gostaria 
de conversar um pouco com os empregados.

        Quando todos saram da sala Poirot fez um sinal para que eu os acompanhasse at o topo da 
escada, onde segurou- me pelo brao e disse:


- V rapidamente para a outra asa da casa. Fique l parado prximo  curva do corredor at que eu 
volte. - depois deixou- me e juntou- se aos detetives.


        Eu segui suas instrues. Tomei meu lugar prximo  curva do corredor e fiquei pensando que Diabos 
estaria eu fazendo l. Ocorreu- me a idia de que todos os quartos eram daquele lado da casa, exceto o da 
Srta Murdock. Talvez Poirot quisesse que eu ficasse observando quem ia ou vinha. Os minutos passaram. 
Ningum ia, ningum vinha; nada aconteceu.


        Passaram- se uns 20 minutos at que Poirot aparecesse.


- Voc no se moveu?


-No. Fiquei aqui literalmente estaqueado. Nada aconteceu.


- E voc est desapontado ou satisfeito com isso? No percebeu at agora?


-No.


- Mas voc provavelmente ouviu alguma coisa, no? Um forte estrondo?


-No.

- Mas isso  possvel?...  Eu estou decepcionado comigo mesmo. Fiz um rpido gesto com a mo e 
acabei derrubando a mesa prximo  cama!


        Ele olhou- me muito envergonhado.

-No importa, meu amigo. Seu triunfo l na sala o deixou ansioso.Aquilo realmente foi uma surpresa 
para todos ns. Deve haver muita coisa entre o Sr Inglethorp e a Sra Raikes para que ele escondesse tudo 
com tanta persis tncia. O que voc vai fazer agora? Onde esto seus amigos da Scotland Yard?

























-Foram conversar com os criados. Eu estou muito desapontado com Japp,  um homem sem mtodos!


-Olhe s, - eu disse olhando pela janela - Aqui est o Dr Bauerstein. Eu acho que voc est certo 
sobre ele, Poirot, eu no gosto dele!


- Homem astuto ele. - observou Poirot.


- Astuto como o Demnio! Voc precisava ver como ele estava na tera  noite, um espetculo! 
Estava coberto de lama da cabea aos ps.


- Voc o viu ento?


-Sim. Ele esteve aqui naquele estado. No queria entrar, mas o Sr Inglethorp insistiu.

-O qu? - Poirot segurou- me violentamente pelo brao - O Dr Bauerstein esteve aqui na tera  noite? 
Aqui? Por que voc no me disse isso antes?


        Ele parecia estar muito nervoso.


-Pensei que isso no tivesse importncia!  Achei que no iria interess- lo.


- Mas isso  de extrema importncia! Ento o Dr Bauerstein esteve aqui na tera  noite, a noite do 
assassinato! Hastings, isso muda tudo!


        Ele parecia repentinamente tomar uma deciso.


-Ns devemo s agir de uma vez. Onde est o Sr cavendish?


        John estava na sala de fumantes. Poirot dirigiu- se direto a ele.

-Sr Cavendish, tenho que ir a Tadmindster para pegar uma prova. Posso usar seu carro?


-Sim, claro. Quer ir agora?


-Se possvel.


        John tocou o sino e mandou trazer o carro. Dentro de dez minutos ns j estvamos percorrendo a 
longa estrada at Tadmindster.


- Agora Poirot, - eu disse - voc pode me explicar o que tudo isso significa?

























-Claro, meu amigo. Agora a coisa toda deu uma forte vira-volta, o Sr Inglethorp est fora disso e ns 
encaramos um novo problema. Ns sabemos que uma pessoa com certeza no comprou o veneno. Ns 
nos livramos das evidncias fabricadas. Sabemos que algum da casa, com exceo da Sra Cavendish que 
jogava tnis com voc, se passou por Alfred Inglethorp na segunda  noite. Tambm sabemos que ele 
deixou o caf na sala por alguns minutos. Ningum falou sobre isso no inqurito, mas agora sabemos que 
isso tem um grande significado. Agora temos que descobrir quem levou o caf da Sra Inglethorp, e quem 
poderia ter passado pela sala durante aqueles minutos. Sabemos com certeza que duas pessoas no 
poderiam ter passado pelo caf: a Sra Cavendish e a Srta Cynthia.


-Sim,  verdade. - lembrei de meus pensamentos sobre Mary. Ela realmente no poderia estar sob 
suspeita como cheguei a pensar.


-Para livrar Alfred - continuou Poirot - eu tive de mostrar um pouco de meus mtodos. Isso fez com 
que o assassino levantasse a guarda, e agora teremos que ser muito mais cuidadosos. Diga- me uma 
coisa, Hastings: voc suspeita de algum?

        Hesitei. Para dizer a verdade, eu tinha uma leve suspeita que me ocorreu naquela manh, mas eu a 
achava absurda. Mesmo assim continuei.


-No sei se isso poderia ser chamado de suspeita, -  murmurei - pode ser absurdo.


- Diga logo, no enrole! No se esquea, sempre siga seus instintos!


- Eu penso que a Srta Howard no falou tudo o que sabe.


- A Srta Howard?


-Sim. Voc ir rir de mim...


-Claro que no por que deveria?

- Eu estive pensando: ns a deixamos de fora da lista de suspeitos s porque ela estava longe do 
lugar. Um carro poderia percorrer mais de 20 Km em meia hora! Sendo assim poderia se afirmar com 
certeza que ela no estava por perto na noite do assassinato?

-Sim meu amigo, - disse Poirot inesperadamente - ns podemos afirmar isso. Uma de minhas 
primeiras providncias foi conseguir informao no hosp ital onde a Srta Howard trabalha.


- E?...





















- Bem, eu descobri que a Srta Howard trabalhou a tarde toda, e se ofereceu para auxiliar no turno da noite, 
o que foi aceito. Ento sabemos com certeza onde ela estava.

- Ah. Mas na verdade o que me fez suspeitar dela foi sua teimosia em acusar Alfred. E eu tambm 
tive a idia de que ela poderia saber algo sobre a destruio do testamento. Ela poderia ter destrudo o novo 
pensando que fosse o antigo, o qual beneficiava Alfred Inglethorp.


- Voc considera toda essa raiva uma coisa no natural?

-Sim. Ela est muito raivosa, e acho que ela deve ter uma forte razo para isso. Talvez seja neurtica.

-No, no, voc est no caminho errado. Ela  nervosa de natureza, e est completamente sana.

-Sua raiva pelo Sr Inglethorp pode ser mania. Minha idia - muito ridcula,  que ela pretendia 
envenen- lo, e a Sra Inglethorp entrou nessa por engano. Mas com certeza isso tudo  absurdo.

- Mas voc pode estar certo em algo. Todas as pessoas so suspeitas at que se prove o contrrio, 
sendo assim a Srta Howard no poderia ter alguma razo para envenenar a Sra Inglethorp?


-Por qu? Ela era uma pessoa muito devotada!

-Seus argumentos no batem uma criana. Se a Srta Howard foi mesmo capaz de envenenar a sra 
Inglethorp, seria plenamente capaz de simular sua devoo. Agora, meu amigo, precisamos olhar para 
todas as direes. Voc est certo ao afirmar que sua raiva por Alfred foge um pouco do normal, mas voc 
est plenamente errado na deduo a que chegou a partir disso. Eu tirei minhas prprias concluses disso, 
mas no falarei nada por enquanto. mas de um jeito ou de outro, h uma coisa que conta a favor da Srta 
howard.


-O qu?


        O fato de que a morte da Sra inglethorp no a beneficiava em nada. No h um assassino sem motivo 
como no h um rebelde sem causa.


        Refleti.


-ela no poderia ter feito um testamento em favor da Srta howard?


-No.

























- Mas voc mesmo sugeriu essa possibilidade para o Sr Wells!


        Poirot sorriu.

-Fiz isso por uma outra razo. No vou mencionar o nome da pessoa na qual estou pensando, mas a 
srta Howard ocupava mais ou menos a mesma posio; ento usei o seu nome como num emprstimo.


- Mesmo assim, aquele testamento feito naquela tarde...


        Poirot balanou a cabea negativamente de uma forma to enrgica, que eu parei de falar.


-No, meu amigo. Tenho certas idias sobre aquele testamento, e uma coisa posso dizer com 
certeza: ele no beneficiava a Srta Howard.


Aceitei sua sugesto, embora no conseguisse ver como ele poderia estar to certo disso.


-bem, - eu disse - o que me levou a suspeitar da srta howard foram seus comentrios sobre os 
depoimentos no inqurito.


        Poirot observou-me.


-O que eu disse sobre eles?


-No lembra? Quando eu citei John e ela como suspeitos.


- Ah, sim. Ele parecia um pouco confuso, mas depois conseguiu se acertar. A
propsito: voc poderia me fazer um favor, Hastings?


-Claro. O que ?

-Na prxima vez que voc estiver sozinho com Lawrence, eu gostaria que voc dissesse o seguinte: 
"Poirot mandou uma mensagem para voc, ela diz: encontre a xcara extra, e voc poder descansar em 
paz!" Nada mais, nada menos.


- "Encontre a xcara extra de caf, e voc poder descansar em paz." Est correto?


- Excelente!


- Mas o que isso significa?

























- Bem, isso voc ter que descobrir sozinho. Voc tem acesso aos fatos, ento apenas diga isso a ele e 
veja o que ele diz.


- Tudo bem, mas tudo isso  extremamente misterioso.


        Chegamos a Tadmindster, e fomos direto para uma casa que  exibia no letreiro:
"Anlises Qumicas".


        Poirot entrou e em poucos minutos estava de volta.


-bem, - ele disse - isso  tudo que eu precisava fazer.


- Mas o que voc veio fazer aqui? - perguntei em vvida curiosidade.


- Trouxe algo para ser analisado.


- Eu sei, mas o qu?


- Uma amostra do cco que encontrei prximo  cama.

- Mas isso j foi analisado! O Dr Bauerstein j havia mandado analisar isso, e voc mesmo descartou 
a possibilidade de que o cco contivesse estricnina.


- Eu sei disso. - disse Poirot.


- Ento?...


- Bem, acho que deve ser analisado de novo, e ponto final.

        Este procedimento de Poirot deixou- me sem saber o que pensar. Ma de qualquer jeito eu tinha plena 
confiana nele, principalmente aps ter provado com tanta esperteza e competncia a inocncia do Sr 
Inglethorp.

        O funeral da Sra Inglethorp a conteceu no dia seguinte, e na segunda feira, quando eu descia para o 
caf da manh, John puxou- me pelo brao e disse que o Sr Inglethorp estava deixando a manso naquele 
dia, e iria ficar em Stylites Arms at ver o que iria fazer.


-  realmente um alvio saber que ele est indo embora, Hastings. - continuou John -
As coisas esto to ruins quanto antes enquanto ns pensvamos que ele era o culpado. Ns no nos 
sentimos bem com a sua presena depois de tudo o que pensamos e falamos sobre ele, o fato  que ns o 
tratamos terrivelmente mal. As coisas no estavam to pretas assim para o lado dele, e no sei como 
fomos capazes de chegar s concluses que chegamos. Sei





















que seria muito difcil nos redimirmos de tudo que fizemos contra ele, e a verdade  que eu estou muito feliz 
por ele ter decidido ir embora.  uma boa coisa notar que ele no est interessado no stio, no seria bom 
ter ele como nosso "chefe" aqui. Ele pode levar o dinheiro dela.


- Voc no vai manter o lugar? -  perguntei.

- Ah, sim. Tivemos gastos com a morte de minha me, mas muito do dinheiro de meu pai continua 
aqui, e Lawrence ficar conosco por enquanto. Ns devemos nos desequilibrar um pouco no incio, claro, 
pois como eu disse a voc tenho minhas dificuldades
financeiras. Mas de um jeito ou de outro meus negcios tero que esperar.


        Com a partida do Sr Inglethorp ns tivemos o melhor caf da manh desde a tragdia. Todos pareciam 
muito alegres, inclusive cynthia, que deixava transparecer seu esprito juvenil. N o entanto Lawrence era 
uma exceo e mantia- se nervoso, mesmo com a abertura de um novo e esperanoso futuro.

        Os jornais, claro, noticiavam a tragdia na primeira pgina; com uma pequena biografia de cada 
pessoa da casa e comentrios sobre as evidncia policiais. Nada parecia poupar-nos. A guerra tinha dado 
uma trgua, e os jornais comentavam com avidez o caso.
"O Misterioso Caso de Styles" era o tpico do momento.

        Naturalmente isso aborrecia muito os Cavendish que tinham sempre a casa rod eada de reprteres 
que, mesmo tendo sua permanncia negada, continuavam l com cmeras  espera de que os membros 
da casa sassem para que conseguissem fotos inditas. Todos ns vivamos no topo da publicidade. Os 
detetives da Scotland Yard iam e vinham, examinando, questionando, e conversando em seu prprio 
idioma. Mas para que eles estavam trabalhando, ns no sabamos. eles tinham alguma desconfiana ou o 
caso seria encaixado na categoria de crimes no resolvidos?

        Aps o caf Dorcas foi at meu  quarto e perguntou se poderia ter algumas palavrinhas comigo.


-Sim. O que ?


-Por acaso o senhor ver seu pequeno amigo Belga hoje?


-Sim.


- Bem, senhor, voc lembra como ele me perguntou de uma forma to particular se a
Sra inglethorp ou outra pessoa tinha um vestido verde?


-Sim, sim, voc encontrou algo verde? - perguntei muito interessado.

























-No, no  isso, senhor. Mas h uma grande caixa de vestidos velhos da Sra inglethorp no sto da frente, 
l pode haver um velho vestido verde entre outras roupas, ento ocorreu- me que talvez seria do interesse 
do seu amigo...


-Sim, sim, irei dizer a ele com certeza! - prometi.

- Muito obrigado, senhor. Ele  um homem muito gentil, muito diferente dos dois detetives de Londres 
que ficam rodando a casa e enchendo todos de perguntas. Pelo que eu vejo nos jornais, senhor, o servio 
de les pouco adianta. O seu amigo  com certeza muito mais inteligente e educado do que eles.


        Enquanto ela permanecia l parada eu pensei que fiel criada ela havia sido de sua senhora, at a hora 
em que ela partiu.

        Decidi ir at a casa de Poirot para contar a ele o que Dorcas me disse, mas o encontrei no meio do 
caminho. Imediatamente passei a mensagem a ele.

- Ah, a velha Dorcas! Ns iremos olhar esta caixa, apesar de - bem, no importa. Vamos olhar a 
caixa.

        Encontramos a ca ixa. Era na verdade um fino ba de madeira cuidadosamente entalhado, que 
parecia pertencer ou ter pertencido a algum de gosto refinado.

        Poirot comeou a jogar as coisas para fora. Encontrou uma ou duas peas verdes, mas elas pareciam 
no satisfaz- lo. Ele parecia descontente com a procura, quando de repente soltou uma exclamao.


-O que foi Poirot?


-Olhe s!

        O ba j estava praticamente vazio quando ele retirou de seu interior uma barba postia preta. 
Examinou- a com todo o cuidado.


-  nova! Com certeza  nova!

        Aps momentos de hesitao ele recolocou- a de volta no ba jogando todas as outras roupas por 
cima. Descemos rapidamente as escadas e fomos at a copa onde encontramos Dorcas.


        Poirot deu seu bom dia em tom glico e continuou:





















-Ns andamos aquela caixa, Dorcas, e eu estou muito agradecido por t-la mencionado. H, com certeza, 
uma fina coleo de roupas l. Elas por acaso so usadas freqentemente?

- Bem senhor, no muito freqentemente devo dizer, apenas nas noites em que ns nos divertamos 
com brincadeiras e bobagens. O Sr Lawrence freqentemente vestia- se como prncipe da Prsia, com uma 
longa faca de papelo na mo, e freqentemente fingia que a srta Cynthia era a princesa e que estava 
sendo ameaada. Ela se vestia de tal forma que era difcil reconhec-la.

- Aquelas noites deveriam ser muito divertidas. Suponho que o Sr lawrence usava aquela barba escura 
enquanto representava.

- Ah, sim, senhor. O sr Lawrence sempre nos fazia rir muito, e freqentemente a Srta Cynthia 
tambm. Uma vez ele vestiu- se como um velho rei, com uma barba que o tornava quase irreconhecvel; e a 
Srta Cynthia vestiu-se como uma escrava negra. Foi realmente uma noite muito divertida.




sala.
?

- Ento Dorcas no sabe sobre a barba. - disse Poirot enquanto nos dirigamos para a



- Voc acha que foi essa a barba usada na segunda?


-Sim. Voc notou que ela foi aparada?


-No.


      Ela foi cortada exatamente no formato da barba do Sr Inglethorp, e eu achei um ou dois fiapos 
comprovando que ela foi mesmo aparada. Hastings, esse acontecimento  muito mais profundo e complexo 
do que imaginamos.


- Mas quem poderia ter colocado a barba naquele ba?

-No sei, mas algum com uma tima inteligncia. Voc notou que aquelas roupas so usadas como 
fantasias? Sendo assim aquela barba no poderia levantar grandes suspeitas se fosse encontrada l. Mas 
no se espante; a pessoa  inteligente, mas ns tambm somos. Ns devemos ser to inteligentes ao 
ponto de ele no suspeitar de nossa inteligncia.


        Eu concordei.


- Agora, mon ami, voc ser de grande ajuda para mim.


        Eu fiquei satisfeito. Notava que Poirot pela primeira vez reconhecia meu valor.

























-Sim, - ele continuou -  voc me ser indispensvel.


        Estas palavras eram gratificantes, mas sua prximas palavras no foram to bem vindas:


- Eu preciso de um aliado na casa. - ele observou.


- Voc tem a mim! -  protestei.


- Verdade, mas voc no  suficiente.


        Eu estava triste, e demonstrei isso. Poirot apressou-se em se explicar.


- Voc no entendeu o que eu quis dizer, meu amigo. Voc est conhecido por trabalhar comigo, o 
que eu preciso  de algum que seja desligado de mim e de voc.


- Ah, sim. Que tal John?


-No, acho que no.


- Voc no parece ter muitas opes. - disse a Poirot.


- Acho que devemos tentar a Srta Howard. Eu estou em sua lista negra por ter livrado a pele de Alfred, 
mas mesmo assim vamos tentar.


        A Srta Howard concordou em conversar com Poirot por alguns minutos.


        Entramos numa sala e Poirot fechou a porta.


- Bem, Sr Poirot, - disse a Srta Howard impaciente - o que ? Eu estou muito ocupada.


- Voc se lembra, mademoiselle, quando eu pedia sua ajuda?


-Sim, eu disse que o ajudaria com prazer a pegar Alfred Inglethorp.


- Ah! - Poirot estudou-a cuidadosamente -  Srta Howard, peo a voc para encarar este problema 
verdadeiramente.


- Eu nunca menti. - replicou ela.


- Voc continua acreditando que a Sra Inglethorp foi assassinada pelo seu marido?





















-O que voc quer dizer? No pense que suas explicaes baratas me convenceram do contrrio; pode at 
ser que ele no tenha comprado a estricnina na farmcia, mas ele tinha arsnico.


- Arsnico no  estricnina. - disse Poirot.


-O que importa? Arsnico poderia derrubar Emily como estricnina. Se eu estou convencida de que ele 
fez isso, ele fez. No importa como.

- Exatamente. - disse Poirot - Se voc realmente est convencida de que ele fez isso, vou colocar 
minha pergunta de  uma outra forma: voc realmente acredita de corao que o Sr Inglethorp envenenou 
sua esposa?

- Deus do cu! - exclamou a Srta Howard - Eu no tenho dito a voc que o homem  um vilo? No 
tenho dito que ele a iria matar em sua prpria cama? Eu no o odiei sempre como se ele fosse um veneno?


- Exatamente. - disse Poirot - Isso ilustra ento a minha pequena idia.


-Que pequena idia?

-Srta Howard, voc lembra da conversa no dia em que meu amigo chegou aqui? Ele a repetiu para 
mim, e uma de suas sentenas me deixou muito impressionado. Voc lembra de ter dito que se algum 
que voc amasse fosse assassinado voc saberia por instinto quem era o criminoso, mesmo que no 
tivesse como provar isso?


-Sim, lembro. Suponho que o Sr pense que isso  uma loucura.


- De jeito nenhum.


- E mesmo assim voc no deu ateno para meu instinto contra Alfred Inglethorp?


-No. - disse Poirot secamente -  Porque seu instinto no  contra o Sr Inglethorp.


-O qu?


- Voc quer acreditar que ele cometeu o crime. Voc acha que ele  capaz de ter cometido o crime. 
Mas seu instinto diz que ele no fez isso. E diz mais, devo continuar?


        Ela o observava assustada, e fez um sinal para que ele continuasse.





















- Devo dizer por que voc  to veemente contra o Sr Inglethorp?  porque voc quer acreditar no que voc 
acha que deve acreditar. No entanto voc est fugindo de seu instinto, que indica um outro nome...

-No, no, no! - gritou a Srta Howard - No diga isso! Oh, no diga isso. No  verdade, no pode ser 
verdade! Eu no sei como uma idia louca como essa veio parar na minha cabea!


- Eu estou certo, no estou? - perguntou Poirot.

-Sim, sim; voc deve ser um  bruxo para ter adivinhado isso! Mas isso  muito monstruoso; 
impossvel! Tem que ser Alfred Inglethorp!


        Poirot balanou a cabea negativamente.

-No me pergunte nada sobre isso, - continuou a Srta Howard - porque eu no direi nada. Eu devo 
estar ficando louca para pensar numa coisa dessas.


        Poirot concordou como se estivesse satisfeito.


- Eu no vou pedir nada. Isso  suficiente para mim. Eu tambm tenho um instinto, e ns estamos 
trabalhando juntos para chegarmos em um fim harmnico.


-No me pea para ajud- lo, porque eu no vou. Eu no vou mover um dedo para... para...  - ela 
gaguejou.

-No peo nada a voc, mas voc ter que ser minha aliada. Voc no est pronta para esclarecer- se 
por si prpria, ento peo para fazer a nica coisa que lhe peo.


- E o que ?


- Voc deve vigiar; Observar!


-Sim, mas isso eu fao sempre. Estou sempre vigiando e esperando que eu esteja errada.


-Se ns estivermos errados ningum ficar mais feliz do que eu, mas se ns estivermos certos? Se 
estivermos certos, Srta Howard, de que lado voc est?


- Eu no sei, eu no sei...


- Vamos em frente.





















-Isso poderia ser encoberto.


- Mas no deve ser encoberto.


- Mas Emily mesmo... - ela hesitou.


-Srta Howard, isso no requer nada de voc.


        Repentinamente ela levou as mos ao rosto.

-Sim, no foi Evelyn Howard quem falou. - ela levantou a cabea decididamente - Esta  Evelyn 
Howard! E ela est do lado da justia, custe o que custar! - aps estas palavras ela retirou-se firmemente 
da sala com a cabea erguida.


- L vai uma pessoa que tem o crebro to maravilhoso quanto um corao. - disse
Poirot aps ela ter sado.


        Eu no repliquei.


-Instinto  uma coisa assustadora, - disse Poirot - no pode ser explicado nem ignorado.


- Voc e a Srta Howard pareciam saber do que falavam, Poirot, mas voc no percebeu que eu estou 
no escuro?


- Verdade? Tanto assim, meu amigo?


-Sim. Clareie- me, por favor.


        Poirot estudou- me por alguns instantes, depois disse decididamente:


-No, meu amigo.


-Por que no?


- Dois  suficiente para um segredo.


- Bem, pelo visto voc quer manter os fatos longe de mim.


-No estou mantendo os fatos longe. Tudo o que eu sei voc sabe. Voc pode tirar suas prprias 
concluses disso,  hora de voc ter idias.


- Assim mesmo, seria interessante saber.

























        Poirot olhou para mim e mais uma vez balanou a cabea.


- Veja s, voc no tem instintos.


-O que voc exigia at agora era inteligncia!


-Os dois trabalham juntos. - disse Poirot enigmaticamente.


        O comentrio pareceu to irrelevante que eu nem perdi tempo para replicar. Decidi que se descobrisse 
algo no contaria a Poirot at que chegasse ao resultado final.


        Era hora de cada um investigar por si mesmo.




9





Dr Bauerstein




        At o momento eu no tinha tido a oportunidade de dar o recado de Poirot para Lawrence. Desci as 
escadas e fui at o ptio, onde avistei Lawrence ocupado em algumas tarefas. Pareceu- me uma boa 
oportunidade para lanar o enigma. Na verdade eu no fazia idia de seu significado e no fazia sequer 
idia do que Lawrence iria responder, mas mesmo assim cumpri a tarefa da qual era encarregado. Animei- 
me ao pensar que talvez sua resposta pudesse me esclarecer em algo. me aproximei vagarosamente.


- Lawrence?


-Sim? Oh, ol, Hastings! - disse ele observando- me.


- Eu tenho uma mensagem para voc. De Poirot.


- ?


- Ele me disse para esperar que ns estivssemos sozinhos. - disse eu baixando a foz e fitando-o 
com o intuito de criar uma atmosfera.


- Bem?

























        No houve nenhum tipo de mudana em seu semblante. ser que ele realmente no fazia idia do que 
eu estava para dizer?




paz".
?

- Essa  a mensagem: "Encontre a xcara de caf extra e voc poder descansar em



- Mas que Diabos isso significa? - disse Lawrence mantendo-se inabalvel.


- Voc no sabe?


-Nem fao idia. E voc?


        Com um sinal respondi que no.


-Que xcara extra de caf  essa?


- Eu no sei.

-Seria melhor ele perguntar a Dorcas se ele quer saber de xcaras de caf, esse  o trabalho dela e 
no o meu. Eu no sei nada sobre xcaras de caf, exceto que n s temos umas de porcelana chinesa, 
conhecidas como Worcester, que so muito raras e valiosas. Voc conhece algo sobre porcelana chinesa, 
Hastings?


-No.


-Que pena. So realmente maravilhosas, voc se encantaria apenas de olhar para elas.


- Bem, o que eu digo para Poirot?


- Diga que eu no sei sobre o que ele est falando, isso parece Grego para mim.


- Tudo bem.


        Eu me dirigia de volta  casa quando ele me chamou.


- Hastings, pode repetir a mensagem de novo?


- "Encontre a xcara de caf extra e voc poder descansar em paz". Tem certeza que no sabe o que 
isso significa?


-No, no sei. Mas gostaria de saber.





















        Ouvimos o chamado para o lanche e nos dirigimos para a casa. Poirot havia sido convidado por John 
para ficar para o caf, e j estava sentado  mesa.


        Todos os comentrios sobre a tragdia haviam sido deixados de lado, falvamos sobre a gue rra e 
outros tpicos. Mas aps o biscoito e o queijo terem sido servidos e Dorcas ter se retirado, Poirot 
repentinamente dirigiu-se  Sra cavendish.

-Perdoe- me, madame, por trazer de volta memrias tristes mas eu tive algumas pequenas idias - as 
famosas "pequenas idias de Poirot" - e gostaria de fazer- lhe uma ou duas perguntas.


-Para mim? Claro.

-Obrigado por ser compreensiva. O que eu quero lhe perguntar  o seguinte: voc disse que a porta 
entre o quarto da Sra Inglethorp e o quarto de Cynthia estava trancada, no?


-Certamente estava trancada, - disse Mary surpresa - eu havia dito isso no depoimento!


- Trancada?


        Ela olhou- o perplexa.


- Explico- me: voc tem certeza de que ela estava trancada e no apenas fechada?

- Ah, sim. Bem, eu no sei. Eu disse trancada porque ela estava provavelmente emperrada, e eu no 
conseguiria abri- la. Eu parti do pressuposto de que todas as portas haviam sido encontradas trancadas por 
dentro.


- Ento, pelo que eu entendi, a porta poderia estar apenas fechada?


- Bem, acho que sim.

- Voc no chegou a perceber, quando entrou no quarto da Sra Inglethorp, se a porta estava trancada 
ou no?


- Bem, eu acho que estava.


- Mas voc no checou isso?


-No. Eu nunca prestei ateno naquela porta.





















- Mas eu sim, - interrompeu Lawrence - e posso afirmar que ela estava trancada.


- Bem, ento isso sela o assunto. - disse Poirot aborrecido.


Eu no iria ajudar comentando isso, mas umas de suas pequenas idias haviam falhado.


        Aps o lanche Poirot convidou- me para acompanh - lo at sua casa.


- Voc est aborrecido, no? - perguntou- me ele ansioso enquanto passvamos pela garagem dos 
carros.


-No muito. - eu respondi como se nem me importasse com o assunto.


-Que bom, isso tira uma grande carga de minhas costas.

        Eu esperava que ele notasse que eu estava ansioso e me contasse algo, mas isso no aconteceu. 
No quis dar o brao a torcer e no perguntei nada.


- Eu passei a mensagem para Lawrence. -  eu disse.


- E o que ele disse? Ele pareceu confuso?


-No. Eu tenho plena certeza de que ele no sabia do que voc estava falando.

        Eu esperava um desapontamento por parte de Poirot mas, para minha surpresa, isso era realmente o 
que ele esperava ouvir, e estava muito satisfeito. Meu orgulho impediu- me de fazer qualquer pergunta sobre 
isso.


        Poirot puxou outro assunto.


- A Srta Cynthia no estava no lanche hoje, onde ela estava?


- Ela est no hospital novamente. Retomou as atividades hoje.


- Ah, ela  uma menina muito trabalhadora, e bonita tambm.  como os quadros que vi na Itlia. Eu 
gostaria de conhecer o almoxarifado onde ela trabalha, ser que ela se incomodaria em mostr- lo para 
mim?


- Tenho certeza de que ela adoraria a sua visita.  um lugarzinho muito interessante.


- Ela est l todos os dias?





















- Tem folga s quartas, e aos sbados vem para o lanche. So seus nicos momentos de folga.


- Vou lembrar disso. As mulheres esto trabalhando muito hoje em dia, e conseguindo cargos de 
confiana. Cynthia  um exemplo disso, e isso se deve ao fato de ela ter uma boa cabea.


-Sim, tenho certeza de que ela passaria muito fcil por um teste rijo.


-Sem dvida. Apesar de contas,  um trabalho que requer muita responsabilidade. Suponho que 
existam muitos venenos poderosos l, no?

-Sim. Ela mostrou- os para ns. Eles permanecem trancados dentro de um pequeno armrio. 
\\acredito que elas sejam muito cuidadosas quanto a isso. Elas sempre o trancam e levam a chave antes 
de deixarem a sala.


- E este armrio fica prximo a janela?


-No. Fica do outro lado da sala, por qu?


-Poirot passou a mo nos cabelos.


- Apenas curiosidade, mais nada. Voc vai entrar?


        Ns havamos chegado na casa onde Poirot estava.


-No, vou voltar. Tenho um longo caminho atravs do campo.

        O caminho arborizado ao redor do stio era realmente bonito. Aps passar pelo parque encontrava- se 
um campo aberto de onde se podia avistar muitos pssaros que voavam alegremente, mesmo com o vento 
um pouco forte. Caminhei at me deparar com uma grande rvore, e ao observ- la me desliguei de todos 
os fatos reais e problemas. Estava meio  natureza. Depois voltei a mim. Pensei sobre o crime e meus 
pensamentos comearam a criar asas. Acordei novamente.


        Pensei que isso no havia acontecido. Claro! Tudo no passava de um sonho! Na verdade foi 
Lawrence que assassinou Alfred Inglethorp, mas isso era um absurdo para john. Palavras voavam em meu 
sonho: "Eu no vou tolerar isso".


      Acordei assustado.





















        Percebi que estava num mal lugar, pois a uns 4 ou 5 metros de mim John e Mary discutiam. Antes 
que eu pudesse dizer algo John repetiu as palavras que voaram em meus sonhos.


- Eu estou dizendo, Mary. Eu no vou tolerar isso!


        A voz de Mary veio fria e direta:


- Voc acha que tem algum direito de criticar minhas aes?

-Isso vai ser o comentrio da vila! Minha me foi cremada no sbado e voc j est saindo para 
passear por a com um amigo?


- Ah, ento so apenas os mexericos que lhe preocupam?

-Isso no  tudo. Eu j tive o suficiente para desconfiar dele. Ele  um Polons Judeu, de qualquer 
forma.


- Um pouco de sangue Judeu no  uma m coisa. Ele fermenta a tremenda estupidez
Inglesa.

        Fogo em seus olhos, gelo em sua voz. Percebi que o sangue de John estava  flor da pele.


- Mary!


- Bem? - seu tom no alterou- se.


        A voz de John tornou- se autoritria.

- Devo entender ento que voc continuar vendo o Dr Bauerstein mesmo sem meu consentimento?


-Se eu quiser...


- Voc est me desafiando?

-No, mas voc no tem o direito de criticar minhas aes. Voc no tem nenhum amigo que eu 
deveria desaprovar?


        John deu um passo para trs. Seu rosto perdia a cor vagarosamente.





















-O que voc quer dizer? - ele disse numa voz trmula.

-Quero dizer que voc no tem direito algum de querer escolher os amigos para mim. Muito menos de 
criticar os meus amigos!


        John aproximou-se dela, seu rosto ganhava uma expresso indagadora.


-No tenho direito? Eu no tenho direito, Mary? - ele levou as mo  cabea - Mary...


        Por um momento ele desvaneceu, ma s logo voltou a si.


-No, de jeito nenhum!


        Ela j distanciava- se quando John a alcanou e a reteu pelo brao.

- Mary, - sua voz agora tinha um tom seguro - por acaso voc est se apaixonando pelo seu amigo 
Bauerstein?

        Ela hesitou, e repentinamente uma estranha expresso cruzou sua face. Uma expresso que 
lembrava uma esfinge Egpcia.


        Ela olhou para trs sobre seus ombros:


-Quem sabe. - ela disse, depois afastou-se e deixou John plantado no luga r como uma pedra.

        Segui adiante, e fiz certo barulho ao pisar em alguns galhos secos. John, para meu alvio, pensou que 
eu tinha acabado de chegar, e saudou- me.

-Ol, Hastings. Levou seu amigo so e salvo para casa?  um timo sujeito, e  acho que um 
competente profissional.


-Sim, ele  considerado um dos mais competentes detetives da atualidade.


- Bem, ento ele deve gostar muito disso, pois eu acho um mundo detestvel.


- Voc acha isso?

- Ah, sim! Pense em pessoas como ns, que temos homens da Scotland Yard entrando e saindo de 
nossas casas como se vivesses l. E pense em como uma famlia estar na boca do povo, como todo 
mundo ficar comentando sobre esse acontecimento e fazendo suposies ridculas sobre quem seria o 
assassino. Isso nos marcar, Hastings.





















- Anime- se, meu amigo, - disse eu tentando confort- lo - dias melhores viro.

-Ser, Hastings? Parece um longo e doloroso caminho a ser trilhado at que consigamos levantar 
nossas cabeas novamente.


-No, no, voc est sendo pessimista.

-  suficientemente aborrecedor para um homem ser observado, julgado, e perseguido por jornalistas 
idiotas que na verdade querem vender jornal usando o seu nome. Voc j pensou, Hastings, que isso tem 
sido um verdadeiro pesadelo para mim? No ajudar ia a iluso de que tudo tenha sido um acidente, mas 
quem teria feito isso? No sei em que acreditar. Agora Alfred est longe, e ningum mais teria razo para 
fazer isso exceto um de ns.


        Realmente isto era um pesadelo para qualquer homem. Sim, realmente s poderia ser um de ns, 
mas quem? A no ser...

        Uma nova idia surgiu em minha mente. Pelo mistrio feito por Poirot em revelar o que pensava, 
deveria ser uma coisa que fugia um pouco  lgica. Minha idia se classificava exatamente assim,  e eu me 
perguntei por que no havia pensado nisso antes. Seria um alvio para todos ns.


-No, John, -  eu disse - talvez no seja um de ns. Quem poderia ser?


-No sei, mas quem estava l?


- Voc no adivinha?


        Olhei cuidadosamente para os lados, e baixei minha voz:


-O Dr Bauerstein! - sussurrei.


-Impossvel!


-Nem tanto.


- Mas em que ele seria beneficiado com a morte de minha me?


-Isso eu no sei, - confessei - mas vou lhe dizer uma coisa: Poirot tambm pensa assim!


-Poirot? Ele pensa assim? Mas o que ele sabe?





















        Eu contei a ele da surpresa de Poirot ao ouvir que o Dr Bauerstein havia estado na manso naquela 
noite, e disse:


- Ele disse duas vezes: "Isso muda tudo!", e eu estive pensando. Voc sabe que Alfred disse ter 
deixado o caf na sala? Bem, isso foi quando o Dr Bauerstein chegou. No seria possvel que o Dr 
Bauerstein, ao passar pela sala, deixasse cair algo dentro do caf?


- Bem, - disse John - isso seria muito arriscado.


-Sim, mas  possvel.


- Mas como ele iria saber que aquele caf era dela? No, meu amigo, essa  uma idia muito 
absurda.


        Mas eu lembrei de algo.

-Sim,  voc est certo. No foi assim que tudo foi feito. Oua. - ento contei a ele sobre a amostra do 
cco que Poirot havia mandado analisar.


        John interrompeu assim que acabei de falar.


- Mas o Dr Bauerstein j no havia analisado um amostra?

-Sim, sim, esta  a questo. Se o Dr Bauerstein  mesmo o assassino, no teria problema algum em 
substituir uma amostra por outra, e assim no seria encontrada estricnina alguma na amostra! Mas 
ningum iria suspeitar do Dr Bauerstein nem retirar outra amostra, a no ser Poirot.


-Sim, mas o gosto do veneno no seria reconhecido?

- Bem, por enquanto  s o que eu tenho a dizer. Mas existem muitas outras possibilidades, e o Dr 
bauerstein  realmente um grande toxicologista.


-  realmente um grande o qu?


- Ele conhece mais sobre venenos do que qualquer um, - expliquei - ento no teria grande dificuldade 
para ocultar o gosto caracterstico da estricnina. Ou talvez ele tenha usado outra droga no to identificvel, 
mas q ue tivesse efeito similar.


- Bem, poderia ser. - disse John - Mas como ele poderia ter colocado isso no cco? Ele no subiu as 
escadas!


-Sim, isso  verdade. - admiti.

























        Repentinamente uma outra possibilidade ocorreu em minha mente. Rezei para que no ocorresse o 
mesmo a John. Para meu alvio John permanecia pensativo, e isso garantia que ele no pensou nisso: o Dr 
Bauerstein tem um cmplice.

        Mas com certeza no poderia ser! Uma mulher to bonita quanto Mary no seria uma assassina, mas 
de qualquer forma uma mulher to bonita quanto Mary saberia envenenar...

        E repentinamente lembrei da conversa na hora do ch no dia em que cheguei, e o brilho em seus 
olhos disseram-me que o veneno  a arma feminina. E quo agitada ela estava naquela fatal noite de tera! 
No teria a Sra Inglethorp descoberto algo entre ela e o Dr Bauerstein e ameaara contar a John? Foi para 
evitar essa denncia que o crime havia
sido cometido?


        Depois lembrei daquela conversa enigmtica entre Poirot e Evelyn Howard. Era isso o que eles 
queriam dizer? Seria essa a possibilidade na qual a Srta Howard negava - se a acreditar?


        Bem, pelo menos tudo isso encaixava.

 No me surpreendi da Srta Howard ter usado a palavra "encoberto". Tambm encaixava a sentena 
"Mas Emily mesmo..." Com certeza a Sra Inglethorp iria procurara encobrir tudo, pois no queria uma 
desonra to grande para os Cavendish.

- H uma outra coisa, -  disse John to de repente que me deixou preocupado - algo que me deixa em 
dvida se o que voc diz  verdade.


-O qu? - disse eu aliviado por ele ter esquecido de como o veneno havia sido introduzido no cco.

-Por que ento o fato de o Dr Bauerstein querer fazer a autpsia? O velho Dr Wilkins mesmo havia 
afirmado que teria sido um ataque do corao.

-Sim, - eu disse pensativamente - mas ns no sabemos. Talvez ele quis se prevenir. Talvez a coisa 
toda viria  tona posteriormente, e ele queria uma proteo. Ningum suspeitava de um homem respeitvel 
como ele, ainda mais porque teria sido ele mesmo quem realizou a autpsia. Um homem com sua 
reputao no iria acreditar facilmente em um ataque do corao.


-Sim, isso  possvel. - admitiu John -  Mesmo assim, no vejo qual o motivo que ele poderia ter.


- Escute, - disse eu - eu posso estar enganado, ento mantenha isso em segredo.

























- Ah, sim, no se preocupe.


        Quando entramos no porto do jardim ouvimos o chamado para o ch, que seria embaixo da mesma 
rvore em que tomamos ch no dia de minha chegada.


        Cynthia j havia voltado do hospital. Me sentei ao seu lado e contei a ela das pretenses de Poirot de 
visitar seu trabalho.

-Claro! Eu adoraria receber a visita dele. Ele pode ir na hora do ch, assim posso mostrar tudo a ele 
com calma. Ele  um homem muito engraado, outro dia ele tirou meu broche de identificao e o colocou 
de novo s porque ele estava um pouco torto.


        Soltei uma gargalhada.


- , ele  assim mesmo. Tem mania de perfeccionismo.


        Ficamos em silncio por algum tempo. Cynthia deu um certo olhar na direo de
Mary e disse:


-Sr Hastings.


-Sim?


- Depois do ch eu preciso falar com voc.

        O fato de ela ter olhado para Mary enquanto falava deixou- me pensativo. As duas davam- se bem. 
Pela primeira vez ocorreu- me sobre o futuro dela. A Sra Inglethorp no
havia feito provises para ela, mas com certeza John fazia questo de que ela continuasse morando com 
eles, pelo menos at que a guerra acabasse.


        John, que havia ido at o interior da casa, agora estava de volta. Seu rosto demonstrava uma no 
costumeira irritao.

- Aqueles detetives esto me irritando. No sei o que eles querem, s sei que ficam bisbilhotando em 
todas as partes da casa e virando de ponta cabea tudo o que vem pela frente. Da prxima vez que 
encontrar Japp vou falar com ele sobre isso.


- Monte de Paul Prys! - disse a Srta Howard.


        Lawrence disse que eles deveriam fazer alguma coisa. Mary no disse nada.





















        Aps o ch convidei Cynthia para um passeio, e nos dirigimos ao belo bosque de grandes rvores.


- E ento? - perguntei assim que entramos no bosque.

        Com um olhar, Cynthia sentou- se ao p de uma rvore e tirou o chapu. Os raios de sol que 
penetravam atravs dos galhos faziam seu cabelo brilhar como ouro.

-Sr Hastings, voc  sempre to ponderado, e sabe das coisas. Acho que o Sr pode me ajudar.


        Percebi que Cynthia, alm de bonita, era muito meiga e agradvel. Muito mais do que
Mary.


-O que foi? - perguntei delicadamente, enquanto ela hesitava.


-Preciso de um conselho seu. O que eu devo fazer?


-Fazer?

-Sim. A tia Emily sempre me disse que iria deixar algo para mim. Eu suponho que ela tenha 
esquecido, ou no pensou que um dia ela iria morrer. Eu no sei o que fazer, voc acha que eu devo ir 
embora de uma vez?


- De jeito nenhum! Tenho certeza de que eles no querem que voc v embora.

        Cynthia hesitou um momento, passando os dedos vagarosamente sobre a grama. Depois disse:


- A Sra Cavendish quer. Ela me odeia.


-Odeia voc? - disse eu surpreso.


-Sim. Ela no me suporta, e ele tampouco.


-No, agora voc est errada. Eu sei que John adora voc.

- Ah, sim, John. Refiro- me a Lawrence. De qualquer forma,  horrvel voc viver num lugar onde as 
pessoas no gostam de voc.


- Mas eles gostam! - disse eu carinhosamente - Veja s John e a Srta Howard!





















-Sim, John gosta de mim, e a Srta Howard tambm. Mas Lawrence nunca conversou comigo sem que 
fosse estritamente necessrio, e Mary nunca foi muito simptica e nem mesmo educada comigo. Ela quer 
Evelyn para morar com eles, mas...  mas.... ela no me quer. Eu no sei mais o que fazer. - a pequena 
criana derreteu-se em lgrimas.

        Eu no sei o que tomou conta de mim. Talvez sua beleza realada pelos poucos raios de sol que a 
alcanavam, talvez seu jeito meigo e afetivo; abaixei- me, segurei sua mo, e disse carinhosamente:


-Case- se comigo, Cynthia.


        Eu havia dado um soberano remdio para suas lgrimas. Ela levantou- se, recolheu sua mo, e disse 
com certa aspereza:


-No seja bobo!


        Fiquei um pouco aborrecido.

- Eu no estou sendo bobo! Estou pedindo que voc me d a honra de se tornar minha esposa.

        Para minha surpresa Cynthia soltou uma gargalhada, e chamou- me de "amigo brincalho".


- Muito amvel de sua parte, - disse ela - mas voc sabe que no quer realmente isso!


-Sim, eu quero. eu tenho tentado...


-No importa o que voc tm tentado. Voc realmente no quer, e eu tambm no.

- Bem, ento isso sela o assunto. - disse eu formalmente - Mas eu no vejo nada para rir em uma 
simples proposta.


-Sim, sem dvida. - disse Cynthia - Numa outra oportunidade algum poder aceitar seu pedido. 
Tchau, voc animou- me muito.


        E, aps uma ltima gargalhada de divertimento, ela sumiu entre as rvores.


        Pensando sobre o passeio, cheguei ao resultado de que fora extremamemte insatisfatrio.


        Ocorreu- me que eu deveria descer at a vila e vigiar o Dr Bauerstein. Algum deveria manter o olho 
nele. No mesmo momento, lembrei que ele poderia perceber que estava





















sendo vigiado. Lembrei de algumas coisas que Poirot havia me dito, e decidi dar uma de Araponga e talvez 
pr tudo a perder. Dirigi- me  casa onde havia a placa "Quartos para alugar" e bati na porta.


        Uma velha senhora atendeu- me.


- Boa tarde, - disse eu - o Dr Bauerstein est?


        Ela olhou- me seriamente.


- Voc no soube?


- Do qu?


-Sobre ele.


-O que sobre ele?


- Ele foi levado.


- Levado? Ele morreu? - disse eu assustado.


-No, levado pela polcia.


-Pela polcia? - repeti surpreso - Voc quer dizer que ele foi preso?


-Sim,  isso, e...


        No esperei que ela terminasse a frase, parti  procura de Poirot.




10





A Deteno




        Para minha surpresa Poirot no estava em casa, e o velho Belga que me atendeu achava que ele 
tinha ido at Londres.





















        Eu estava confuso. Que Diabos estaria Poirot fazendo em Londres? Por que essa deciso to 
repentina de ir a Londres?

   Voltei lentamente para Styles. Com Poirot longe, eu no sabia o que fazer. Ser que foi ele quem 
comandou essa deteno? Em meio a um monte de idias lembrei- me de Mary. No teria sido um terrvel 
choque para ela? Momentaneamente eu havia deixado de lado minhas suspeitas contra ela.

        Claro que no teria lgica querer esconder o fato dela, pois todos os jornais deveriam anunciar 
pesadamente o assunto assim que soubessem. Mas de qualquer jeito Poirot no estava por perto, e eu no 
iria fazer nada sem pedir seus conselhos. Voltei a pensar no que teria levado Poirot at Londres; era um 
caminho longo e estafante.

        Poirot era mesmo um homem muito sagaz. Nunca na minha vida eu iria imaginar que Poirot 
suspeitasse do Dr bauerstein. Sim, decididame nte ele era um homem muito inteligente. Aps um pouco de 
reflexo, decidi contar tudo a John e deixar ele decidir se tornaria ou no o fato pblico.


        Ele ficou imensamente surpreso quando eu dei a notcia:


- Grande homem! Eu nunca iria imaginar uma coisa dessas: Poirot est de parabns!


- Agora que soubemos disso, todos os fatos parecem encaixar. Claro que amanh isso j ser de 
conhecimento pblico.


        John refletiu.


-No importa, - disse John finalmente - no devemos dizer nada por enquanto. No  necessrio, pois 
como voc disse, isso ser de conhecimento pblico amanh.

        Mas para minha imensa surpresa, no encontrei uma s palavra no jornal no dia seguinte. Havia uma 
pequena coluna intitulada "O Caso de Envenenamento de Styles", mas nada de novo ou sobre a deteno 
do Dr Bauerstein. Isso era muito estranho, mas supus
que por uma razo ou outra Japp havia mantido isso longe dos reprteres. Isso deixou-me um pouco 
ansioso, pois poderia significar que haveria mais prises.


        Aps o caf da manh, resolvi ir at a vila para ver se Poirot havia voltado; mas para minha surpresa, 
ele apareceu em uma das janelas e disse:


- Bon jour, mon ami!


-Poirot! - exclamei com profundo alvio. Fiz sinal para que ele entrasse - Nunca fiquei to contente em 
ver algum. S no falei sobre isso com John. Fiz bem?

























- Meu amigo, - replicou Poirot - sobre o que voc est falando?


- Da deteno do Dr Bauerstein,  claro.


- Ah, ento ele foi preso?


- Voc no sabia disso?


-Nem imaginava. -  mas, passado um momento, ele adicionou:


- Mas de qualquer forma isto no me surpreende. Apesar de tudo, ns estamos a apenas 7 Km da 
costa.


- Da costa? - perguntei, perplexo - O que isso tem a ver com o fato?


        Poirot passou a mo no cabelo.


-Com certeza isso  bvio.


-No para mim. Sei que sou muito desligado, mas para mim a distncia at;e a costa nada tem a ver 
com o assassinato da Sra Inglethorp.


-Nada tem a ver, com certeza. - Poirot sorriu - Mas ns estamos falando da priso do
Dr Bauerstein.


- Bem, ele foi preso pelo assassinato da Sra Inglethorp...


-O qu? - disse Poirot surpreso - O Dr Bauerstein preso pelo assassinato da Sra
Inglethorp?


-Sim.


-Impossvel! Isso tudo  uma farsa! Quem disse isso a voc?


- Bem, ningum exatamente disse, - eu confessei - mas que ele foi preso, isso foi.


- Ah, sim, mas por espionagem.


- Espionagem?


-Isso mesmo, espionagem.





















-No por ter envenenado a Sra Inglethorp?


-No, a no ser que Japp tenha enlouquecido. -  disse Poirot seriamente.


- Mas eu achei que voc tambm pensava assim...


        Poirot olhou- me seriamente, no compreendendo como eu pude pensar uma coisa dessas.


- Voc quer dizer - disse eu tentando me adaptar  nova idia -  que o Dr Bauerstein  um espio?


        Poirot concordou.


- Voc nunca havia desconfiado dele?


- De maneira alguma!

- Voc nunca achou um pouco estranho que um mdico to renomado se embrenhasse numa 
cidadezinha dessas e andasse por a at tarde da noite?


-No, - confessei - na verdade eu nunca iria imaginar uma coisa dessas.

- Ele  alemo de nascimento, mas ele est no pas h um bom tempo, e ningum imaginava que ele 
fosse mais do que um simples cidado ingls. Na verdade ele  naturalizado h 15 anos.


- BlackGuard! - disse eu.

- De jeito nenhum. Ele , ao contrrio, um homem patriota que nada tinha a perder ao ajudar seu pas. 
Eu mesmo o admiro.


        Mas eu no pensava da mesma forma que Poirot.

- E esse  o homem com o quem a Sra Cavendish desfilava por toda a cidade. - comentei.

-Sim. Devo dizer que ele a usava. A no ser o fato de ele se preocupar em manter seus nomes juntos, 
tudo era perfeitamente normal.


- Ento ele nunca esteve interessado nela?


-Com certeza eu no sei, mas posso dar a voc minha opinio particular?

























-Com certeza.


- Bem, a Sra Cavendish no est e nunca esteve interessada no Dr Bauerstein!


-Ser mesmo?


- Tenho certeza disso, e vou lhe dizer porque: ela est interessada em uma outra pessoa, mon ami.

        O que ser que ele quis dizer? Um agressivo calor percorreu meu corpo. Eu no era um homem 
daqueles pelos quais as mulheres se apaixonavam assim fcil, nunca foi assim. Com certa relutncia 
surgiram- me lembranas de algumas situaes das mais diversas, e que envolviam as mais diversas 
pessoas. Tudo parecia indicar...

        Meus pensamentos foram instantneamente interrompidos pela sbita entrada da Srta Howard. Ela 
olhou rapidamente ao redor para certificar- se de que ningum mais estava na sala, aps isso retirou um 
velho pedao de papel do bolso e passou-o a Poirot, murmurando:


- Em cima do guarda-roupas. -  ela deixou a sala com a mesma pressa com a qual chegou.


        Poirot pacientemente desdobrou o papel e soltou uma exclamao.


- Venha c, Hastings, isso aqui  uma inicial "J" ou "L"?


        Era um pedao de papel mdio, surrado como se estivesse estado perdido por muito tempo. No topo 
vinha o endereo: "(a inicial indecifrada) Cavendish, stio Styles, Styles St. Mary, Essex."


-Isto pode ser um "T" ou um "L", mas com certeza no  um "J".


- Eu sou da mesma opinio. - disse Poirot -  com certeza um "L".


- De onde isso veio? - perguntei em vvida curiosidade - Isso  importante?

-Nem tanto. Isso apenas confirma uma pequena suspeita mi nha. Desconfiava de que isso existia, 
ento pedi para a Srta Howard procurar por isso, e aqui est!


-O que ela quis dizer com "em cima do guarda- roupas"?


-Ora! Foi onde ela encontrou isso.

























- Um lugar esquisito para se guardar cartas. - comentei.


-Nem tanto. Um timo lugar para se guardar cartas e caixas de papelo. Eu guardo as minhas l. 
Perfeitamente arrumadas, no so capazes de degradar o ambiente.


-Poirot, - perguntei -  voc tem pensado muito sobre o crime?


-Sim. Para dizer a verdade, acho que sei como ele foi cometido.


- Muito bem!

-Infelizmente eu no tinha nada para provar minha teoria, at que...- subitamente ele agarrou-me pelo 
brao e me arrastou escada abaixo. Ele comeou a chamar Dorcas desesperadamente.


        Dorcas, muito assustada, veio correndo.


- Minha querida Dorcas, eu tenho uma leve suspeita e gostaria que voc a confirmasse:
por acaso ocorreu algo de errado com o sino da Sra Inglethorp na segunda feira - no tera
- antes da tragdia?


        Dorcas olhou- o muito surpresa.

-Sim senhor, agora que mencionou, realmente aconteceu algo de errado; um rato ou outro animal deve 
ter rodo o pndulo do sino, mas na tera de manh um homem veio e o consertou.


        Com uma expresso de satisfao, Poirot arrastou- me de volta escada acima.

- Veja s, eu no preciso mais de provas externas, pois isso deve ser suficiente. Mas como eu quero 
provas mais conc retas, isso servir apenas de consolo ao indicar que estamos no caminho certo. Ah, meu 
amigo, me sinto como se tirasse um grande peso de minhas costas!


        Aps dizer isso Poirot saiu pulando e cantarolando pela grande janela francesa.

-O que  o seu notvel amigo est fazendo? -  perguntou uma voz s minhas costas, virei- me e dei de 
cara com Mary Cavendish - Isso tudo por causa de qu?

-Na verdade eu no sei. Ele fez uma pergunta a Dorcas sobre um sino, assim que recebeu a resposta 
ficou to feliz quanto uma criana que ganha um brinquedo novo.





















        Mary sorriu.


-Que ridculo! Ele j est saindo pelo porto. Ele volta hoje aqui?


-No sei. s vezes eu penso que ele est louco, mas tempos depois descubro que  o seu mtodo de 
descobrir as coisas.


        No contando a sua risada, Mary parecia pensativa durante toda a manh. Ela parecia sria ou triste, 
no sei dizer ao certo.

        Ocorreu- me que deveria ser uma boa oportunidade para falar sobre Cynthia. Comecei a preparar o 
terreno taticamente, e toquei no assunto. Ela autorativamente cortou a conversa.


- Voc  um excelente advogado, no tenho dvidas, Sr Hastings, mas nesse caso sua interveno  
dispensvel. No tenho qualquer tipo de antipatia por Cynthia.

        Comecei vagarosamente a dizer que ela no pensava dessa forma, mas novamente fui interrompido. 
Suas palavras foram to inesperadas que fizeram eu esquecer de Cynthia e seus problemas.


-Sr Hastings, - ela disse - voc acha que eu e meu marido somos felizes juntos?


        Eu estava um tanto surpreso, e respondi que esse assunto nunca tinha passado pela minha cabea.

- Bem, - disse ela calmamente - tendo ou no voc pensado nisso eu lhe digo que no somos felizes 
juntos.


        No disse nada, pois sabia que ela ainda no havia terminado.


        Ela caminhava nervosamente de um lado a outro da sala, e seu semblante mudava conforme ela 
caminhava. Ela parou bruscamente e olhou para mim.

- Voc no sabe de nada sobre mim. No sabe de onde vim, como eu era antes de me casar com 
John, nada. Bem, eu vou dizer a voc. Vou fazer de voc meu confidente.

        Mas de qualquer forma eu no estava to feliz quanto deveria estar por algum estar confiando em 
mim, lembrei que Cynthia iniciou suas confidncias da mesma forma. Acho que eu era ainda muito jovem 
para ser uma espcie de conselheiro.


- Meu pai era ingls, - ela disse - mas minha me era russa.





















- Ah, - disse eu - agora eu entendo.


- Entende o qu?


-  que sempre tive a impresso de que voc tinha algo diferente.


- Minha me era muito bonita, eu acho. Eu no sei, porque eu nunca cheguei a
conhec- la. Ela morreu quando eu era apenas uma criana. A morte dela foi realmente uma tragdia, ela 
morreu acidentalmente por tomar uma dose a mais de um medicamento para dormir. Meu pai sofria do 
corao. Pouco depois de sua  morte ele foi trabalhar no servio diplomtico, e ns viajvamos muito. Fui 
com ele para toda a parte, e conheci muita coisa. Aos 23 anos eu j conhecia praticamente o mundo todo, 
a minha vida era realmente muito excitante.


        Ela tinha um sorriso no rosto. Parecia reviver os bons e velhos tempos.

- Ento meu pai morreu e eu tive que ir morar com uma tia em Yorkshire. Ento eu morri. Minha vida 
era montona, e eu estava ficando enlouquecida. -  ela parou por um instante, depois adicionou em um tom 
de voz diferente - Ento encontrei John Cavendish. Minha tia achava que seria bom para mim, mas no foi 
isso que me levou a ficar com ele. Ele era apenas uma fuga da monotonia que era a minha vida.


        Eu permanecia calado. Ela continuou:

-No me entenda errado, por favor. Eu sempre fui honesta com ele. Eu disse que gostava dele, mas 
que no estava apaixonada. Ele declarou que isso o satisfazia, e ento ns casamos.


        Ela calou- se por um longo tempo. Sua testa franziu- se e ela parecia estar relembrando os velhos 
tempos.


-No incio at que ele gostou de mim, mas ele enjoou muito cedo. Bem, mas isso no importa agora. 
No no ponto a que ns chegamos.


-O que voc quer dizer?


        Ela respondeu calmamente:


- Eu quero dizer que estou deixando Styles.


- Voc e John no vo morar aqui?


-John pode viver aqui, mas eu no devo.

























- Voc vai deix-lo?


-Sim.


- Mas por qu?


        Ela pensou por um longo tempo, depois disse:


-Porque... eu quero ser livre!

        Quando ela falou isso, passaram- se pela minha mente figuras de florestas verdejantes, lugares 
msticos, cidades movimentadas...  tudo que condizia com os pensamentos de uma mulher selvagem que 
havia sido domesticada, e que agora estava com saudades de sua liberdade. Um pequeno sussurro saiu de 
seus lbios:


- Voc nem imagina o quanto esse lugar odivel tem sido uma priso para mim.


- Eu entendo. - eu disse -  Mas voc no deve fazer nada precipitadamente.


-Oh, precipitao! - ela retrucou.


        Depois eu disse uma coisa que no deveria ter sado de minha boca.


- Voc sabe que o Dr Bauerstein foi preso?


        Uma frieza instantnea percorreu seu rosto, apagando qualquer outra expresso.


-John teve a considerao de me contar essa manh.


- Bem, e o que voc acha?


- Do qu?


- De priso!


-O que eu deveria achar? Aparentemente ele  um espio alemo, pelo menos foi o que o jardineiro 
disse a John.


        Sua face e sua voz eram absolutamente frias e sem expresso. Ela importava-se ou no?


        Ela aproximou- se de um vaso de flor, e tocou- o com o dedo.

























- Elas esto mortas. Com licena Sr Hastings, vou troc- las. - ela saiu carregando o vaso. Seu rosto 
mantinha uma expresso de desengano.


        No, com toda a certeza ela no importava- se com o Dr Bauerstein. Nenhuma mulher representaria 
to bem um teatro desses.


        Poirot no apareceu na manh seguinte, e no havia sinal em parte alguma do homem da Scotland 
Yard.


        Mas, na hora do lanche, uma nova evidncia (ou desevidncia) surpreendeu- nos. Ns tnhamos 
tentado, em vo, descobrir para quem teria sido endereada a 4 carta que a Sra Inglethorp havia escrito na 
manh que antecedia sua morte. Recebemos a resposta. Uma carta de uma empresa musical russa 
agradecia o esforo da Sra Inglethorp, mas dizia que ela no havia conseguido identificar canes 
folclricas russas entre outras. Foi- se pelos ares a ltima esperana de resolvermos o mistrio. A carta 
no continha nada que nos ajudasse.

        Antes do ch eu resolvi ir at a cidade para contar o fato a Poirot, e uma vez mais ele no se 
encontrava.


-Foi a Londres novamente?


-Oh, no, monsieur. - disse o velho Belga que me atendeu - Ele foi at Tadmindster visitar uma moa 
que trabalha em um almoxarifado.  o que sei.

- Mas eu disse a ele que s quartas feiras ela no estava l! Bem, diga - lhe para ir at a manso 
Styles amanh cedo, tudo bem?


-Certamente, monsieur.


        Mas no dia seguinte Poirot no apareceu. Eu j estava ficando furioso, pois ele estava nos tratando de 
um modo insensvel.


        Aps o lanche Lawrence chamou- me a um lado e perguntou se eu iria ver Poirot.


-No, acho que no devo. Ele pode vir at aqui se quiser nos ver.


- Ah, sim. - Lawrence parecia indeciso. Algo diferente em seu jeito atiou minha curiosidade.


- Mas do que se trata? - perguntei - Se for algo importante eu poderia ir.





















- Bem, no  muito. -  ele confidenciou - Se voc ir, diga a ele que eu encontrei a xcara de caf extra.


        Eu havia esquecido desta mensagem de Poirot, mas agora minha curiosidade havia voltado.


        Lawrence no precisou dizer mais nada. Decidi ir at a cidade e vasculh- la  procura de Poirot.


        Desta vez ele estava em casa. Estava sentado  mesa com as mos no rosto como se estivesse para 
decidir algo.


-O que aconteceu? - perguntei - Voc est doente?


-No, no, meu amigo. Mas estou para tomar uma importante deciso.


-Como prender o criminoso ou no?


        Para minha surpresa Poirot concordou.


-Falar ou no falar, como Shakespeare dizia, "eis a questo".


-Fala srio, Poirot?


- To srio quanto todos os acontecimentos tristes que aconteceram.


- Diz respeito a qu?


- A felicidade de uma mulher, mon ami. - disse ele gravemente.


        Eu no sabia o que dizer.

-O momento est chegando, - disse Poirot -  e eu no sei o que fazer. Veja s, este  um grande 
desafio para ser vencido, e na hora de dar uma importante cartada eu, Hercule Poirot, estou indeciso! - ele 
voltou a envolver a face com as mos.


        Aps uma longa pausa, eu dei a ele a mensagem de Lawrence.


- Ah! Ento ele encontrou a xcara extra! Ele  um sujeito bem mais inteligente do que parece.


        No comentei nada com Poirot sobre a inteligncia de Lawrence. Perguntei a ele se ele havia 
esquecido que s quartas feiras Cynthia no estava no almoxarifado.

























-  verdade, eu esqueci. Mesmo assim a outra moa foi muito gentil, ela mostrou- me todo o departamento.


-Oh, bem, mesmo assim voc poder ir um outro dia para tomar um ch com ela.


        Eu contei a ele sobre a carta.

-Sinto por isso. - disse Poirot - Eu sempre tive a esperana de que aquela carta pudesse elucidar 
algo. - ele apontou para a prpria cabea com o dedo - Estas pequenas
celulazinhas cinzentas do crebro! Isso  muita coisa para elas. - repentinamente ele perguntou:


- Voc tem facilidade para identificar marcas de dedos iguais?

-No. - eu disse surpreso - Mas por que voc perguntou isso? Acho que no mximo consigo dizer se 
so parecidas.

        Ele destrancou uma pequena caixa e tirou de l algumas impresses, que colocou sobre a mesa.


- Eu numerei-as, voc pode descrev- las para mim?


        Eu estudei as marcas cuidadosamente.

- Bem, Poirot, o que consigo identificar   isso: N 1- > uma marca grande e firme, deve ser de um 
homem. N 2- > pequena e muito diferente da anterior, sugere a delicadeza de uma mulher. N 3-> um 
pouco confusa, parece a mistura de vrias impresses. A que mais aparece entre elas assemelha -se  N 
1.


- Tem certeza?


- Ah, sim, elas so idnticas!


        Poirot concordou. Tomou as impresses e trancou-as novamente.


-Suponho que, como de costume, voc no ir explicar.


- Desta vez voc se enganou. A N 1  de Lawrence, a N 2  de Cynthia. Mas essas duas no so 
importantes. Eu as descobri por comparao. Mas a N 3  um pouco mais complicada!


- ?

























-Sim, meu amigo. O processo que e utilizei para torn- las mais visvel  bem conhecido da polcia, ento 
n o irei explic- lo a voc; basta saber que ele  simples, rpido, e eficiente. Bem, meu amigo, voc j 
identificou as impresses digitais, agora nos resta relacion- las com os objetos nos quais esto.


-Continue! - disse eu interessado.

- Eh, bien. A impresso N 3 estava em um pequeno frasco sobre o armrio de venenos no 
almoxarifado do hospital da Cruz Vermelha, em Tadmindster. O que soa como "a casa que jack construiu".


-Nossa! - exclamei eu - O que as impresses de Lawrence fazem nele? Ele no se aproximou desse 
armrio no dia em que estivemos l!


- Ah, sim, ele esteve!


-Impossvel. Ns ficamos juntos o tempo todo.


-No, meu amigo, por um momento ele afastou- se de vocs, ou o contrrio para ser exato, e vocs o 
chamaram para que ele se juntasse a vocs.


- Eu havia esquecido disso, - admiti -  mas foi s por um breve momento.


- Tempo suficiente.


-Suficiente para qu?


        O sorriso de Poirot tornou-se enigmtico.


-Suficiente para satisfazer o interesse natural de algum que cursou medicina.

        Nossos olhos encontraram- se. Poirot havia sido muito vago, e eu no havia entendido completamente 
o que ele queria insinuar.


-Poirot, o que voc quer dizer com essa insinuao?


-No frasco estava escrito "Hidrocloreto de estricnina".


        Eu no fiquei muito surpreso, j esperava uma resposta dessas.





















-O hidrocloreto de estricnina  usado em alguns medicamentos, principalmente plulas, mas no com 
freqncia. Esta  a razo pelas quais as marcas permaneceram intactas desde ento.


-O qu voc fez para conseguir esta digital?




mim.
?

- Visitantes no so permitidos, ento pedi para a amiga de Cynthia trazer o frasco para



- E voc sabia o que iria encontrar?




no.
?

-No. Eu apenas supus que isso seria possvel e fui tirar minha dvida. Era sim ou



-Poirot, sua esperteza s vezes me surpreende. Essa  realmente uma pista evidncia importante.


- Eu no sei. - disse Poirot - H uma coisa nessa histria que me intriga, e deveria intrigar voc 
tambm.


-O qu?


- H muita estricnina ne ste caso. Essa  a 3 vez que nos deparamos com ela. H a estricnina do 
medicamento da Sra Inglethorp, a comprada na farmcia, e agora essa. Isso tudo  muito confuso, e eu 
no gosto de confuso.

        Antes que eu tivesse tempo de replicar, um dos velhos Belgas abriu a porta e ps a cabea para 
dentro.


- H uma senhora l embaixo, ela procura pelo Sr Hastings.


- Uma senhora?


        Eu levantei. Poirot acompanhou- me at a porta e descobrimos que a senhora que me aguardava era 
Mary Cavendish.


- Eu vim visitar uma velha senhora na vila, - explicou Mary - e como Lawrence me disse que voc 
estava aqui, pensei que poderia voltar em sua companhia.


-Oi, madame! - disse Poirot - Penso que a senhora veio honrar-me com a sua visita.


- Talvez um outro dia, se voc me convidar. - disse Mary sorrindo.





















- Muito bem. Se voc precisar de algum algum dia, madame, lembre-se de que monsieur Poirot est 
sempre ao seu dispor.


        Ela fitou-o fixamente durante algum tempo, como que procurando algum outro sentido em suas 
palavras. Depois ela virou- se abruptamente e retirou-se.


-O senhor no voltar com a gente, monsieur Poirot?


- Encantado, madame.

        Durante todo o caminho para Styles Mary falava fervorosamente. Isso levou-me a pensar que ela 
estava preocupada com o olhar de Poirot.

        Soprava um caracterstico vento de outono. Mary tremeu um pouco, e abotoou o agasalho esportivo 
que usava. O vent o entre as rvores fazia um forte rudo, e isso nos soava como o canto das rvores.


        Caminhamos at a porta da manso, e descobrimos que algo estava errado.


        Dorcas correu para encontrar- nos. Ela chorava, os outros empregados cochichavam  um canto.


-Oh, eu no sei como dizer- lhes...


-O que aconteceu, Dorcas? - disse eu impacientemente -  Diga de uma vez.


-Foram aqueles detetives perversos! Eles o prenderam! Eles prenderam o Sr
Cavendish...


-Prenderam Lawrence? - perguntei.


        Dorcas olhou- me.


-No, senhor. Prenderam o Sr John.


        s minhas costas ouvi o choro desesperado de Mary e, quando virei- me para consol- la, encontrei o 
olhar triunfante de Poirot.





11

























O Caso




        O julgamento de John Cavendish pelo assassinato de sua madrasta aconteceu 2 meses mais tarde.

        Nas semanas que antecederam o julgamento deixei transparecer minha afeio e considerao por 
Mary. Ela manteve- se forte ao lado de seu marido o tempo todo, tentou libert- lo e lutou por ele com 
unhas e dentes.


        Eu expressei meus elogios a Poirot, ele agradeceu pensativamente.


-Sim, ela  uma daquelas mulheres que mostram as garras contra o adversrio. Isso tudo trouxe  
tona o carter fiel e batalhador de Mary. Seu orgulho e sua cobia foram...


-Cobia? - indaguei.


-Sim. Voc no percebeu que ela  uma mulher um tanto invejosa? Bem, como eu ia dizendo, seu 
orgulho e sua cobia foram deixados de lado. Ela no pensou em mais nada a no ser em seu marido, e na 
terrvel acusao que pesa contra ele.

        Ele falou muito sentimentalmente, e eu lembrei daquela tarde em que ele decidia entre falar ou no, 
inclusive porque disse "a felicidade de uma mulher". Percebi que a deciso de fazer justia partira de suas 
mos.


- Mas at agora, - eu disse - eu custo a acreditar nisso. Veja s, at o ltimo minuto eu acreditava 
que o culpado era Lawrence!


        Poirot sorriu maliciosamente.


- Eu sei que voc acha isso.


- Mas John! Meu velho amigo John!


- Todo assassino  provavelmente um velho amigo, - observou Poirot filosoficamente - voc no deve 
misturar sentimento e razo.


- Bem, voc poderia ter me dado uma sugesto.


-Poderia, meu amigo, mas eu no fiz isso justamente porque vocs eram velhos amigos.

























        Me senti encabulado por isso, pois disse a John que Poirot acreditava que o culpado era o Dr 
Bauerstein. Ele, de qualquer forma, percebera a brusca reviravolta no caso assim que o Dr Bauerstein fora 
preso por espionagem.

        Perguntei a Poirot se ele pensava que John seria condenado e ele disse que no,; pelo contrrio, John 
teria boas chances de ser absolvido.


- Mas Poirot... -  eu protestei.

- Ah, meu amigo, existem alguns fatos que eu no contei a voc, e eu ainda no tenho provas para 
eles. Pode ser que sirva apenas para confirmar sua culpa, mas pode revelar- nos algo novo. O problema  
que falta um ela nesta corrente, e eu no consigo encontr- lo... - disse Poirot preocupado.


-Quando voc comeou a suspeitar de John?


- Voc no suspeitou dele antes de tudo?


-No, de jeito nenhum.

-Nem mesmo depois de ter ouvido aquele pedao de conversa entre a Sra Cavendish e sua sogra, e 
sua subseqente insegurana no inqurito?


-No.


- Voc no somou 2 e 2 e concluiu que se no foi Alfred quem discutiu com a Sra Inglethorp naquela 
tarde ento s poderia ter sido John ou Lawrence? Se fosse Lawrence com certeza a conduta da Sra 
Cavendish inexplicvel mas, mudando-se para John, a coisa toda estava completamente natural e 
explicvel. No concorda, mon ami?


- Ento - exclamei como se uma lmpada acendesse em minha mente - foi John quem discutiu com a 
Sra Inglethorp naquela tarde?


- Exatamente.


- E voc sempre soube disso?


-Claro, a conduta da Sra Cavendish explicava - se quando eu pensava dessa forma.


- E voc acredita numa possvel absolvio?


        Poirot refletiu.

























-Sim, eu acredito. Pelos procedimentos policiais ns devemos ouvir os 2 lados da moeda, e isso inclui a 
chance de John defender- se. Provavelmente essa chance ser dada no julgamento. A propsito: meu nome 
no deve aparecer no caso, Hastings.


-Como assim?

-No credite nada a mim. Pelo menos no oficialmente, at que eu encontre o ltimo elo que une a 
corrente. A Sra Cavendish deve p ensar que eu estou trabalhando por seu marido, no contra ele.


- Mas isso seria jogo sujo, no?

- De forma alguma. Ns estamos lidando com um homem perverso, inescrupuloso e, o que  pior, 
inteligente. Devemos usar de todos os mtodos para peg- lo, caso contrrio ele escapar entre nossos 
dedos. Todas as descobertas foram feitas por Japp, e ele levar todo o crdito. Se eu for chamado para 
depor - ele deu um sorriso malicioso - provavelmente ser como testemunha de defesa.


        Eu mal podia acreditar no que ouvia.

-Sei que  estranho, mas meu depoimento dever destruir um ponto importante da acusao.


-Qual?


- A destruio do testamento. No foi John quem o destruiu.


        Poirot tinha um tom proftico. No entrarei em detalhes sobre os procedimentos policiais adotados, 
mas John obteve seu direito de defesa, e foi levado a julgamento.


        Em setembro encontramo -nos todos em Londres. Mary estava em uma casa em
Kensington, Poirot permanecia ao lado da famlia.

        Eu havia conseguido um emprego no Departamento de Guerra, ento os via continuamente.

        Enquanto as semanas passavam o estado de nervos de Poirot piorava mais e mais. O tal "ltimo elo 
da corrente" do qual ele havia falado continuava desaparecido. Particularmente eu achava que ele no iria 
aparecer. Seria uma grande felicidade para Mary se John fosse absolvido.





















        No dia 15 de setembro John apareceu no banco dos rus do Old Bailey como "o selvagem assassino 
de Emily Agnes Inglethorp", e logo abaixo aparecia em letras destacadas: "Ainda em liberdade".


        Sir Ernest Heavywether, um famoso advogado, ofereceu- se para defend- lo.


        O Sr Phillips abriu o caso.

        O assassino, ele disse, foi o mais frio e calculista possvel. Aproveitou- se da confiana da mulher em 
seu enteado e a envenenou sem o menor escrpulo. Ela o havia criado e suportado desde garoto, e ele e 
sua esposa viviam na manso Styles com muito conforto, cercados pelo seu carinho e ateno. Ela havia 
sido a mais generosa benfeitora, sem
sombra de dvidas.

        Ele props que fossem chamadas testemunhas para provar como o acusado estava em srias 
dificuldades financeiras, e que tambm carregava uma intriga com uma certa Sra Raikes, esposa de um 
fazendeiro vizinho. Isso chegou aos ouvidos de sua madrasta que o repreendeu; assim abriga aconteceu, e 
parte dela foi ouvida. No dia anterior, o acusado havia comprado estricnina na farmcia da vila, trajado de tal 
forma a se passar pelo marido da Sra Inglethorp. Felizmente o Sr Inglethorp possuia um libi inquestionvel.

        Na tarde do dia 17 de julho, continuou Cunsel, imediatamente aps a briga, a Sra Inglethorp fez um 
novo testamento. Este foi encontrado destrudo na manh seguinte na lareira do quarto da Sra Inglethorp, 
de acordo com evidncias ele favorecia seu marido, o Sr Inglethorp. A falecida havia feito um testamento em 
seu favor antes de casar-se mas, pelo que parece, o prisioneiro no estava ciente disso. O que levou a 
falecida a fazer um novo testamento enquanto o anterior ainda existia ele no poderia dizer. Ela era uma 
velha senhora e poderia provavelmente ter esquecido do testamento ou - o que parecia mais sensato - 
atravs de alguma conversa ela desco brira que ele havia sido revogado no momento de seu casamento. As 
senhoras nunca sabem direito como funciona a lei. Ela tinha um ano antes, feito um testamento em favor 
do prisioneiro. Ele quis chamar testemunhas para provar que o prisioneiro foi quem levo u o caf at o 
quarto de sua madrasta na noite fatal. Mais tarde da noite ele havia entrado no quarto e nessa ocasio, 
sem dvida, tratou de destruir o testamento o mais rpido possvel e assim tornar aquele em seu favor 
vlido.

        O prisioneiro foi preso em razo de o detetive Japp ter encontrado em seu quarto a nota fiscal da 
compra da estricnina, que havia sido feita supostamente pelo Sr Inglethorp. Ficou nas mos do jri, ento, 
a deciso de se aqueles fatos bastavam para a deteno do acusado.


       E, percebendo que o jri no estava to decidido, o Sr Phillips dirigiu- se at o banco, sentou- se, e 
permaneceu de cabea erguida.

























        As testemunhas chamadas para o depoimento foram praticamente as mesmas ouvidas no inqurito, o 
depoimento mdico abriu a sesso.


        Sir Ernest era famoso por toda a Inglaterra pela maneira com que desafiava as testemunhas, mas na 
oportunidade fez apenas 2 perguntas.


-Suponho que a estricnina, Dr Bauerstein, sendo uma droga, atue rapidamente.


-Sim.


- E tambm suponho que o senhor no saiba explicar como nesse caso ela teve seu efeito retardado.


-No.


-Obrigado.

        O Sr Mace, chamado logo aps, confirmou que o frasco apresentado a ele pelo promotor era o frasco 
que ele havia vendido na farmcia para o "Sr Inglethorp". Pressionado, ele admitiu que s conhecia o Sr 
Inglethorp de vista, e que nunca havia conversado com ele.


        Alfred Inglethorp foi chamado, e negou ter comprado o veneno. Tambm negou ter discutido com sua 
esposa. Vrias testemunhas comprovaram seu depoimento.


        Ouviu- se o depoimento do jardineiro, e aps Dorcas foi chamada.


        Dorcas, crente da inocncia de seu chefe, negou energicamente que a voz que ouvira naquela tarde 
fosse de John, e declarou firme e decididamente que era o Sr Inglethorp quem estava no escritrio com a 
Sra Inglethorp. Um sorriso malicioso passou pela face do
prisioneiro, ele percebeu que seu poder de persuaso no momento de nada adiantaria. A Sra
Cavendis h, claro, no poderia ser chamada para depor contra seu prprio marido.


        Aps vrias perguntas sobre outros assuntos, o Sr Phillips perguntou:


- Voc lembra se em junho passado chegou um pacote para o Sr Lawrence remetido pela empresa 
Parkson?


        Dorcas balanou a cabea.


- Eu no lembro, senhor. Pode ter chegado, mas o Sr Lawrence encontrava- se fora de casa em 
meados de junho.

























- E se o pacote chegasse enquanto ele estivesse fora, o que seria feito dele?


-Seria posto em seu quarto ou enviado at ele.


-Por voc?


-No senhor, eu o deveria deixar sobre a mesa da sala. Quem decidiria o que fazer seria a Srta 
Howard.

        Evelyn Howard foi chamada e, aps ser questionada sobre outros assuntos, perguntou- se sobre o 
embrulho.


-No lembro. Muitos pacotes chegam, no lembro de nenhum em especial.

- Voc no lembra se este pacote foi enviado para o Sr Lawrence em Wales, ou se foi deixado em seu 
quarto?


- Acho que no foi enviado a ele. Se tivesse sido enviado eu lembraria.


-Suponhamos que o pacote endereado ao Sr Lawrence chegasse e aps algum tempo 
desaparecesse, voc acha que sentiria a sua falta?


-No, acho que no. Eu iria pensar que algum  o teria mudado de lugar.

- Eu acredito, Srta Howard, que foi a senhora quem encontrou este pedao de papel de embrulho, 
no? - ele passou a ela o mesmo pedao de papel que eu e Poirot havamos examinado tempos atrs.


-Sim, fui eu.


- E como voc veio a procurar por ele?


-O detetive Belga que estava envolvido no caso pediu- me para procurar por isso.


- E onde voc o encontrou?


- Em cima de um... um guarda-roupas.


-O guarda- roupas do acusado?


-Sim... acho que sim.





















-No foi voc quem encontrou isso?


- Ento voc deve saber onde a encontrou.


-Sim, estava sobre o guarda-roupas do acusado.


- Assim est melhor.

        Um assistente da loja Parkson Fantasias Teatrais afirmou que no dia 29 de junho, eles haviam 
enviado uma barba postia preta para o Sr L. Cavendish; conforme pedido. O pedido havia sido enviado por 
carta juntamente com o dinheiro.. No, eles no tinham guardado a carta; toda a transao estava 
registrada apenas em seus livros. Eles haviam enviado a barba, conforme pedido, para o Sr L. Cavendish, 
Stio Styles, Styles St. Mary.


- E de onde a carta foi remetida?


- Do stio Styles.


-O mesmo endereo para onde voc enviou o  pacote?


-Sim.


- E a carta, veio de l?


-Claro!


-Como voc sabe? Viu o carimbo do correio?


-No, mas...

- Ah, ento voc no viu o carimbo do correio? E como continua afirmando que a carta veio mesmo de 
Styles se no viu nem mesmo o carimbo do correio?


- Bem...


-Sendo assim a carta poderia ter sido portada de qualquer lugar; de Wales, por exemplo?


        A testemunha disse que poderia ser o caso, e o Sr Ernest sentou- se satisfeito.

        Elizabeth Wells, segunda caseira em Styles, disse que aps ter ido para a cama lembrou que havia 
trancado a porta da frente ao invs de deix-la apenas no trinque, como o Sr Inglethorp havia pedido. 
Quando ia descer as escadas ouviu um discreto rudo na asa





















direita, e deteve- se por um momento. Ela viu o Sr John Cavendish batendo na porta da Sra
Inglethorp.


        O Sr Heavywether fez pouco caso dela, e a pressionou at que ela se contrariasse 
desesperadamente. Aps isso sentou- se com um olhar de satisfao.


        Aps o depoimento de Annie sobre a cera de vela encontrada no carpete, o caso foi adiado at o dia 
seguinte.


        Enquanto voltvamos para casa Mary pronunciou seu descontentamento com o moderador do caso.


-Que homem detestvel! S pode estar querendo armar uma rede contra meu pobre
John! Como ele manipula cada pequeno fato at que parea o que no !


- Bem, - disse eu tentando consol - la - amanh pode ser diferente.


-Sim. - disse ela pensativamente. Depois, baixando a voz: - Sr Hastings, voc no acha... oh, no, 
com certeza no pode ter sido Lawrence!
        Mas eu mesmo estava em dvida, e assim que fiquei a ss com Poirot perguntei- lhe onde ele achava 
que o Sr Ernest pretendia chegar.


- Bem, tudo o que sei  que ele  um homem muito esperto.


- Voc acha que ele acredita na culpa de Lawrence?

- Eu no acho que ele queira alguma coisa, na verdade ele est tentando criar uma confuso no jri. 
Ele est tentando embaralhar as coisas para que todos percebam que existem fatos tanto contra Lawrence 
como contra John.

        O detetive inspetor Japp foi chamado na reabertura do julgamento, e deu seu depoimento de forma 
resumida. Aps relatar os acontecimentos anteriores, ele continuou:

- Agindo de acordo com informaes recebidas, o superintendente Summerhaye e eu demos uma 
busca no quarto do acusado enquanto ele estava fora. Na sua cmoda, escondido entre algumas roupas, 
encontramos: 1) um par de anis similares queles que o Sr Inglethorp usa; - eles foram exibidos - 2) este 
frasco.


        O frasco era aquele que o farmacutico reco nheceu ter vendido ao "Sr Inglethorp". Era um pequeno 
vidro azul com os seguintes dizeres: "Hidrocloreto de estricnina - VENENO"


        Uma nova prova descoberta pelos detetives dizia respeito  um velho pedao de papel carbono. Ao ser 
colocado frente ao espelho podia-se ler claramente: "....udo que possu





















deixo para meu amado esposo Alfred Ingl...". Isto confirmava o fato de que o testamento destrudo era 
mesmo em favor de Alfred. A barba encontrada no sto e o fragmento encontrado na lareira do quarto  da 
Sra Inglethorp reforavam ainda mais a afirmativa.


        Mas o Sr Ernest ainda no tinha se dado por vencido.


- Em que dia voc vasculhou o quarto do acusado?


-Na tera feira, dia 24 de julho.


- Exatamente uma semana aps a tragdia?


-Sim.


- Voc disse que encontrou esses dois objetos na cmoda, ela estava destrancada?


-Sim.

-Nunca lhe passou pela cabea que um homem que cometesse um crime manteria as evidncias em 
uma cmoda trancada, para que ningum pudesse achar?


- Ele poderia t- las colocado l na pressa.


- Mas voc mesmo disse que isso foi uma semana inteira depois do crime. Ele j no teria tido tempo 
para destru- las?


- Talvez.


-No h um talvez aqui. Ele teve tempo ou no?


-Sim.


- As roupas sob as quais voc encontrou as evidncias eram pesadas ou leves?


-Pesadssimas.


- Em outras palavras, eram roupas de inverno. Obviamente o acusado n o se dirigia muito quela 
cmoda por aqueles tempos. Estou certo?


- Talvez.


-Por favor ouam minha colocao: iria por acaso o prisioneiro numa semana quentssima dirigir- se  
cmoda das roupas de inverno? Nesse caso, ento, no seria





















possvel que uma terceira pessoas as tivesse colocado l, e assim o prisioneiro desconhecesse a presena 
delas?


-No acho que isso tenha acontecido.


- Mas  possvel, no?


-Sim.


-Isso  tudo.


        Mais depoimentos seguiram- se. Depoimentos sobre as dificuldades financeiras pelas quais o 
prisioneiro passava, sobre a rixa com a Sra Raikes, etc. A pobre Mary ouvia tudo calada, sentindo seu 
orgulho ferido. Evelyn Howard foi sensata em seu depoimento, parecia que sua animosidade contra Alfred 
havia sumido, e ela pensava enfim que ele era um dos mais inocentes da histria.

        Lawrence Cavendish foi chamado. Em um fraco tom de voz respondeu  pergunta do Sr Phillips, ele 
negou ter feito qualquer tipo de pedido  loja Parkson em junho. De fato no dia 29 de junho ele estava em 
Wales, portanto longe de casa.


        Repentinamente o Sr Ernest levantou-se e perguntou:


- Voc nega ter feito um pedido de uma barba escura para a loja Parkson em 29 de junho?


-Sim.


- Ah, no caso de acontecer algo a seu irmo, quem herdaria o stio?

        A brutalidade da pergunta desafiou Lawrence. O jri deu um murmuro de desaprovao, e o acusado 
levantou-se da cadeira furiosamente. Heavywether no deu importncia a nenhum desses fatos.


- Responda  minha pergunta, por favor.


- Eu suponho - disse Lawrence calmamente - que seria eu.


-O que voc quer dizer com "suponho"? O seu irmo no tem filhos. Voc iria herdar o stio, no iria?


-Sim.





















- Ah, assim est melhor. - disse Heavywether com extrema genialidade - E voc tambm iria herdar uma 
boa soma em dinheiro, no?


-Na verdade Sr Ernest, - protestou o jri - estas questes no so relevantes.


        O Sr Ernest ascentiu, e finalizou o procedimento direto.


-Na tera feira, dia 17 de julho, voc e um hspede da casa visitaram o almoxarifado da Cruz 
Vermelha em Tadmindster, no foi?


-Sim.


- E voc, enquanto sozinho por alguns momentos, destrancou o armrio de venenos e o examinou?


- Eu...  eu..  posso ter feito isso.


-Fez ou no fez?


-Sim.


        O Sr Ernest lanou a prxima pergunta.


- Voc examinou algo em particular?


-No, acho que no.


-Seja cuidadoso, Sr Lawrence. Refiro- me a um pequeno frasco de hidrocloreto de estricnina.


-No! Tenho certeza que no!

- Ento como voc explica o fato de sua impresso digital estar claramente gravada no frasco?


        Lawrence agora apresentava crescente nervosismo.


- Acho que eu posso ter pegado o vidro.


-O Sr supe muita coisa, Sr Lawrence. Voc estava lendo o contedo dos frascos?


-Certamente que no.





















- Ento por que voc tomou um deles?


- Bem, eu cursei faculdade de medicina, algumas coisas naturalmente me interessam.


- Ah, ento os venenos naturalmente "interessam" voc. De qualquer jeito, voc esperou ficar sozinho 
para satisfazer este seu "interesse".


-Isso foi obra do acaso. Se os outros estivessem l, eu teria feito o mesmo.


- Ento, pelo que parece, os outros no estavam l?


-No, mas...


- Durante a tarde toda Sr Lawrence, o Sr esteve sozinho por apenas 2 minutos, e parece
- digo parece - ter sido exatamente nesses dois minutos que voc demonstrou interesse por hidrocloreto de 
estricnina.


- Eu...  eu...


        Com uma expresso satisfatria o Sr Heawywether concluiu.


-No tenho nada mais a perguntar, Sr Cavendish.

      Toda a corte espantou- se com esse interrogatrio. Surgiu um grande murmuro entre os 
espectadores, e o jri ameaou colocar todos para fora se no ficassem em silncio imediatamente.


        Houve mais alguns pequenos depoimentos. Peritos foram chama dos para confirmar que a assinatura 
de "Alfred Inglethorp" no livro da farmcia era ou no do prprio, todos eles declaravam que, com toda a 
certeza, a assinatura nao foi feita pelo proprietrio. Pressionados, afirmaram que a assinatura poderia ter 
sido fe ita pelo acusado.

        O Sr Ernest iniciou a defesa. Nunca, disse ele durante toda a sua vida profissional, vira um caso de 
assassinato ser resolvido a partir de pequenas evidncias que na verdade no tm nada de concreto. Tudo 
parecia ser envolvido por circunstncias, e todas elas duvidosamente provadas. A estricnina foi encontrada 
no quarto do acusado. A cmoda onde ao frasco de estricnina estava no estava trancada. No h como 
provar que foi o acusado quem ps o frasco. A acusao foi incapaz de provar que o acusado houvesse 
pedido uma barba escura  loja Parkson. A briga entre o acusado e sua madrasta bem como suas 
dificuldades financeiras haviam sido exageradamente descritas.


        O seu colega - o Sr Ernest olhou atenciosamente para o Sr Phillips - havia colocado que se o 
acusado era mesmo inocente, ele haveria levantado no inqurito e explicado que





















foi ele, e no o Sr Inglethorp, quem discutiu com a vtima. Ele alegou que os fatos estariam mal 
representados, e que o que aconteceu na verdade foi isso: o prisioneiro voltando para casa na tera  noite 
ficou sabendo da briga entre o Sr e a Sra Inglethorp. Ele naturalmente pensou que a Sra Inglethorp ento 
havia tido duas brigas.

        A acusao afirmou que na segunda feira, dia 16 de julho, o a cusado entrou na farmcia da cidade 
passando-se por Alfred Inglethorp. O acusado, pelo contrrio, estava sozinho em um lugar chamado 
Martson's Spinney, para onde havia sido chamado por uma carta annima, que ameaava revelar certas 
coisas para sua esposa a menos que ele satisfizesse algumas exigncias. O acusado foi ento at o lugar, 
onde ficou esperando em vo. Aps uma hora e meia de espera, ele voltou para casa. Infelizmente ele no 
encontrou- se com ningum na caminhada de ida ou volta que pudesse confirmar sua histria; por sorte 
manteve o bilhete que recebeu, e isso poderia ser uma prova.


        Quanto  declarao sobre a destruio do testamento, o prisioneiro estava ciente de que o 
testamento em seu favor, feito um ano antes, tinha sido automaticamente revogado pelo casamento de sua 
madrasta. Ele gostaria de tomar alguns depoimentos para provar quem destruiu o testamento, e assim abrir 
uma nova viso do caso.


        Finalmente ele lembrou ao jri que haviam tantas evidncias contra outras pessoas quanto para John, 
e remarcou que o fato apontado contra Lawrence era grave, se no mais grave que os fatos contra John.


        Ele gostaria agora de chamar o acusado.

        John sentou-se agora no banco das testemunhas. Confirmou toda a histria contada por seu 
advogado, e alcanou o bilhete ao jri para que pudesse ser examinado. Negou o fato de que suas 
dificuldades financeiras erma to srias assim, e tambm que a briga com sua madrasta fosse to violente.


        Ao trmino da sua explicao, ele disse:


- Devo deixar uma coisa clara: eu desaprovo totalmente a insinuao do Sr
Heavywether contra seu irmo. Lawrence tem tanto a ver com esse crime quanto eu tenho.


        O Sr Ernest sorriu, pois notou que o protesto de John causou uma boa impresso no jri.


-Sr John, no lhe surpreende o fato de que as testemunhas no inqurito poderiam estar possivelmente 
confundindo sua voz com a do Sr Ingletho rp?


-No. Soube que houve uma briga entre Alfred e minha me, e nunca pensei que este no seria o 
caso.

























-Nem mesmo quando Dorcas repetiu alguns fragmentos da conversa? Voc no os reconheceu?


-No, eu no os reconheci. Ns estva mos furiosos, e falvamos mais coisas do que devamos; 
sendo assim no dei importncia s palavras de minha me.


        O Sr Phillips demonstrou incredulidade ao fato. Passaram ento ao assunto do bilhete.


- Este bilhete apareceu em hora bem conveniente. Digo- lhe uma coisa: no h nada de familiar na 
escrita dele?


-No, nada que eu perceba.


- Voc no acha que se parece muito com a sua caligrafia, s que um pouco destorcida?


-No, eu no acho.


- Eu digo que  sua prpria letra!


-No.


- Eu afirmo que voc, ansioso para conseguir um libi, forjou toda a histria e escreveu voc mesmo o 
bilhete!


-No.


-No  verdade que voc estava realmente na farmcia disfarado de Alfred
Inglethorp na hora em que afirma que estava sozinho em um lugar retirado?


-No, isso  mentira!


- Eu afirmo que voc, disfarado de Alfred Inglethorp, entrou na farmcia de Styles St
Mary, comprou a estricnina, e assinou  "Alfred Inglethorp" no livro de registros.


-No, isso  tudo mentira!


- Ento vou pedir que o jri analise a similaridade entre a caligrafia do bilhete, a sua, e a do livro de 
registros. - disse o Sr Phillips, depois sentou- se com ar de quem cumpre o seu dever.


        Depois disso, como j estava ficando tarde, o caso foi adiado at segunda feira.

























        Poirot, percebi, parecia um tanto desiludido, e eu sabia o que isso significava.


-O que foi, Poirot? - perguntei.


- Ah, meu amigo, as coisas esto indo mal, muito mal.


        Particularmente tive um grande alvio, pois isso poderia significar uma chance de absolvio para 
John.


        Quando entramos em casa, Mary ofereceu um ch para Poirot.


-No, obrigado madame, vou para o meu quarto.


        Eu o segui. Ainda pensativo, ele dirigiu-se at a escrivaninha e pegou uma caixa de cartas de baralho. 
Para minha surpresa, ele sentou- se e comeou a fazer um castelo de cartas!


        No sabia o que pensar, finalmente ele disse:

-No, mon ami, eu no estou em minha segunda infncia! Estou apenas tentando acalmar os nervos. 
Este trabalho requer preciso dos dedos. Com a preciso dos dedos segue a preciso do crebro, e eu 
nunca precisei mais dele do que agora.


-Qual  o problema?


        Com uma pancada na mesa, Poirot ps abaixo se empreendimento.


-O problema , mon ami, que eu no consigo - uma pancada na mesa - encontrar - mais uma 
pancada -  aquele ltimo elo do  qual eu lhe falei!


        Eu no sabia ao certo o que dizer, ento tentei acalm- lo at que ele recomeasse sua obra.


- Est feito! Uma carta sobre a outra com preciso matemtica!

- Voc tem uma bela preciso nas mos, Poirot, acho que s o vi tremendo uma vez. Foi quando voc 
descobriu que a fechadura da caixa roxa havia sido forada. Voc estava muito nervoso, suas mos 
tremiam, e voc tentava se acalmar arrumando os objetos no aparador da lareira...


        Parei instantneamente ao ver que Poirot agora assemelhava - se  uma vela.





















-Poirot! O que houve? Voc est passando bem?


-Sim, sim! - ele gaguejou -  que eu tive uma idia!


- Mais uma de suas pequenas idias?


-No, mon ami, dessa vez  uma grande idia, gigantssima!!

        Repentinamente ele me deu um beijo na testa e, antes que eu recobrasse os sentidos, saiu voando 
do quarto.


        Mary entrou naquele exato momento.

-O que houve com monsieur Poirot? Ele passou por mim gritando "A garagem, madame, por favor me 
mostre onde fica a garagem!" E, antes que eu pudesse responder, ele j havia alcanado a rua.


        Eu corri at a janela. L ao longe ia ele, costurando a rua como se fosse s dele. Gesticulava de 
forma desordenada e esquisita.


- Ele vai ser parado por um policial a qualquer instante. L vai ele, dobrando a esquina.


        Nossos olhos encontraram- se, e ficamos nos observando por um bom tempo.


-O que aconteceu?


        Eu balancei a cabea.


- Eu no sei. Ele estava construindo um castelo de cartas, quando de repente teve uma idia e saiu 
correndo como se estivesse fugindo do Diabo.


- Bem, - disse Mary - espero que ele esteja de volta para o jantar.



        Mas a noite caiu, e Poirot no deu o ar das graas.



12





O ltimo Elo



























        A sbita partida de Poirot deixou- nos intrigados. J era domingo ao meio dia, e nada do nosso amigo 
aparecer. Mas s 3 horas da tarde um rudo de motor fez- nos correr at a janela, l estava Poirot 
acompanhado de Japp e Summerhaye. O pequeno homem estava transformado, sorria e demonstrava um 
timo humor. Cumprimentou Mary com exagerado respeito.

- Madame, tenho sua permisso para uma pequena reunio na sala? Isso se faz necessrio para que 
fatos sejam esclarecidos.


        Mary sorriu.


- Voc sabe, monsieur Poirot, que o senhor tem carta branca aqui.


- Voc  muito amvel, madame.


        Ainda sorrindo Poirot pediu para que todos se dirigissem para a sala de visitas, distribuindo cadeiras 
at que todos estivessem acomodados.

-Srta Howard, mademoiselle Cynthia, monsieur Lawrence, Dorcas e Annie. Bem, todos aqui! Vamos 
aguardar um momento at que o Sr Inglethorp chegue. Eu enviei um recado a ele.


        A Srta Howard levantou- se imediatamente.


-Se esse home m entrar nessa casa, eu vou embora!


-No, no! - Poirot acalmou-a em uma voz doce.


        Finalmente a Srta Howard ascentiu em retornar  sua cadeira. Poucos minutos depois
Alfred Inglethorp chegou.


        Uma vez que estavam todos presentes, Poirot levantou- se como se fosse um palestrante e iniciou a 
reunio.

- Messieurs, mesdames; como todos sabem eu fui convocado pelo Sr John Cavendish para investigar 
este caso. Eu examinei o quarto da falecida que, por ordem mdica, havia ficado trancado; portanto eu o 
encontrei exatamente como estava na noite da tragdia. Eu encontrei: 1) um fragmento de um material 
verde; 2) uma mecha no carpete, ainda mida;
3) uma caixa vazia de comprimidos de brometo.





















-Comeando pelo fragmento de material verde, eu o encontrei preso na fechadura da porta de passagem 
que dava para o quarto da Srta Cynthia. Eu passei o fragmento  polcia, que no o considerou de grande 
valor. Nem mesmo admitiram que aquele era  um fragmento rasgado de uma manga.


        Todos pareciam interessados.


- Mas a porta estava trancada por dentro! - indaguei.

- Bem, quando eu examinei a sala, sim. Mas em primeiro lugar ns temos apenas a palavra de uma 
pessoa para isso, pois foi ela quem nos afirmou que a porta estava trancada e, no meio da confuso, teria 
tido tempo suficiente para fech- la. Eu tive a oportunidade de verificar que o fragmento encontrado bate 
exatamente com o rasgado de um dos braceletes da Sra Cavendish.  Assim mesmo no inqurito, a Sra 
Cavendish declarou que ouviu o barulho da mesa que caiu de seu prprio quarto, o que na verdade  
impossvel. Eu constatei isso quando pedi para meu amigo Hastings permanecer na asa esquerda da casa 
e, acompanhado do detetive Japp e do inspetor Summerhaye, fui at o quarto da falecida onde derrubei a 
mesa aparentemente por acidente. Monsieur Hastings afirma no ter ouvido
nada. Isso confirmou minha idia de que a Sra Cavendish no falava a verdade quando disse que vestia a 
roupa em seu quarto na hora da tragdia. De fato eu acreditava que a Sra Cavendish estava bem longe de 
seu quarto na hora da tragdia, ela estava na verdade no quarto da falecida quando o alarme foi dado.


        Todos olhavam para Mary. Ela estava plida, mas sorrindo.

-Passei ento para a razo deste fato. A Sra Cavendish, podemos dizer, estava procurando algo que 
no encontrava. De repente a Sra Inglethorp acorda sentindo-se mal, comea a se debater e derruba a 
mesa; depois comea a tocar o sino . A Sra Cavendish, assustada, toma seu candelabro rapidamente e 
assim derruba a cera no carpete. Ela passa rapidamente para o quarto de Cynthia, fechando a porta de 
comunicao. Ela sai correndo pelo corredor antes que os servos cheguem, pois eles no a podem ver l; 
mas  tarde demais... J ouviam- se passos prximo  curva do corredor. O que ela poderia fazer? 
Pensando rapidamente ela retorna ao quarto da Srta Cynthia, e comea a chacoalh - la para que ela 
acorde. Todos estavam ocupados batendo  porta da Sra Inglethorp, assim ningum sentiu sua falta. No 
ocorreu a ningum que a Sra Cavendish no havia vindo de seu quarto, mas por outro lado ningum havia 
visto ela vindo da outra asa. - Poirot olhou para Mary - Estou certo, madame?


        Ela acenou com a cabea.

- Totalmente certo, monsieur Poirot. Mas saibam que se de algum modo estes fatos ajudassem meu 
marido, eu j os teria revelado; mas nada h nisso que reforce sua inocncia ou culpa.

























-Sim, isto  verdade, madame. Mas por outro lado isso teria desembaralhado muita coisa em minha 
cabea, e assim esclarecido a verdade.


-O testamento! - disse Lawrence - Ento foi voc, Mary, quem destruiu o testamento?


        Tanto Mary como Poirot acenaram com a cabea em sinal de negao.

-No. - disse Poirot - Existe apenas uma pessoa que poderia ter destrudo o testamento: a Sra 
Inglethorp mesmo!


-Impossvel! - eu exclamei -  Ela o havia feito naquela mesma tarde!

- De qualquer modo, mon ami, foi a Sra Inglethorp. Voc nunca notou nada de estranho no fato de 
que, em um dos dias mais quentes do ano, a Sra Inglethorp tenha mandado atear fogo na lareira em seu 
quarto?


        Fiquei extremamente surpreso. Como pude eu ser to idiota a ponto de nunca ter questionado isso? 
Poirot continuou:

- A temperatura naquele dia, messieurs, era de aproximadamente 27C, e assim mesmo a Sra 
Inglethorp manda acender a lareira! Por qu? Porque ela desejava destruir algo importante, e no pensou 
em nenhum outro modo to eficaz. Lembrem- se que, com a guerra, nenhum papel era destrudo; tudo era 
reaproveitado de alguma forma. Havia por acaso uma outra forma to segura e discreta de destruir aquele 
testamento? Quando ouvi que a Sra Inglethorp havia mandado atear fogo na lareira, instantneamente 
cheguei  concluso de que ela desejava destruir algum documento importante; ento no fiquei surpreso 
ao encontrar aquele fragmento entre as grades. Eu ainda no sabia que aquele testamento havia sido feito 
naquela tarde e, quando descobri, pensei que havia cometido um grave erro. Pensei que a Sra Inglethorp 
havia decidido destruir o testamento por conseqncia direta da briga que havia ocorrido, e que desta forma 
ento, a briga havia ocorrido antes do testamento ser feito, e no antes.

- Mas isso, como todos sabemos, estava errado, e vi- me forado a abandonar a idia. Eu encarei o 
problema por outro ponto de vista. Vamos l: s 4 horas da tarde Dorcas ouviu sua senhora dizer 
furiosamente: "Voc no pense que qualquer tipo de publicidade ou escndalo entre marido e mulher ir me 
deter." Eu supus ento - e corretamente, que estas palavras no se dirigiam para seu marido, mas sim para 
John Cavendish. s 5 horas,
uma hora mais tarde, ela usa as mesmas palavras, mas de modo diferente. Ela comenta com Dorcas: "Eu 
no sei o que fazer, escndalo entre marido e mulher  uma coisa dramtica." Assim s 4 horas ela estava 
furiosa mas completamente confiante em si mesma; mas s 5 horas ela apresentava-se violentamente 
angustiada e falava em ter tido "um grande
choque".

























-Olhando para os fatos psicologicamente, cheguei a uma concluso que achei estar correta. O segundo 
"escndalo" de que ela falara no era o mesmo que o primeiro, e ele a deixou angustiada!

- Reconstruiremos os fatos, ento. s 4 horas a Sra Inglethorp discute com seu filho, e trata de 
entreg- lo  sua esposa que j havia ouvido grande parte da conversa. s 4:30 a Sra Inglethorp, em 
conseqncia da conversa sobre validade de testamento, faz um novo testamento em favor de seu marido, 
no qual os dois jardineiros servem de testemunhas. s
5 horas, Dorcas encontra sua senhora em estado de considervel agitao, abalada emocionalmente, com 
um pedao de papel - "uma carta", pensa Dorcas - na mo, e  ento que ela ordena o fogo em seu quarto. 
Obviamente algo ocorreu entre 4:30 e 5 horas para que acontecesse uma completa revoluo de 
sentimentos, visto que agora ela estava ansiosa para destruir um testamento que tinha praticamente 
acabado de fazer.

-Como todos sabemos, ela permaneceu totalmente sozinha durante aquela meia hora. Ento o que 
ocasionou aquela repentina mudana de sentimentos?

-Podemos apenas supor, mas acho que minha suposio  correta: a Sra Inglethorp no tinha selos 
em sua mesa, ns sabemos disso porque mais tarde ela pediu para Dorcas trazer- lhe alguns. No outro 
lado da sala estava a mesa de seu marido; trancada. Ela estava ansiosa para conseguir alguns selos e, de 
acordo com a minha teor ia, tentou abrir a gaveta da mesa de seu marido com suas prprias chaves. Que 
uma delas serve eu sei. Ela comea ento a procurar os selos, e encontra um papel que nunca esteve em 
suas mos: o papel que ela segurava quando falou com Dorcas. Mary pensa que aquela  uma prova 
escrita da infidelidade de seu marido e pede para v- lo. A Sra Inglethorp afirma que aquele papel nada tem 
a ver com o assunto, e nega- se a mostr-lo. Mary est agora obcecada e decide tomar aquele papel de 
qualquer forma, e pensa em como poderia consegui- lo. Ela encontra a chave da caixa roxa da Sra 
Inglethorp que havia sido perdida naquela manh, e sabe que  l onde sua sogra guarda os papis 
importantes.

- Mary, ento, faz os planos que apenas uma mulher desesperada teria cora gem de fazer. Em 
alguma hora aps o cair da noite ela destranca a porta, onde j havia colocado anteriormente leo nas 
dobradias conforme eu e mon ami Hastings constatamos. Ela decide executar ento o seu plano nas 
horas da manh em que os empregados esto acostumados a ouvir seus movimentos, assim no levantaria 
suspeitas. Ela colocou sua roupa de servio e, caminhando discretamente, passou pelo quarto da Srta 
Cynthia e entrou no quarto de sua sogra.


        Ele parou por um momento, Cynthia interrompeu:


- Mas eu no iria acordar se algum passasse pelo meu quarto?





















-No se tivesse sido drogada, mademoiselle.


- Drogada?


- Mais oui!

- Vocs lembram que mesmo com todo aquele tumulto mademoiselle Cynthia permanecia dormindo? 
Admiti ento duas possibilidades: ou seu sono era fingido - o que particularmente eu no acreditava - ou 
sua inconscincia havia sido induzida por meios artificiais.


-Com essa idia na mente, eu examinei cuidadosamente todas as xcaras de caf, lembrando que foi 
a Sra Cavendish quem serviu o caf para mademoiselle Cynthia na noite anterior. Eu recolhi uma amostra 
de cada xcara, e mandei analis- las. Sem resultado. Contei- os novamente na esperana de que algum 
deles houvesse sido removido, mas no. Seis pessoas, seis xcaras. Achei que estivesse enganado.

- Mais tarde percebi que eu havia feito olho grosso para uma coisa: haviam 7 pessoas, e no 6 como 
eu havia contado. O Dr Bauerstein esteve aqui naquela noite, e isso mudava tudo; havia com certeza uma 
xcara supostamente extraviada. Os empregados nada
perceberam; Annie trouxe 7 xcaras, mas no outro dia Dorcas recolheu apenas 6. Annie no percebeu que 
o Sr Inglethorp no tomou o seu caf, e Dorcas na verdade no percebeu que haviam 5 xcaras na manh 
seguinte. E a sexta, onde estava? Quebrada no quarto da Sra Inglethorp.


- Eu tinha quase certeza que a 7 xcara, a supostamente extraviada, era aquela que estava no quarto 
de mademoiselle Cynthia. Eu firmei base no ponto de que toda a casa usava acar no caf, menos 
mademoiselle Cynthia. O "sal" na bandeja do cco que Annie levou  Sra Inglethorp chamou-me a ateno, 
ento tomei uma amostra daquele cco e enviei para anlise.


- Mas isso j havia sido feito pelo Dr Bauerstein! - disse Lawrence rapidamente.


-No exatamente. Ao analista foi perguntado se havia ou no estricnina na amostra, nada pediu- se 
sobre a presena de narcticos.


-Narcticos?

-Sim. Aqui est o relatrio do analista. A Sra Cavendish administrou um fraco mas eficiente narctico 
tanto para a Sra Inglethorp quanto para mademoiselle Cynthia. Imagine o remorso que ela sentiu quando 
sua sogra de repente sente- se mal e morre, e logo depois ela ouve "Veneno!". Ela pensava que o calmante 
usado era inofensivo, mas de repente enche- se de pnico e pensa que ela pode ter sido a responsvel pela 
morte de sua sogra! O





















que ela faz? Desce correndo as escadas e joga a xcara usada por mademoiselle Cynthia dentro de um 
grande jarro de bronze, onde mais tarde foi descoberta por monsieur Lawrence. Na amostra de cco ela no 
ousa tocar. Finalmente suspira de alvio quando a estricnina  mencionada, e descobre depois de tudo que 
no  ela a responsvel pela tragdia.


- Dessa forma descobrimos por que os efeitos da estricnina tardaram a aparecer. Um narctico 
consumido com a estricnina ir tardar seus efeitos por algumas horas.


        Poirot fez uma pausa. Mary olhou- o, seu rosto lentamente tornou-se rosado.


- Tudo o que voc disse  a mais pura verdade, monsieur Poirot. Aquela foi a hora mais angustiante 
de minha vida. Voc foi sensacional, agora eu entendo...


-...Entende por que deveria ter confiado no velho Poirot, no? Eu disse a voc que confiasse, mas 
voc no me deu ouvidos...


- Agora eu vejo tudo! - disse Lawrence - O cco com calmante tomado antes do caf com estricnina 
causou esse retardamento!


-Quase. O caf estava envenenado ou no? Aqui encaramos outro problema, visto que a Sra 
Inglethorp jamais tomou aquele caf.


-O qu? - a surpresa foi geral.


-Sim. Lembram-se de que eu falei sobre uma mancha fresca no carpete? Haviam alguns pontos 
peculiares referentes quela mancha. Ela no havia secado e exalava um forte odor de caf, e encontrei 
tambm pedaos de porcelana chinesa. O que havia acontecido agora estava claro para mim, pois h 
alguns minutos atrs eu havia colocado minha pequena maleta sobre a mesa e, ao balan- la, ela 
derrubou minha maleta exatamente sobre a mancha de caf e os fragmentos. Da mesma forma a Sra 
Inglethorp colocou sua xcara sobre a mesa ao chegar no quarto na noite anterior, e a traioeira mesa 
pregou nela a mesma pea.

-O que aconteceu depois  mera curiosidade, mas eu devo dizer que a Sra Inglethorp juntou os 
pedaos da xcara quebrada e os colocou na mesa prximo  cama. Sentindo a necessidade de algum 
estimulante, ela tomou o seu cco. Encaramos ento outro problema. Sabemos que o cco no continha 
estricnina e o caf nunca chegou a ser bebido, mesmo assim a estricnina foi consumida entre 7 e 9 horas 
da noite. Que terceira substncia foi consumida e era capaz de esconder o forte gosto da estricnina? - 
Poirot olhou ao redor da sala e finalizou triunfantemente -  Seu remdio!


- Voc quer dizer que o assassino introduziu a estricnina no tnico dela?





















- Bem...  no havia a necessidade de introduzi- la. A estricnina j estava presente naturalmente na mistura. 
A estricnina que matou a Sra Inglethorp foi a estricnina prescrita pelo seu mdico, o Dr Wilkins. Para tornar 
tudo mais claro, vou ler um trecho de um livro que encontrei no hospital da Cruz Vermelha em Tadmindster:





Sulfeto de Estricnina


gr. I





Brometo de Potssio


3 VI





Aqua Ad


5 VIII





Mistura Homognea




        "Esta soluo deposita em poucas horas a maior parte do sal da estricnina em forma de cristais de 
brometo insolveis."

- A Sra Inglethorp perdeu sua vida ao tomar uma mistura similar: a estricnina nesta soluo precipitou- 
se ao fundo, e a Sra Inglethorp ao tomar a ltima dose tragou- a quase que totalmente!

-Sabemos que no h brometo na prescrio do Dr Wilkins, mas vocs devem lembrar que eu 
mencionei a existncia de uma caixa vazia de brometo. Um ou dois desses comprimidos introduzidos ao 
vidro cheio de tnico causariam essa precipitao, assim a estricnina seria consumida quase que 
totalmente na ltima dose. Exatamente como o livro descreve. Consideremos ento que a pessoa que 
levava o medicamento at a Sra Inglethorp o fazia de modo cauteloso para que os cristais permanecessem 
depositados ao fundo.





















-Pensando no caso, percebi que a tragdia deveria ter acontecido na segunda  noite. Naquele dia o sino 
da Sra Inglethorp estava quebrado e Cynthia estava fora com uns amigos. A Sra Inglethorp estava ento 
sozinha na asa direita e completamente isolada da ajuda de algum, e morreria antes que o antdoto 
pudesse ser administrado. Mas na pressa em chegar no horrio para os acontecimentos da vila a Sra 
Inglethorp esqueceu de tomar seu medicamento, e no prximo dia ela comeu fora de casa. Desta forma a 
ltima -  e fatal - dose foi tomada apenas 24 horas aps o esperado pelo assassino. Agora comunico a 
vocs que o ltimo elo da corrente est em minhas mos!


        Demonstrando pequena ansiedade ele retira do bolso 3 pequenos pedaos de papel.


- Uma carta escrita pela prpria mo do assassino, mes amis! Nela est claro que a Sra Inglethorp, 
avisada a tempo, poderia ter escapado. Como aqui est, a Sra Inglethorp sabia que corria perigo mas no 
sabia como corria perigo.

        Frente  um silncio mortal Poirot juntou os pedaos de papel e, limpando a garganta, leu:





        "Querida Evelyn:




        Voc deve estar ansiosa por no ter ouvido nada. Est tudo  certo, s que ser atrasado em uma 
noite. Voc sabe que  bom de uma vez por todas a mulher morta e fora do caminho. Ningum associar o 
crime a mim. Aquela idia sua sobre o brometo foi uma cartada de mestre! Mas devemos ser muito 
cuidadosos, um passo em  falso..."

- Aqui, meus amigos, a carta termina. Sem sombra de dvidas o autor foi interrompido, mas aqui est 
claro a sua identidade. Ns todos conhecemos esta letra e...


        Um grito de indignao cortou o silncio dos espectadores:


-Seu Demnio! Como voc conseguiu isso?!!


        Uma cadeira foi derrubada. Poirot apenas virou- se para o lado e disse:


- Messieurs, mesdames, - disse Poirot explodindo de orgulho - apresento-lhes o assassino: Alfred 
Inglethorp!



13































Poirot Explica





-Poirot, seu espertalho! - disse eu brincando - Por que voc no disse o que pensava?

        Ns estvamos na biblioteca, haviam se passado alguns dias. John e Mary abraavam- se e 
suspiravam aliviados pelo pesadelo ter acabado. Alfred Inglethorp e Evelyn Howard estavam agora sob 
custdia. Finalmente Poirot estava disponvel para satisfazer minha imensa curiosidade.


        Poirot manteve- se calado por um momento, depois disse:


- Eu no menti para voc, mon ami. Eu apenas permiti que voc prprio se enganasse.


-Sim, mas por qu?

- Bem,  difcil explicar. Voc tem uma natureza muito honesta, e se deixa guiar muito por 
sentimentos compulsivos; se voc soubesse de tudo voc iria possivelmente jogar tudo na cara de Alfred,,, 
poderamos dar tchauzinho s chances de agarr- lo!


- Mas eu acho que poderia ter sido mais til do que fui.

-No, meu amigo, no poderia. Voc foi de extrema importncia nesse caso; teve tanta serventia 
quanto honestidade, e nisso eu o admiro.


- Bem, Poirot, voc poderia pelo menos ter dado uma pista.

- Mas eu fiz isso muitas vezes, meu amigo! Voc que nunca notou. Pense bem: alguma vez eu disse 
que John deveria ser preso? Pelo contrrio, eu disse que ele mais certamente seria absolvido.


-Sim, mas...

- E eu mais tarde no falei da dificuldade de trazer o criminoso  justia? Voc no percebeu que eu 
falava de duas pessoas diferentes?


-No, - eu disse - eu nunca havia percebido isso.





















- E em outra oportunidade, no incio de tudo, eu no disse a voc que no queria o Sr
Inglethorp preso no momento? Isso no sugeriu nada a voc?


- Voc quer dizer que suspeitava dele desde aquela poca?

-Sim. Comeando por quem seria o maior beneficiado pela morte da Sra Inglethorp. No havia como 
fugir disso! Desde a primeira vez que estive no stio com voc no tive dvidas de como o crime havia sido 
cometido; o difcil era achar algo que conectasse Alfred a ele. Desde que eu cheguei  manso, eu no 
tinha dvidas de que o testamento havia sido queimado pela prpria falecida; por isso eu fazia o possvel 
para que voc percebesse por si mesmo a importncia daquele fogo em pleno vero.


-Sim, sim, - eu disse impacientemente -  prossiga.


- Bem meu amigo, como eu disse, minhas vises sobre como prender o Sr Inglethorp eram muito 
confusas. Haviam tantas evidncias contra ele que eu cheguei a balanar em favor de sua inocncia.


- E quando voc teve certeza de que havia sido ele?

-Quando percebi que quanto mais eu me esforava para livr- lo, mais esforo ele fazia para ser preso. 
Depois, q uando descobri que era John e no Alfred quem estava interessado na Sra Raikes, eu tive total 
certeza.


- Mas por qu?

-Porque se fosse Alfred quem estivesse interessado na linda esposa do fazendeiro, seu silncio 
estava explicado. Mas quando descobri que era John quem estava atrado por ela, seu silncio ganhou uma 
interpretao totalmente diferente. Seria ignorncia fingir que ele estivesse com medo de um escndalo, 
pois esse escndalo nada tinha a ver com ele! Esta atitude da parte dele me fez pensar furiosamente que 
ele desejava ser preso. Eh, bien! Daquele momento em diante decidi que ele no deveria ser preso de 
maneira alguma.


- Espere um momento. Eu ainda no percebi por que ele desejava ser preso!

-Porque, mon ami, pela lei de seu pas um homem uma vez acusado e absolvido nunca mais poder 
ser acusado do mesmo fato. Com certeza ele  um homem muito esperto! Ele sabia que era suspeito, 
ento ele teve a brilhante idia de forjar um monte de provas contra ele mesmo. Depois ele iria revelar seu 
inquestionvel libi e, como num passe de mgica, iria se safar pela vida toda!


- Mas eu ainda no entendi como ele conseguiu um libi inquestionvel, e foi at a farmcia ao 
mesmo tempo.

























-Poirot olhou- me surpreso.


-O qu? Meu pobre amigo! Voc ainda no percebeu que foi a Srta Howard quem foi at a farmcia?


- Evelyn Howard?

-Claro. Quem mais? Isso era extremamente fcil para ela. Ela era bem encorpada, sua voz era 
profunda e tinha um tom masculino; lembre- se tambm que ela e Alfred eram primos, ento tinham certa 
semelhana facial.


- Eu estou um pouco em dvida sobre como o negcio do brometo foi feito.

- Bem, ento irei reconstruir os fatos  medida do possvel. Eu fui levado a pensar que a Srta Howard 
era o crebro chefe nesse caso. Lembra- se uma vez em que ela mencionou que seu pai era mdico? 
Possivelmente ela soube da receita atravs dele, ou talvez tirou- a de algum dos livros que Cynthia utilizava 
para estudar. De qualquer forma, ela tinha conhecimento de que o brometo adicionado  mistura contendo 
estricnina iria causar sua precipitao. Provavelmente a idia ocorreu-lhe de repente. A Sra Inglethorp 
possuia uma caixa de comprimidos de brometo,  que tomava ocasionalmente. Seria muito fcil dissolver um 
ou dois desses comprimidos no grande frasco de tnico da Sra Inglethorp assim que ele chegasse da 
farmcia; se algum os visse mexendo no remdio, possivelmente esqueceria isso nos 40 dias a seguir; j 
que o frasco apresentava 40 doses. Evelyn Howard iria forar a briga e abandonar a casa. O efeito do tempo 
e o fato de que ela estivesse longe iria livr- la de qualquer suspeita. Sim, foi uma idia muito inteligente. Se 
eles houvessem deixado tudo como estava possivelmente no seriam de modo algum ligados ao caso, mas 
eles tentaram parecer inteligentssimos. Ento aconteceu o erro.


        Poirot fumava, seus olhos estavam presos no teto.


- Eles planejavam jogar a suspeita sobre John ao comprar a estricnina e assinar o livro de registros 
imitando sua caligrafia.

-Na segunda a Sra Inglethorp iria tomar a ltima dose de seu tnico. Nesse dia, s seis horas da 
tarde, Alfred trata de ser visto por um grande nmero de pessoas em um lugar retirado da vila. Evelyn havia 
previamente inventado uma histria sobre ele a Sra Raikes. s 6 horas ela entra na farmcia vestida de 
Alfred Inglethorp, compra a estricnina com a desculpa de envenenar um cachorro, e assina "Alfred 
Inglethorp" no livro de registros com a caligrafia de John.





















- Tambm poderia ter sido ela quem escreveu aquele bilhete intimando John at um lugar distante. Ela 
pretendia com isso evitar que John conseguisse um libi, e tambm tentar incrimin- lo, pois todos iriam 
pensar que foi ele mesmo quem escreveu o bilhete.

- Tudo acabaria bem. A Srta Howard retornaria para Middlinghan, Alfred Inglethorp retornaria para 
Styles. Nada havia que comprovasse a ligao de um com o outro e nada os ligava ao caso, pois a 
estricnina comprada apenas para acusar John estava com a Srta Howard. Esta estricnina nada teve a ver 
com a tragdia.

- Ento tudo encaixa. A Sra Inglethorp no toma o remdio na noite de segunda. O sino quebrado, a 
ausncia de Cynthia -  arranjada por Alfred atravs de sua esposa. Todos estes fatos so perdidos. Ento 
ele comete se deslize.

- A Sra Inglethorp no est em casa, ento ele se senta para escrever para sua cmplice que, pensa 
ele, est apavorada pelo no-sucesso de seus planos. Provavelmente a Sra Inglethorp retorna antes do 
esperado, e ele  pego de surpresa; esconde o pedao da carta na gaveta de sua mesa e a tranca. Ele 
teme que se permanecesse na sala teria de abri- la de novo, e assim a Sra Inglethorp descobriria tudo. 
Ento ele sai e vai caminhar pelo campo, nem sonha que a Sra Inglethorp ir abrir sua gaveta e assim 
descobrir o documento incriminativo.

- Mas isso, pelo que ns sabemos, foi justamente o que aconteceu. A Sra Inglethorp l a carta e fica 
horrorizada ao saber que seu marido e Evelyn Howard planejavam sua morte. A frase do brometo nada 
significou para ela. Ela sabia que corria perigo, mas nem fazia idia de onde ele estava. Ela decide no 
dizer nada a seu marido, senta e escreve ao seu advogado para que venha v- la na manh seguinte; decide 
destruir o testamento, mas mantm a carta fatal.


- Ento foi para descobrir esta carta que Alfred forou a fechadura do estojo roxo?

-Sim, mesmo sob o enorme risco de ser descoberto; assim percebe-se a importncia que este 
documento tinha. Fora essa carta, nada havia que o ligasse ao caso.


- Tem uma coisa que eu no entendo: por que ele no destruiu a carta quando a pegou?


-Por vrias circunstncias. Falta de tempo, falta de coragem, etc.


-No entendi o que voc quis dizer.

- Ento olhe para o caso pelo ponto de vista dele. Eu descobri que  ele teve apenas 5 curtos minutos 
de tempo para peg-la, os cinco minutos anteriores a nossa chegada  cena. Antes desse tempo Annie 
estava varrendo as escadas, e com certeza viria todas as pessoas que passassem para a asa direita da 
casa. Imagine voc mesmo nessa encruzilhada! Ele





















entra no quarto destrancando a porta com alguma outra chave -  todas elas so parecidas. Corre para pegar 
a caixa roxa mas a encontra trancada e no sabe onde esto as chaves. Um terrvel choque para ele, pois 
ele sabe que agora sua presena no quarto j no ser to discreta como esperava. Mas ele sabe muito 
bem que deve fazer qualquer coisa para destruir aquela carta, ento fora a fechadura com uma caneta e 
comea a remover os papis at que encontra o que quer.

- Ento surge um pequeno dilema: ele no tem coragem para manter essa carta com ele para que 
pudesse destru- la mais tarde. Se ele fosse visto deixando o quarto, com certeza seria revistado. Se o 
papel fosse encontrado com ele com certeza ele estaria com problemas. Provavelmente nesse momento 
ele houve John e o Sr Wells deixando o escritrio. Ele precisa agir rpido. Onde ele pode esconder aquele 
terrvel pedao de papel? O contedo da lixeira seria investigado. No havia meio de destru- la, e ele no 
queria permanecer com ela. Ele olha ao redor, e v...  o que voc acha que ele v, mon ami?


-No fao idia.

- Bem, ele tem que manter essa carta longe das pistas, ento ele a enrola e coloca dentro do vaso 
sobre o aparador da lareira. Ningum iria pensar em olhar l, e assim ele poderia retornar em uma outra 
ocasio, quando tudo esfriasse, e ento destru- la.

- Ento a carta esteve o tempo todo no vaso sobre o aparador de lareira, bem sob nossos olhos?


- Exatamente! Foi l onde eu descobri meu ltimo elo, e eu devo isso a voc.


- A mim?


-Sim. Lembra que voc me disse que minhas mos tremiam enquanto eu arrumava os ornamentos no 
aparador da lareira?


-Sim, mas eu no vejo...

- Bem...  se eu estava arrumando os ornamentos, era porque eles estavam desarrumados! E se eles 
estavam desarrumados, com certeza algum havia mexido neles. No faria sentido eu organizar alguma 
coisa j organizada. Atravs disso pensei que nesse me io tempo algum havia mexido neles.


-Nossa! Ento foi por isso que voc saiu correndo feito um louco aquele dia?


-Sim. Era uma corrida contra o tempo.





















- Mas eu continuo por que Alfred Inglethorp foi louco o suficiente para deixar  a carta l por tanto tempo se 
teve tantas oportunidades de destru- la.


- Ah, mon ami, ele no teve oportunidade!


-No?


-No. Voc lembra que brigou comigo porque eu no dizia o que pensava sobre cada um da casa?


-Sim.

- Bem, mon ami, admito que ele teve uma nica chance. Eu no tinha certeza se Alfred era o 
criminoso ou no, mas se fosse eu sabia que ele no tinha o papel com ele, mas o havia deixado em algum 
lugar. E atravs de fatos que observava pude prevenir a destruio dela. Ao no tornar pblico o fato de que 
Alfred Inglethorp era suspeito eu economizei o trabalho de 10 jovens detetives que teriam que vigi- lo 
durante 24 horas. Ele sabia que era observado, ento foi obrigado a deixar a manso e abandonar a carta 
no vaso.


- Mas com certeza a Srta Howard teve plena oportunidade de destru- la.

-Sim, mas a Srta Howard no sabia da existncia desse papel. De acordo com seus planos eles 
nunca conversariam, tanto que eram supostamente inimigos mortais. At que John no fosse preso eles 
no iriam se encontrar. Claro que eu sempre mantinha um olho em Alfred esperando que mais cedo ou 
mais tarde ele me levasse at o esconderijo, mas ele era muito esperto para isso. O papel estava seguro 
onde estava, se ningum olhou l na primeira semana no iriam olhar depois. Por sorte nunca houve prova 
alguma para lev- lo  justia.


- Tudo bem, mas quando voc comeou a suspeitar da Srta Howard?


-Quando descobri que ela mentiu sobre a carta que recebeu da Sra Inglethorp.


-Sobre o qu ela mentiu?


- Voc viu a carta? Notou sua aparncia?


- Mais ou menos.


- Voc deve ter notado que a Sra Inglethorp escreveu de  forma bem distinta, deixando grandes 
espaos entre as palavras. E se voc notar a data no topo voc ir notar que a data
"17 de julho" est escrita de forma bem particular. Entende o que eu quero dizer?





















-No, - confessei - eu no.

- Voc no percebeu que a carta no foi escrita no dia 17, mas sim no dia 7?  Um dia depois da 
partida da Srta Howard! O 1 foi colocado na frente do 7 para transform- lo em
17.


- Mas por qu?

-Isso foi exatamente o que eu me perguntei. Por que a  Srta Howard escondeu a carta escrita no dia 
17? Porque ela no poderia mostrar esta carta! Voc lembra que eu disse a voc para ter cuidado com as 
pessoas que no diziam a verdade?


- Assim mesmo -  eu estava indignado - voc me deu duas razes que provavam a inocncia da Srta 
Howard!

- E eram boas razes. Por um longo tempo eram foram um estorvo para mim, at que lembrei de uma 
coisa: eles eram primos. Ela no poderia ter cometido o crime diretamente, mas nada a impedia de ser 
cmplice. E al m disso houve aquela repentina briga entre eles! Havia, sem dvida, um velho envolvimento 
entre os dois antes de eles virem a Styles. Eles haviam discutido sobre o assunto: ele viria a Styles, 
casaria- se com a velha senhora, e a induziria a fazer um testamento em seu favor; depois tudo chegaria ao 
fim com um crime minuciosamente planejado. Se tudo tivesse corrido como o esperado, eles teriam 
deixado a Inglaterra e vivido gastando o dinheiro da pobre vtima.

- Eles formavam um par muito esperto e inescrupuloso. Enquanto as suspeitas estavam contra ele, 
ela tratou de fabricar todas as provas. Ela chega de Middlinghan com tudo arrumado. No h suspeitas 
contra ela, ningum nota por onde ela anda na casa. Ela esconde a estricnina e o frasco no quarto de John, 
e coloca a barba no sto. Ela sabe que mais cedo ou mais tarde algum a encontraria.

- Eu no consigo entender por que eles tentaram jogar a culpa para cima de John. Seria muito mais 
fcil jogar a culpa sobre Lawrence!


-Sim, mas muitas coisas foram coincidncias. Todos os fatos provados contra
Lawrence foram por mero acidente. Com certeza os criminosos aborreceram-se com isso.


-Seu comportamento foi estranho.


-Sim, e com certeza voc sabe o que est por trs disso.


-No.


- Ele pensava que Cynthia seria presa pelo crime.

























-Impossvel!

-Nem tanto. Eu inicialmente pensava assim, por isso perguntei ao Sr Wells sobre o testamento. Havia 
aquela caixa de comprimidos de brometo que foram feitos por ela, tambm sua representao nos 
pequenos teatros, como Dorcas nos contou. Na verdade haviam mais evidncias contra ela do que contra 
qualquer outro.


- Voc est brincando, Poirot!

-No. Devo dizer a voc o que deixou Lawrence to impressionado ao entrar no quarto de sua 
madrasta na madrugada mortal? Ele sabia que ela havia morrido por envenenamento e viu, sobre sua 
cabea, que a porta de ligao para o quarto de Cynthia estava entreaberta.


- Mas ele disse que viu a porta fechada!


- Exatamente. Isso apenas confirmou minhas suspeitas: ele estava protegendo ela.


- Mas por que ele a estava protegendo?


-Porque ele est interessado nela.


        Eu gracejei.


-Nisso, Poirot, voc est enganado. Eu afirmo que, longe de am - la, ele no a suporta.


-Quem disse isso a voc, mon ami?


-Cynthia.


- La pauvre petite! E ela estava certa disso?


- Ela disse que no tinha dvidas.


- Ento com certeza ela no pensou muito.


-O que voc disse sobre Lawrence  uma grande surpresa para mim.

- Mas por qu? Isso era totalmente bvio. Monsieur Lawrence no ficou de cara trancada o tempo todo 
enquanto Cynthia conversava e ria com seu irmo? Ele havia colocado na cabea que Cynthia estava 
interessada em John. Quando ele entrou no quarto de sua me e a viu obviamente envenenada, ela chegou 
 concluso de que mademoiselle





















Cynthia sabia algo sobre o fato. Ele estava quase ficando louco. Primeiramente ele esmigalhou a xcara de 
caf com os ps, pois se Cynthia havia subido com a Sra Inglethorp para o quarto, o contedo dessa xcara 
no poderia ser testado. E ainda aps isso ele levantou a teoria de "morte por causas naturais".


- E sobre a xcara de caf extra?

- Eu tinha certeza de que tinha sido a Sra Inglethorp quem a escondeu, mas eu precisava ter certeza 
disso. Monsieur Lawrence de imediato no sabia do que eu falava, mas ele pensou que se encontrasse 
essa tal xcara extra livraria Cynthia. Ele estava certo.


- Uma coisa mais: o que a Sra Inglethorp quis dizer com suas ltimas palavras?


- Elas foram, sem dvida, uma acusao contra seu marido.

- Bem, Poirot, acho que voc j explicou  tudo. Estou contente que tudo isso tenha chegado ao fim. 
At John e Mary esto reconciliados.


- Graas a mim.


-Como assim?


- Meu velho amigo, voc no notou que foi o julgamento o nico responsvel pela sua reconciliao? 
Que John e sua esposa se amavam isso eu sabia, mas eles estavam
afastados. Isso foi causado por um desentendimento. Ela casou com ele sem amor, ele sabia disso; por 
isso ele no a forava a am - lo sem que ela quisesse. Mas enquanto ele esteve afastado, o amor dela 
despertou. A gente s sente falta do que realmente falta, mon ami. Eles estavam aborrecidos. John 
interessou- se pela Sra Raikes, enquanto Mary cultivou a amizade do Dr Bauerstein. Voc lembra do dia da 
priso de John, quando eu estava por tomar uma grande deciso?


-Sim, eu entendo o porqu.

-Pardon, mon ami, mas voc no entende. Eu tentava decidir se livrava John de uma vez por todas ou 
no. Eu poderia t-lo livrado - isso poderia ser uma falha para prender os verdadeiros criminosos. Eu 
arrastei a coisa at o ltimo momento, e esse foi o segredo do meu sucesso.


- Voc quer dizer que poderia ter evitado que John fosse a julgamento?

-Sim, mon ami. Mas eu decidi em favor da "felicidade de uma mulher". Nada a no ser o grande perigo 
pelos quais eles passaram poderia unir novamente aquelas duas almas descontentes.

























        Eu olhei para Poirot em silncio. Como ele poderia ter imaginado que um julgamento viria a unir John 
e Mary novamente?

- Eu percebo seus pensamentos, mon ami. Seu amigo Poirot decidiu por uma cois a, e voc est 
errado em conden- lo. A coisa mais importante nesse mundo  a felicidade de um homem e uma mulher.

        Suas palavras levaram- me de volta aos eventos anteriores. Eu lembrei que Mary permanecia o tempo 
todo jogada no sof, totalmente desligada. A campainha tocou, ela atendeu. Poirot disse: "Sim madame, 
eu o trouxe de volta para voc!" John logo chegou e a tomou nos braos.


- Acho que voc est certo, Poirot.  a coisa mais importante do mundo.


        Cynthia entrou na sala.


- Eu... eu... apenas...


- Entre! - disse eu.


        Ela entrou, mas no sentou.


- Eu... apenas queria dizer uma coisa a voc...


-Sim?


        Cynthia observou- nos por alguns instantes, depois disse:


- Vocs so uns anjos!


        Deixou a sala aps beijar eu e Poirot.


-O que isso significa? - perguntei surpreso.


        Foi muito bom ser beijado por Cynthia, mas a publicidade que isso causou quase tirou o prazer.


-Significa que ela descobriu que monsieur Lawrence no a odeia tanto assim.


- Mas...


- Aqui est ele.

























        Lawrence passou pela porta naquele momento.


- Eh, monsieur Lawrence, ns devemos parabeniz - lo.

        Lawrence sorriu. Um homem apaixonado  triste de se ver. Cynthia estava muito atraente.


        Eu a observei.


-O que foi, mon ami?


-Nada. - eu disse aborrecido - so duas belas mulheres...


-...e nenhuma com voc. - finalizou Poirot - No importa, mon ami. Ns ainda caaremos juntos, e 
ento quem sabe...





***** O FIM *****
